Editorial semanal – Um acontecimento histórico

Após a vitória da Resistência Nacional afegã, os invasores ianques foram derrotados e saíram às pressas do país. O fato gera condições mais propícias para o cumprimento da tarefa pendente de desencadear a Revolução. Foto: Reprodução

Após vinte anos de uma guerra suja, que não recuou ante nenhuma atrocidade – violações, torturas, assassinatos, bombardeios contra civis e outros crimes de lesa-humanidade – o Estados Unidos (USA) e seus sócios minoritários, como de outras vezes na história mundial recente, foram escorraçados do Afeganistão. A saída, dita planejada, se assemelhou muito mais a uma debandada. Como ocorrera outrora no Vietnã, as hordas do imperialismo e os seus lacaios se engalfinharam para escapar do país, em desespero, enquanto havia tempo. Quão distante parece aquele dia em que um arrogante George W. Bush declarou, com ares imperiais, que todas as nações deveriam decidir “se estão conosco ou com os terroristas”! Aqui, se cumpriram mais uma vez duas afirmações do Presidente Mao, que provaram ser de grande abrangência histórica: a de que a lógica do imperialismo é criar distúrbios e fracassar, e de que o imperialismo é um tigre de papel.

A verdade inelutável é que a Resistência Nacional afegã colocou o imperialismo ianque e os seus lacaios de joelhos. Este é o prisma decisivo sob o qual os recentes acontecimentos devem ser interpretados.

Seguidores de Goebbels, os “jornalistas” a soldo da OTAN tentam pintar a saída do invasor como uma desgraça que se abateu sobre o país ocupado. As centenas de prisões clandestinas e câmaras de tortura mantidas pela coalizão de agressores – inclusive nas próprias dependências do agora icônico aeroporto de Cabul - seriam salvaguardas da “liberdade”? A corrupção generalizada do governo títere, formado por toda sorte de espiões, delatores e carrascos do seu próprio povo, é agora modelo de probidade? Afinal, se tudo estava bem no Afeganistão coalhado de tropas invasoras, como se explica a derrota destas forças no curso de uma guerra prolongada? Teria sido possível aos Talibãs e a outros atores da resistência tomar o poder, sem contar com efetivo apoio popular para tal? De onde saíram, afinal, as legiões de combatentes que integram as fileiras desta força, senão do volumoso campesinato e massas de estudantes? Se sob a direção de uma força limitada como o Talibã empreenderam tal façanha, que farão essas massas humanas se sob direção da ideologia do proletariado internacional, ideologia todo-poderosa porque científica e verdadeira?

Na verdade, é odioso ver os carrascos dos povos oprimidos querendo falar agora em sua defesa. A tentativa norte-americana de redesenhar o mapa do Oriente Médio, que fracassou até aqui, nada tem de humanitária, mas visa tão-somente salvaguardar os seus próprios interesses frente a outras potências, em especial a Rússia imperialista e a China social-imperialista. Visa, em suma, adiar o seu colapso inevitável. No lastro dessa tentativa, o sangue dos povos oprimidos nunca foi poupado. Olhemos, por exemplo, o genocídio sistemático do povo palestino, alvo de todos os crimes de guerra e crimes contra a humanidade perpetrados pelos carrascos sionistas, que recebe todo o suporte destas mesmas forças “democráticas ocidentais”. Sobre esta teia monstruosa de atrocidades, se calam os “ardorosos” humanistas de ocasião.

O próprio Afeganistão, após duas décadas de ocupação, amarga um dos piores índices de desenvolvimento humano da Ásia, e é seguramente um dos países que mais sofre com a pobreza no mundo. Dos 193 países reconhecidos pela ONU, ocupa a 167ͣ posição quanto ao IDH; a 154ͣ posição quanto à expectativa de vida 64,8 anos (no Brasil, com todas as mazelas que conhecemos, ela é de 76,6 anos); ocupa a 11ͣ posição quanto à parcela da população atingida pela subnutrição (30%); e a 71ͣ colocação quanto à alfabetização (43% da população). Este é o saldo dos trilhões de dólares ianques torrados na “reconstrução do país”, drenados pelas milhares de Ongs norte-americanas e europeias (que amealharam fortunas explorando a pobreza, e a mão de obra quase gratuita dos afegãos) e pelas “autoridades” títeres.

