RO: Camponeses resistem e denunciam invasão criminosa de tropas policiais

Desde 11 de outubro, policiais encapuzados têm praticado uma série de investidas criminosas contra os camponeses das Áreas Tiago Campin dos Santos e Ademar Ferreira, no distrito de Nova Mutum, zona rural de Porto Velho, em Rondônia. As tropas de agentes do velho Estado brasileiro agem a serviço do latifúndio e recentemente invadiram diversas áreas camponesas organizadas pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP). Um novo massacre está sendo preparado pelas forças de repressão, conforme apontam denúncias feitas pelos trabalhadores e por diversas entidades democráticas. 

O estado de Rondônia foi palco de uma série de resistências camponesas contra a violência do latifúndio ladrão de terra. Desde 1995, no episódio conhecido como a Heróica Resistência de Corumbiara, até mais recentemente, na vitoriosa jornada de lutas do Acampamento Manoel Ribeiro, milhares de brasileiros camponeses pobres, sem terra ou com pouca terra, unidos à uma massa de desempregados que se transferem ao campo em busca de um terra para viver e trabalhar, têm levado a cabo uma grande luta.

Os graves relatos dos camponeses

O AND teve acesso a diversos áudios onde os camponeses das áreas Tiago Campin dos Santos e Ademar Ferreira relatam que os ataques mais estão sendo praticados pelas tropas da Força Nacional de Segurança Pública do fascista Bolsonaro e pela Polícia Militar (PM) assassina do governador Marcos Rocha. As incursões terroristas dos agentes da repressão incluem ainda tropas do Batalhão de Fronteira e caminhões do Corpo de Bombeiros. 

“Os policiais estão todos encapuzados, ninguém vê o rosto de ninguém não, estão daquele jeitão mesmo, ‘tão’ vindo com vontade de executar este povo aqui”, relata um camponês que segue: “[os camponeses] soltaram fogos e eles [os policiais] voltaram para trás. Olha o horário, são 17h47 agora, eles estavam aqui até agora”, constatando que a resistência empreendida pelas famílias tem impedido que o massacre prenunciado aconteça.

Os camponeses em luta também ressaltam a possibilidade de parte das tropas estarem escondidas na mata. “Rajadas de fuzil lá na frente. Os homens vieram no meio da tarde e provavelmente deixaram alguém no mato”, afirma um dos trabalhadores. 

Camponeses denunciam que policiais danificaram motos com furos em pneus e corte de correias. Foto: Resistência Camponesa

De acordo com denúncias, os policiais encapuzados dispararam rajadas de fuzil contra as famílias das áreas, invadiram e reviraram barracos, bloquearam estradas, agrediram trabalhadores, os forçaram a abrirem suas redes sociais em seus celulares, cortaram cabos e pneus de motos e revistaram carros. As famílias relatam que os policiais queriam saber informações sobre supostas lideranças e mostraram fotos.

“Os homens estavam aqui dentro da mata, dentro do assentamento agora à tardezinha, o ‘de Triton’ [marca de caminhonete utilizada pela polícia]. Pegando as pessoas, batendo em gente, dando tapas, revirando carros, abrindo o ‘zap’ na marra”, afirmou um dos trabalhadores.

Chegada de tropas reacionárias

As denúncias apontam ainda que desde a semana passada houve uma grande movimentação na região. Grandes contingentes policiais seguiram de Porto Velho em direção às áreas camponesas. Outras ameaças foram feitas pelos policiais aos moradores da região neste período, utilizando-se da mesma frase pronunciada pelo fascista Bolsonaro em maio.

“Semana passada estiveram no bar daquele senhor lá da esquina, ele fica com medo de denunciar porque ameaçaram ele. Escreveram em cima da mesa: LCP, sua hora está chegando. Tipo uma afronta, uma ameaça”, afirma um dos camponeses.

Caminhonete com homens armados para carro da SEMASF

Os trabalhadores da Área Ademar Ferreira relataram que no dia 04/10 um carro oficial da Secretaria de Assistência Social e Família (SEMASF), órgão da prefeitura de Porto Velho, foi interceptado por pistoleiros quando se dirigiam as áreas camponesas com o objetivo de realizarem um levantamento das famílias. Os camponeses afirmaram que o carro foi parado por duas caminhonetes policiais descaracterizadas, com homens armados com fuzis e rostos cobertos com balaclavas. Após a interceptação, o veículo da prefeitura foi obrigado a se deslocar à sede da Fazenda Santa Carmem e depois retornou a Porto Velho, sem realizar levantamento.

