Editorial semanal – A república dos banquetes

Engana-se quem pensa que o Brasil é governado em sessões públicas do Congresso, eleito em viciados pleitos periódicos. Na foto, Bolsonaro e Temer, recém juntados pelas forças do establishment. Foto: Mauro Pimentel

No dia 17 de setembro, a brasileira Lenilda dos Santos, 49 anos, foi encontrada morta na zona desértica da fronteira do México com o Estados Unidos (USA). A enfermeira teria sido abandonada por outros imigrantes durante a travessia, e morreu à míngua, exausta, com fome e com sede. Num país que teve, na década de 2010-2020, os piores indicadores econômicos em um século, e que atravessa no presente a soma demoníaca de recessão e alta de preços, com quase 15 milhões de desempregados formais, este é o retrato agudo do que se passa nas entranhas de nossa sociedade, com contingentes enormes da população condenada à miséria e ao desespero.

Na madrugada do dia 14, vieram à tona cenas bizarras de um jantar em que um grupo de empresários marginais – como o formador de pirâmides Naji Nahas, o eterno concessionário Johnny Saad, dono da Band – e bobos da corte profissionais, reunidos em torno de Michel Temer, escarnecem do golpismo manco de Bolsonaro. Seja pelos trajes, pelos utensílios ou, sobretudo, pelo aspecto um tanto grotesco dos comensais, um observador desavisado poderia concluir se tratar de algum evento oitocentista, convescote de Barões no Segundo Império. Para estes parasitas da Nação, não há crises, nem mudanças de governo que ameacem os seus negócios seculares. Engana-se quem pensa que o Brasil é governado em sessões públicas do Congresso, eleito em viciados pleitos periódicos – não, nossos destinos são traçados em banquetes privados como este.

Pois sim, a “visita” de Temer a Bolsonaro não foi iniciativa deste, como dizem os que só enxergam as aparências. Foi imposição do núcleo duro do establishment político-econômico ao capitão do mato: ou enquadra-se ou cai. Porque, afinal, este setor, na sua maioria, não está interessado em mudanças formais no regime político, pelo menos por enquanto. A sua “democracia” formal, assentada quase que apenas nas farsas eleitorais, pois carente de reais direitos, um mero comitê para gerir os negócios da burguesia, como diziam Marx e Engels, tem se mostrado um mecanismo mais eficiente para manter as massas alijadas do processo político do que um regime de exceção escancarado. É evidente que a entrada em cena do movimento revolucionário pode e, a prazo, certamente alterará este estado de coisas. Por isso, esta direita oligárquica limita, mas não chega ao ponto de defenestrar Bolsonaro: do mesmo modo como ela necessita de comediantes e garçons nos seus jantares, ela sabe que sempre pode precisar dos serviços de gente como ele. Alguém, afinal, precisa fazer o trabalho sujo.

Por fim, é importante registrar o primeiro pronunciamento do general Paulo Sergio, Comandante do Exército, após o fracassado 7 de setembro de Bolsonaro. Nele, reforça o apego da Força à sua “missão constitucional”, prega “cautela” com o que circula nas redes sociais e, mais de uma vez, exorta os comandados a observarem o respeito aos seus superiores, à hierarquia e à disciplina; enquanto deixa, conscienciosamente, abertas as brechas nas interpretações da constituição que lhes legitimem (as Forças Armadas) a uma intervenção, se necessária. A histórica força pretoriana do latifúndio e da grande burguesia, serviçais do imperialismo, marcha por ora alinhada com a opinião dominante da direita civil, representantes mais diretos dos senhores do país. Por que iriam, hoje, com Bolsonaro, até um golpe militar aberto, se já têm à disposição milhares de cargos e o controle relativo da máquina estatal, sem ter que assumir o desgaste de responder em público pelos atos de governo? Os inimigos do povo têm todos os defeitos, mas não são estúpidos. Esta aparência de constitucionalidade, manejada pelos generais, os quais conservarão no mínimo um poder de veto qualquer que seja o próximo governo, é a forma mesma da intervenção militar nos dias de hoje enquanto for capaz de assegurar o avanço mínimo de suas tarefas.

Às forças democráticas e populares urge ver e fazer ver além da cortina de fumaça. É preciso convocar os operários e camponeses a prosseguir e impulsionar suas lutas, ainda com mais energia, pelo pão, por terra, por emprego, por uma nova democracia. A juventude e os intelectuais honestos devem ser convocados a elevar mais alto a luta em defesa do direito de estudar e de aprender; o direito de viver com dignidade do seu trabalho científico e artístico. Nessas lutas bastante concretas, vem se forjando a única força capaz de derrotar o golpismo e o fascismo, quando a hora do acerto de contas chegue. Agora, hoje, neste momento, nosso gume principal deve estar apontado contra esta falsa democracia e a ofensiva contrarrevolucionária preventiva movida pelos senhores generais anticomunistas e americanófilos, máquina sistemática de opressão e morte dos mais pobres e guardiões desse simulacro de “Estado Democrático de Direito”, ferrolho contrarrevolucionário odioso responsável ao longo de nossa história contemporânea por aplastar a ferro, fogo e sangue todas as tentativas do povo brasileiro em levar a cabo a necessária revolução democrática, tal como no presente responsável pelas mortes na fila do SUS, pelo genocídio de camponeses e povos indígenas, assim como da juventude favelada, pela corrupção descarada, pelo cortejo de males que fez recuar, nos últimos anos, até a expectativa de vida dos brasileiros, sinal inequívoco de um grande salto para trás civilizatório.

Apontemos, pois, contra a república dos banquetes!

Ouça já o Editorial Semanal de 22 de setembro de 2021:

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