Neste mar de miséria e de guerras sem fim, as mulheres não podem ter uma vida digna. Como seria possível que todo um país padecesse, mas suas mulheres progredissem? Isso é uma impossibilidade prática e um absurdo por definição. Além disso, sabemos bem qual posição ocupam as mulheres em geral no interior da sociedade imperialista burguesa: elas recebem os piores salários, são submetidas às piores relações de trabalho e arcam com toda a responsabilidade da educação das crianças e dos cuidados dos idosos e enfermos. Isto é particularmente agudo no caso das massas de imigrantes, tratadas com ódio e desprezo no seio dos países imperialistas. Quanto ao aspecto estritamente cultural, a fotógrafa iemenita Boushra Almutawakel, em recente entrevista à BBC, protestou contra o uso da sua série “Mãe, filha e boneca” (em que fotografou à sua filha e à si de burca) como peça de propaganda do “Ocidente”. Ela disse:

Não estamos focando nos reais problemas. Sempre se diz às mulheres o que fazer, para usar o hijab ou tirá-lo, ser magra, ser jovem... Deixem-nos em paz! Veja o que é a indústria de maquiagem e do bem-estar. Os bilhões de dólares que circulam aí. As mulheres passam por cirurgias plásticas e morrem de fome para ficarem magras. Essa também é uma forma de opressão”.

Sobre o futuro do povo afegão, e das mulheres em particular, a sua emancipação só poderá ser obra da sua ação mesma. Nenhum povo pode se libertar pela tutela de outro – esta visão, aliás, pressupõe a existência de povos superiores e inferiores; é a podre ideologia do colonialismo, embrulhada em linguagem contemporânea. É necessário que a heroica guerra de libertação nacional se transforme em uma Revolução de Nova Democracia ininterrupta ao Socialismo, fundamental para liquidar a base econômica dos “senhores da guerra” que oprimem as massas populares afegãs. Sem esta revolução, a vitória contra o agressor será açambarcada por um ínfimo número de elementos feudais-burocráticos, que farão o jogo de uma ou outra potência, de novo. A esta tarefa já não se pode contar com as antigas forças, empenhadas na causa estritamente nacional, que até aqui foram potenciais aliadas do proletariado; mas pode e deve ser cumprida, desde que o proletariado e o campesinato daquele heroico país se organizem firmemente numa frente única revolucionária, sob direção daquele primeiro, através de seu Partido Comunista, e que atraia para o seu lado a pequena-burguesia e a incipiente burguesia nacional (média burguesia).

A expulsão do invasor ianque e seus lacaios da OTAN no Afeganistão gera condições mais propícias, e não menos, para o cumprimento daquela tarefa pendente. É, ao mesmo tempo, uma incalculável contribuição, e um inestimável encorajamento, para a luta anti-imperialista nos quatro cantos do mundo. Ela comprova a extraordinária época histórica, a nova época de Revoluções que está se abrindo em meio a Nova Era desbravada pela Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917; época na qual, decompondo-se formidavelmente, o imperialismo já não tem as mesmas bases de outrora para lançar suas guerras de agressão e obter êxito facilmente; época em que o custo de seus projetos coloniais genocidas é demasiado caro, porque crescentemente insustentável do ponto de vista político e, no entanto, são cada vez mais necessários economicamente para assegurar sua sobrevida; época em que o proletariado é propulsionado por condições objetivas nunca amadurecidas a tal ponto para as grandes transformações sociais à escala mundial e que, subjetivamente – ao contrário da choraminga dos “socialistas” eleitoreiros que não creem na força revolucionária das massas e traficam com seus interesses e padecimentosavança conscientemente através da guerra popular na Índia, Peru, Turquia e Filipinas e as que se gestam em muitos outros países, para fundir as lutas de libertação das nações oprimidas, como revoluções de nova democracia, com a luta do movimento proletário internacional, para varrer o imperialismo e toda a reação da face da Terra. Enfim, por isso, época de grandes tormentas mundiais, na qual o mundo já entrou e na qual a tendência principal, histórica e política, é a Revolução Proletária Mundial.

Ouça já o Editorial Semanal de 31 de agosto de 2021:

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