Em 08/10, a Secretaria Estadual de Segurança, comandada pelo coronel Hélio Cysneiros Pachá, o chamado carniceiro de Santa Elina, realizou reuniões com as polícias militar e civil, além do Ministério Público, Defensoria Pública e Peritos. Na madrugada do dia 10/10, camponeses ouviram vários fogos e disparos de escopetas calibre 12 disparados na sede da fazenda Santa Carmem.

Neste período, os policiais atacaram também camponeses da Área 2 Amigos, vizinha às Áreas Tiago Campin dos Santos e Ademar Ferreira. Conforme relatam as famílias, policiais da Força Nacional bloquearam estradas, abordando, humilhando e espancando trabalhadores.

“Muito pai de família revoltado com isso. É muito abuso de poder”, relatou um dos camponeses em áudio.

As famílias seguem resistindo

As famílias camponesas resistem a intensos ataques desde que, em busca de uma vida digna, há um ano ocuparam as terras do antigo latifúndio de mais de 57 mil hectares. O suposto proprietário seria a empresa Leme Empreendimentos Ltda, de propriedade de Antônio Martins (o latifundiário Galo Velho), citado no Livro Branco de Grilagem de Terras como grileiro de mais de 80 mil hectares de terras na região de Porto Velho, conforme aponta o Centro Brasileiro de Solidariedade ao Povos (Cebraspo).

Assembleia Popular das Áreas Tiago Campin dos Santos e Ademar Ferreira, 02 de outubro de 2021. Foto: Resistência Camponesa

Antes paradas, as terras servem agora para o sustento de camponeses

Apenas na Área Tiago Campin dos Santos, vivem e trabalham mais de 800 famílias (cerca de 2 mil pessoas). A partir da chegada na região, os camponeses realizaram o corte popular e iniciaram a produção camponesa. Hoje, as terras trabalhadas pelos camponeses pobres contribuem para o abastecimento e economia local. Atualmente as áreas já contam com escolas e postos de saúde.

Em nota intitulada “Governo de Rondônia prepara novo massacre de camponeses”, o Cebraspo afirma: “Naquelas terras, destinadas apenas à especulação fundiária, a organização popular fez o corte popular e entregou terra para os muitos desempregados que se juntaram aos camponeses pobres sem-terra nos últimos anos de pandemia, devido a fome que assola as periferias das cidades”.

A ação movida pelos camponeses que reocupou a área ocorreu dias depois de uma criminosa tentativa de despejo ocorrida em 10 de outubro de 2020, quando os trabalhadores impediram um massacre da PM.

Em Assembleia Popular (AP) ocorrida no último dia 02/10, as famílias afirmaram mais uma vez que resistirão aos despejos e entoaram palavras de ordem como “Nem que a coisa engrossa, essa terra é nossa!”, “É terra pra quem nela trabalha! Viva a Revolução Agrária!”, “É morte ao latifundiário, viva o poder camponês e operário!” e “Se o camponês não planta, a cidade não almoça nem janta!”.

Democratas se posicionam em defesa das áreas

Em resposta ao chamado feito pela Assembleia Popular da Área, uma missão de apoio, solidariedade e denúncia de violações dos direitos humanos está se deslocando em direção às Áreas Tiago Campin dos Santos e Ademar Ferreira.

O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) também emitiu no dia 05/10 uma nota denunciando o iminente despejo contra a Área Tiago dos Santos emitida em 27/09 pelo juiz Ilisir Bueno Rodrigues, onde foi solicitado reforço policial considerável para a região. 

As famílias camponesas seguem convocando os verdadeiros democratas a denunciar e repudiar as ações criminosas do velho Estado a serviço do latifúndio ladrão de terras da União. Aponta ainda que é necessário se solidarizar e apoiar decididamente a resistência dos camponeses das Áreas Ademar Ferreira e Tiago dos Santos e impedir que uma nova chacina de camponeses ocorra.

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