MA: Falece Manoel da Conceição, histórico dirigente camponês

Manoel da Conceição, dirigente camponês e natural do Maranhão, faleceu no último dia 18 de agosto. Foto: Reprodução

Morreu aos 86 anos, no dia 18 de agosto, Manoel da Conceição, o Mané. Manoel foi um dirigente histórico do campesinato maranhense que, através de sua atuação política em sindicatos e como militante da Ação Popular (AP), foi temido pelo latifúndio e pelas oligarquias locais. “Mané” ficou internacionalmente reconhecido como símbolo da luta por terra no Brasil após o golpe militar de 1964.

Manoel iniciou sua militância no Vale do Pindaré-Mirim, em Santa Inês, a 300 quilômetros de São Luís, capital do Maranhão. Através do Movimento de Educação de Base (MEB), criado por Paulo Freire, logo se estabeleceu como liderança frente aos sindicatos de camponeses. Ajudou a generalizar a derrubada de cercas na sua região e também atuou na organização de cooperativas e de roças coletivas. Fez parte do grupo de militantes da AP que viajou à China, retornando ao Brasil comprometido ideologicamente com o pensamento mao tsetung e a linha de preparar a Guerra Popular.

É nesse período que se torna nacional e internacionalmente reconhecido. Durante uma invasão policial no sindicato que dirigia, levou dois tiros de fuzil na sua perna. Após seis dias preso sem tratamento, teve de amputá-la na capital. O caso gerou tamanha comoção na cidade que o próprio José Sarney, representante dos senhores de terra e então governador do Maranhão, apresentou-se para acompanhar o caso pessoalmente. Sarney ofereceu-se para pagar uma prótese de perna a Manoel, que respondeu, desafiante: “Eu considero que, daqui pra frente, a classe com que eu luto vai me dar uma perna”. E, em seguida, lançou a famosa frase, que se tornaria palavra de ordem entre as massas: “Minha perna é minha classe”. Sua perna mecânica foi presenteada eventualmente pela República Popular da China após ter saído da prisão.

Reportagem sobre a campanha internacional em defesa da vida de Manoel em jornal estrangeiro nos anos de 1970. Foto: Reprodução

Apesar de tratar-se de um caso famoso, o fato comumente ignorado mesmo nas celebrações recentes de sua vida é que, no momento do ataque à tiros contra Manoel da Conceição, o sindicato continha faixas com os dizeres, Guerra Popular derruba ditadura, Gado come roça, come bala e Criação do Exército Popular. Não se tratou, evidentemente, de uma “luta por seus direitos” ou “por cidadania”, ou mesmo pela reforma agrária em abstrato, o que gerou a repressão feroz contra Manoel - como geralmente coloca o oportunismo e mesmo o próprio Manoel passou a colocar posteriormente. A crueldade do ataque perpetrado pelas forças reacionárias foi motivado pela organização da luta camponesa estar sendo, cada vez mais, dirigida pelo proletariado através da propaganda ativa da organização do campesinato para a revolução agrária pela conquista da terra, expresso no trabalho da AP. Esse fato está contido na famosa entrevista de Manoel à socióloga Ana Galano, editada como o livro Essa terra é nossa, publicado em 1979 em Paris. Nesse texto mesmo se reforça que, quando organizados com propósito reformista, os sindicatos rurais podiam até conformarem grupos armados - foi, portanto, a utilização de propaganda revolucionária que intensificou a repressão.

Ainda assim, havia limites na aplicação da linha da guerra popular pela AP, a que pesasse a bravura das massas camponesas sob sua direção. Na entrevista, Manoel interpreta que havia aplicação mecânica da linha militar proletária à realidade concreta.

"Naquelas alturas, eu digo com sinceridade, mesmo que aquele grupo estivesse armado e resistisse, depois nós não tínhamos condição de continuar, porque não tinha Guerra Popular coisa nenhuma. A gente ia ser massacrado aos poucos. Nós não tínhamos nenhum plano de guerrilha organizado na região, embora tivéssemos estudado teoricamente os problemas. Tampouco havia um plano nacional que articulasse o campo e a cidade."

