Editorial semanal – A Longa Marcha

Marcha de camponeses de Rondônia organizada pelo Codevise e pela LCP no dia 9 de agosto de 2010 marcando os 15 anos da Heroica Resistência de Santa Elina. Foto: Banco de Dados AND

Temos dito, e insistimos, que tanto a disputa tática no campo da reação pelos rumos do País – alimentada, na base, por uma debacle econômico-social que supera a da crise da dívida nos anos 1980, que cunhou a expressão “década perdida” – como a disputa estratégica entre as classes dominantes no seu conjunto e as massas populares estão longe de um desfecho. A revolução, como força efetiva, à cabeça de todos os setores progressistas, não tem condições de se impor como alternativa no curto prazo; a contrarrevolução e seu séquito de partidos e atores que vão da extrema-direita aos social-democratas já não é capaz de governar com um mínimo de legitimidade. Temos, pois, um impasse.

Bolsonaro aposta no golpismo e o faz de modo escancarado. Não tem, até aqui, conseguido arrastar os setores mais influentes do chamado PIB – meia dúzia de bilionários que determinam, nos seus banquetes privados, o futuro da nação – e, por decorrência, o Alto Comando das Forças Armadas, muito mais reativas do que parece. Como medula do Estado reacionário, estas atuam sempre, qualquer que seja o regime político ou o partido no governo, como tropa de ocupação interna. E não hesitarão, é certo, de ir até um regime militar completo quando a velha ordem esteja seriamente contestada. E este, por enquanto, apesar de todos os horrores, não é o caso. Engana-se quem pensa que bastam crises, e mesmo crises bem mais sérias do que a atual, para que o antigo regime caia de podre. Sem a intervenção consciente do movimento revolucionário – e ela cobra um tempo prolongado para amadurecer e polarizar a sociedade - não há revolução. Antes que isso ocorra, pode-se ir de agravamento em agravamento, permeados por curtos lapsos de recuperação e de ilusões, época de incrível degradação que espolia as massas de maneira silenciosa e até mais brutal do que fazem os grandes acertos de conta históricos.

Isolado após o fracassado 7 de setembro, Bolsonaro deu um passo atrás. No fim das contas, dar tempo para um adversário em vias de ser nocauteado, é ajudá-lo, diga-se o que se queira. Não está descartada a possibilidade de uma convulsão social fazer o cão raivoso abanar mais uma vez o rabo, nem de ele conseguir, de novo, atrair parte da direita liberal para o seu palanque (cuja influência social é infinitamente maior do que seu número na sociedade, pois aqui se trata das lideranças políticas reconhecidas pelos seus pares, os monopólios de comunicação etc), ganhando mais um mandato que terminará ou no impeachment e na cadeia ou no autogolpe.

Outra possibilidade, ainda que difícil para o momento em que disputa com Bolsonaro, é o Alto Comando impor uma reestruturação do velho Estado, mediante sua intervenção militar (seja pela coação institucional “pacífica” ou pela imposição em sua interpretação do artigo 142, desde que se agravem as dificuldades de seu plano e desde que muito bem respaldadas na “legalidade, legitimidade, estabilidade” e com apoio da direita liberal), neutralizando a extrema-direita, e cujo resultado seja um novo regime político, não militar e fascista, mas sim civil demoliberal mais deformado, mais reacionário e mais restritivo. Além de todos esses fatores depende de Bolsonaro se desidratar ainda mais e preferencialmente perder a eleição.

De outro lado, Lula tenta a todo custo se apresentar como o candidato da direita oligárquica – que se autodenomina “democrática”. Busca um segundo José Alencar para vice (de preferência, uma empresária bem sucedida), escreverá quantas cartas aos banqueiros sejam necessárias e fará alianças que vão da esquerda oportunista até partidos do dito “centrão”, que hoje estão com Bolsonaro. É coerente num quesito: nunca abriu mão da colaboração de classes, ao contrário de certos intelectuais “radicais”, que propugnam quase como um auto de fé a necessidade de uma “ruptura”, mas no frigir dos ovos conciliam sempre com os conciliadores. Um eventual governo do PT seria um governo de crise: com o país arrasado do ponto de vista econômico, com uma brutal fuga de capitais e desvalorização histórica do real, com a desindustrialização incessante e num contexto internacional que tende também para a crise – vimos o pânico que a falência de uma gigante financeira chinesa provocou nas bolsas do mundo inteiro, ademais das recentes declarações de renomados economistas burgueses sobre a possibilidade de uma nova crise em até três anos – não haveria margem para suas políticas compensatórias, assentadas em forte endividamento público e crédito farto para os bancos, lastreados em taxas de juro escorchantes. Internamente, seria contestado de modo contínuo por, pelo menos, um terço do eleitorado, que marcha com Bolsonaro e sobreviverá a ele, e também pelo movimento popular e revolucionário, que denunciaria todas as promessas que ele não poderá cumprir. Os militares, com mais de 6 mil cargos no Executivo federal, manteriam postos-chave – o preço da sua anuência com a posse do novo mandatário – e exerceriam mais do que no corrente o poder de veto.

Em suma, se ganhar, Luiz Inácio coroará sua biografia de maior renegado e vende-operários da história do Brasil.

As chances de um outro nome frutificar são, por ora, remotas. Lula e Bolsonaro já são mais do que representativos das forças do atraso da grande burguesia e do latifúndio, serviçais do imperialismo. Preenchem todo o cenário. Esse é o cenário intocável a menos que o impeachment avance, quadro que parece, hoje, improvável.

Aos setores revolucionários e democráticos, cabe atuar de modo incessante entre as massas populares, na defesa dos seus interesses de classe mais concretos. Há um enorme material inflamável nas entranhas da sociedade brasileira, lacerada pela fome galopante e pelo desemprego. A indignação não tem candidato, tanto no sentido de que uma parte enorme da população não votará em nenhuma das falsas alternativas, como no sentido de que entre eleitores iludidos por alguma destas também há disposição de luta quando chamados a defender seus interesses palpáveis. E jamais se pode excluir a possibilidade de esta indignação rebentar em ondas de fúria e protestos massivos, nos quais as forças consequentes podem avançar em semanas ou dias o terreno que, em tempos normais, cobraria meses ou anos para ser percorrido. Enquanto a economia de capitalismo burocrático se afunda na dependência da exportação de produtos primários, a luta pela Revolução Agrária se agrava como o nó górdio e o centro de todas as contradições do País.

Em suma, estamos certos de que a Revolução no Brasil vencerá, mas não sem antes percorrer a sua própria Longa Marcha.

Ouça já o Editorial Semanal de 05 de outubro de 2021:

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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