Editorial semanal – A montanha pariu um rato

As milhares de pessoas que se aglomeraram para ouvir o decreto de Bolsonaro se frustraram com o palavrório vazio do fascista. Foto: Banco de Dados AND

O prometido “Armagedon” de Bolsonaro, o seu Juízo Final Golpista, foi o retrato do que tem sido seu governo até aqui: muita fumaça, pouco calor. A verdade lastimosa é que a alardeada “segunda independência nacional” foi tão efetiva quanto a primeira, há 199 anos. Ou seja, esteve mais perto de ser mesmo uma farsa.

Este capitão do mato contemporâneo, que se finge de presidente, tanto quanto se fingira outrora de capitão e de deputado – cuja corrupção, ociosidade, inépcia e truculência resultaram, na inaceitável cifra de quase 600 mil mortos em decorrência da Covid-19 tendo à frente do Ministério da Saúde um general da ativa supostamente “especialista em logística”, assim como na maior fome e desemprego desde a crise da dívida do início dos anos 80 – não se saiu melhor nem mesmo na sua paródia de golpe de Estado: as milhares de pessoas que se aglomeraram para ouvir o seu “mito” decretar a Dinastia Bolsonaro I não só frustraram-se com o palavrório vazio com que foram retribuídas, como mal puderam ouvi-lo, por falhas na aparelhagem de som montada para o evento. Neste 7 de setembro, para lembrar as palavras com que Marx zombava da covardia da burguesia alemã em 1848, é correto dizer que a montanha pariu um rato.

A relevância deste cachorro raivoso no atual cenário político não prova alguma grande habilidade que lhe seja intrínseca, porque ele jamais a demonstrou escrevendo, falando ou trabalhando. Expressa, isto sim, a profunda divisão das classes dominantes reacionárias e a incrível decomposição do seu sistema político, que não goza de nenhuma credibilidade e legitimidade perante as massas populares. Seria vão buscar interpretar a atual situação pelo que tem Bolsonaro; a explicação está, na verdade, no que nos falta nessa falsa democracia – e a verdade é que, às massas trabalhadoras, falta tudo. Cansadas de ilusões, estas massas tomaram as ruas, aos milhões, em 2013, e parte delas foi arrastada pelo discurso hipócrita de ruptura de Bolsonaro em 2018.

Outro ponto decisivo: a direita liberal, oligárquica, aposta todas as suas fichas no Exército reacionário, a quem credita, em última instância, a salvaguarda das sacrossantas instituições – achincalhadas, vilipendiadas e reveladas como trastes impotentes todos os dias. Oras, Bolsonaro é réu confesso e continuado tanto de crimes comuns quanto de crimes de responsabilidade, e o que lhe ocorreu até agora? Nada. Pela simples razão de que ao Alto Comando das Forças Armadas parece mais caro derrubá-lo, pela mobilização que poderia ser posta em marcha, do que mantê-lo. Na verdade, ideologicamente, não há nenhuma diferença relevante entre o que pensa Bolsonaro e os outros generais formados na Academia Militar, muitos dos quais, seus contemporâneos. São todos anticomunistas, americanófilos, demofóbicos. Não houve nenhum golpe fascista até agora porque está claro que, se os tanques fossem às ruas num dia, as massas ocupariam as mesmas ruas, em multidões jamais vistas, algumas horas depois. É verdade que não se para um golpe fascista com passeatas; mas também é verdade que, sendo amplo o leque da resistência, maior será o número daqueles que, no seu meio, saberão encontrar a tática e as formas de luta apropriadas para fazê-lo. São as massas operárias, camponesas, os intelectuais honestos e os autênticos progressistas a verdadeira alma viva da nacionalidade, como dizia Euclides da Cunha. Contra esta muralha, dirigida pela vanguarda proletária que se gesta no seu seio, nada poderão fazer, no plano histórico, os traidores e reacionários, civis ou militares.

É interessante notar que, nos círculos liberais burgueses, e nos seus acólitos socialistas pequeno-burgueses, o estado de espírito na última semana passou da histeria ao abatimento, e deste ao alívio após o desfecho de 7 de setembro. Como não veem o tortuoso, cruento, e inevitável processo de transformação revolucionária da história, estes obtusos são escravos das aparências, e só sabem dizer se faz sol ou faz chuva. No fundo, não questionam a divisão da sociedade em classes antagônicas, para eles tão natural como era no século XVI a teoria divina dos reis a justificar o absolutismo, mas temem que esta divisão se acirre até se converter na luta consciente dos oprimidos pela sua emancipação. No plano tático, estes democratas senhoriais disputam com a extrema-direita fascista a direção da contrarrevolução, para manter, nos eixos, a velha ordem; no plano estratégico, formam um campo único, cuja negação perfeita só pode ser a Revolução de Nova Democracia. O capitalismo burocrático, especialmente em sua crise geral de decomposição, é ingovernável e por isso precisa do fascismo. Ele não pode ser aperfeiçoado. Ele deve ser posto a baixo, destruído.

Isto não significa que os partidários da via revolucionária podem se dar ao luxo de cruzar os braços, como se a disputa no campo da reação não lhes dissesse respeito. Isto seria mais do que um erro, seria uma ignominiosa traição à causa operária. Aprendemos com Marx que, se a luta reivindicativa não pode, por si só, abolir a exploração do trabalho assalariado, ela é importante, pois uma classe que se deixasse saquear impunemente estaria desmoralizada para cumprir as grandes tarefas históricas quando elas se apresentassem na ordem do dia. Por isso, se é claro que esta democracia burguesa-latifundiária, pró-imperialista, farsesca, oligárquica, odiosa, hipócrita, tutelada pela casta militar, não serve aos operários e camponeses, também é claro que ainda menos lhes servirá um regime de tipo fascista, assentado na corporativização das massas e no terror contrarrevolucionário aberto. Os operários e camponeses não rechaçam a importância das liberdades democráticas para a sua luta, muito ao contrário; a sua diferença para o liberalismo senil e para o oportunista é que estes apresentam aquelas como um fim, aos quais devemos subordinar tudo, inclusive a vitória, enquanto os operários e camponeses as tomam como um meio transitório de mobilizar e coesionar as suas forças e de prepará-las para a grande tarefa da luta pelo Poder.

Por sua vez, as manifestações convocadas pela “esquerda” reformista oportunista eleitoreira, mais uma igualmente falsa defensora do povo, traficante que é também dos interesses e do engano das massas, foram só choraminga legalista. Nada mais servem, essas manifestações legalistas, do que corolário ao embuste de democracia das forças liberais, partidos e monopólios de imprensa, representantes das frações da grande burguesia e latifundiários divididas em pugnas intestinas. Classes dominantes que apoiaram a eleição de Bolsonaro e, agora, acham-se iracundas com seu governo, primeiro pela fracassada condução da sua economia semicolonial afundada e, segundo, pela desestabilização do seu regime político de dominação.

As duas disputas, tanto no campo das classes dominantes pela direção da contrarrevolução, como entre estas no seu conjunto e as massas populares, ainda estão longe de um desfecho. A única certeza deste 7 de setembro de 2021 é que a maior crise institucional e militar da nova república apenas prepara condições para a eclosão da próxima, e da próxima, até o seu varrimento definitivo pela Revolução de Nova Democracia.

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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