Em 1972, Manoel foi novamente preso num cerco realizado pelo regime militar fascista que tinha por objetivo a prisão de membros da AP que realizavam ações de propaganda armada na região. Dali foi levado para o Rio de Janeiro, onde foi duramente torturado e estuprado durante vários meses, até a beira da morte. Nesse período, uma campanha internacional em defesa de sua vida ressoou na Inglaterra, na França, na Suíça, na Albânia e na Itália, e mesmo dentro da Igreja Católica, tendo a adesão do então Papa Paulo VI. Sua prisão sem condenação durou por três anos e quatro meses.

Após seu exílio na Suíça, retorna ao Brasil anistiado em 1979. Talvez pela quase completa liquidação do movimento revolucionário, talvez pelas sucessivas derrotas surgidas das limitações na compreensão da ideologia do proletariado nos processos de luta os quais fez parte, fato é que Manoel abandona ali várias posições proletárias que desfraldou toda a vida e passa a descrer da possibilidade de revolução no país. Já na citada entrevista do livro, se mostra crítico de suas ideias comunistas e de seu período de militância; através das quais contribuiu concretamente, apesar dos revezes, para a luta do povo brasileiro. É necessário reconhecer seus limites e grandezas, que refletem os limites e grandezas de sua própria organização, a AP. Nesse período, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual se candidatou ao governo de Pernambuco e a senador pelo Maranhão, sem sucesso. Sobre isso, teria dito: “Eu não sei disputar votos porque não consigo mentir”.

Manoel ainda ficaria famoso por uma outra demonstração de força, que comprova-lhe a honestidade de consciência mesmo enveredado no oportunismo: em 2010, quando o PT vergonhosamente desfez suas candidaturas no Maranhão para apoiar os velhos algozes de Manoel, a família Sarney (na figura de Roseana Sarney, sigla PMDB), Manoel fez greve de fome e enviou carta ao então presidente Luiz Inácio, onde dizia:

“Eu pessoalmente, há mais de 50 anos venho travando uma luta contra os poderes oligárquicos e contra os exploradores da classe trabalhadora neste país. Por conta disso perdi dezenas de companheiros e companheiras que foram barbaramente trucidados por essas forças reacionárias. Como que agora meus próprios companheiros de partido querem me obrigar a fazer a defesa dessas figuras que me torturaram e mataram meus mais fiéis companheiros e companheiras. Vocês podem ter certeza que essa é a pior de todas as torturas que se pode impor a um homem. Uma tortura que parte dos próprios companheiros que ajudamos a fortalecer e projetar como nossos representantes no partido e na esfera de poder do Estado”.

Apesar disso, Manoel manteve-se fiel à sigla oportunista até onde pôde. Deixa dois legados, que conformam a totalidade de sua história. Caberá à posterioridade dizer qual destes legados será retomado cabalmente nas futuras lutas do povo brasileiro. Deixamos essa citação de sua entrevista para o reconhecimento de quem é o homem Manoel da Conceição, que apesar dos pesares, manteve sua “indômita vértebra de camponês e de lutador do povo” até os últimos dias, como outrora disse Fausto Arruda.

"Hoje não tenho fé assim no Deus que fez tudo, que determina tudo, não tenho. Hoje eu tenho outro tipo de fé, que talvez não tenha como explicar. Luto hoje por uma nova sociedade, mesmo sabendo que os homens não pensam nessa nova sociedade, que os trabalhadores, os operários estão bêbados, envenenados com a ideologia da classe dominante. Acredito profundamente que esses homens são capazes de se transformar num novo homem, que pensa diferente. É por isso que penso nessa sociedade e isso pra mim é questão de fé. Porque, na realidade, não existe ainda. Nós não temos um tipo de homem que tenha enraizado na sua mente um novo modo social onde todos os homens sejam iguais, se respeitem mutuamente, sintam as mesmas coisas uns dos outros, a mesma dor, sintam o mesmo problema do outro, tenham um amor profundo ao homem como ele é". 

"Mané" teve atuação importante na luta contra o regime militar dos anos 1970. Foto: Reprodução

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