Chile: Camponeses realizam ações de sabotagens contra a intervenção militar no sul

Camponeses incendeiam caminhões do latifúndio no Chile. Foto: Werken Noticias 

Na madrugada do dia 19 de outubro, diversas ações de sabotagem foram realizadas por grupos de camponeses no sul do Chile que lutam contra o latifúndio, mineradoras e outros exploradores nativos ou imperialistas. Essas ações ocorrem no mesmo momento em que é declarada a intervenção militar e estado de exceção pelo governo ultrarreacionário de Sebastian Piñera, tudo em meio à “Constituinte” que busca concretizar um novo acordo entre as classes dominantes chilenas, expresso na nova Carta Magna. 

O alvo dos protestos dos camponeses é impedir a usurpação de suas terras pelos senhores de terra e seus sócios mineradores e imperialistas. A condição de vida na região vem sendo drasticamente afetada pelas empresas monopolistas florestais extrativistas que criam os chamados “desertos verdes”, impossibilitando a distribuição de água aos camponeses e envenenando as águas.  

Entre as massas chilenas, os camponeses indígenas são uns dos mais oprimidos pelo velho Estado e os monopólios imperialistas: os Mapuche já perderam mais de 95% de seu território em relação ao período colonial. 

As massas camponesas vêm combatendo, resistindo e avançando em sua organização e experiência de luta contra o latifúndio. Desesperado e amedrontado, o velho Estado chileno interveio militarmente na região sul no dia 12/10.

 Camponeses em luta

A Resistência Mapuche de Malleco realizou, no dia 19/10, um incêndio de sete caminhões e uma van da empresa agrícola Trimma, em Victoria, região de La Araucanía, em estado de exceção. Foram deixados panfletos escritos Não à militarização da Wallmapu [terra] livre!

Na província de Malleco atuam diversos outros grupos de resistência camponesa. Entre eles está a Coordenadoria Arauco Malleco, que divulgou um comunicado no dia 16/10 dizendo que apoiam as ações de seus ORT (Órgãos de Resistência Territorial), destacamento armado do grupo. Uma dessas ORTs havia realizado a queima de máquinas no latifúndio Santa Lidia de Traiguén uma semana antes. 

Um desses ORT, a Frente de Resistência Mapuche afirmou naquele mesmo dia: “Como ORT, órgãos de resistência, estamos prontos para defender nosso Wallmapu [terra] (…). Fim do estado de exceção!”.

O general reacionário Lionel Curti, Chefe da Defesa em La Araucanía, teve uma reunião com a Polícia de Investigações (PDI) no outro dia para analisar como melhorar os deslocamentos noturnos nas províncias de Malleco e Cautín, devido ao fato de que a maioria das estradas rurais são bloqueadas pelas massas com troncos de árvores à noite para impedir a patrulha de carros da polícia.

Em Tirúa, província de Arauco, dois caminhoneiros foram interceptados por ativistas encapuzados e exigidos que abandonassem seus carregamentos com madeira de extração. Após isso, os caminhões foram queimados.

O oficial militar encarregado da Macrozona Sul da região do Bio Bio, Roberto Coloma, sobre a ação em Tirúa, afirma que os grupos que realizam as ações de sabotagem contra as grandes empresas têm apoio dos moradores da região: “É justamente quando me refiro em outras ocasiões que os grupos violentos que operam na área têm algum apoio político, seja por ação ou por omissão. Isso nos parece grave.”.

A intervenção militar 

É na região Centro-Sul do país onde os camponeses indígenas, majoritariamente da etnia Mapuche, travam as batalhas mais tempestuosas da luta pela terra chilena. É a mesma região ao sul do rio Biobío onde os colonizadores espanhóis foram forçados a negociar perante a resistência Mapuche e, somente em meados do século XIX, o velho Estado chileno estabeleceu seu domínio por meio das armas.

No dia 12 de outubro, o presidente ultrarreacionário do Chile, Sebastián Piñera, declarou estado de exceção em parte do sul do país, para elevar ao máximo o uso da força policial e militar contra a luta camponesa. 

A data do decreto é simbólica pois foi em 12 de outubro de 1492 que Cristóvão Colombo chegou às Américas, no evento germinal que desatou os 529 anos de luta dos povos originários nesta região do Chile, em particular.  

O decreto se aplica aos distritos de Biobío, Arauco, Cautín e Malleco, na chamada Macrozona Sul, localizada a aproximadamente 800 km da capital, Santiago. 

Após assinado o decreto, centenas de agentes das forças armadas começaram a definir as “zonas de conflito" para entrar e reprimir. Com mais de 1.6 bilhões de pesos (10.6 bilhões em reais), cerca de 900 militares armados, 3 helicópteros, 10 carros blindados e 5 veículos todo-o-terreno do Exército foram enviados pelo governo nacional.

Com isso, foi autorizado às Forças Armadas a colaborarem com a polícia militar (chamada no Chile de “carabineros”) e com “autoridades civis” em ações “que se vinculem com a prevenção do porte, da posse e do tráfico ilícito de armas de fogo, a criminalidade organizada, o narcotráfico e o terrorismo”.

Toda esta operação de guerra declarada contra o povo tem como principal intenção evitar todo e qualquer levantamento das massas pela defesa de seus territórios e, uma vez iniciada a resistência armada dos camponeses, reprimir a ferro e fogo. Neste sentido o velho Estado latifundiário-burocrático chileno usa também a tática de associar os povos originários ao “narcotráfico” e também os criminaliza com a caracterização de “terroristas”.

O decreto tem validade inicial de 15 dias e pode ser prorrogado por ordem presidencial por outros 15. Em caso de nova extensão, torna-se necessária a aprovação do Congresso.

Piñera disse que, com base neste decreto, os militares poderão “prestar apoio logístico, tecnológico e de comunicações”, além de apoiar nos trabalhos policiais de “vigilância, patrulha e transporte”. 

A situação no sul do Chile é similar às operações militares no Brasil chamadas de operações de GLO (Garantia da Lei e da Ordem), aplicadas contra as rebeliões nas cidades (como nas manifestações de junho de 2013) e contra as tomadas de terra no campo. 

O governador da Araucanía, Luciano Rivas, apoiador de Piñera, diz que a crise de “segurança” (para os latifundiários) na região tornou-se “muito profunda”. 

A situação política 

O velho Estado chileno se encontra diante de uma grave crise política: o aprofundar de toda miséria, exploração e também da fúria popular. Esta última, oriunda do desatar das grandes e massivas manifestações e protestos populares, as rebeliões chilenas de outubro de 2019. Dois anos após esse ápice, as classes dominantes não conseguem chegar a um acordo para atender às reivindicações do povo, dada a grande crise que atravessa todo continente sulamericano.  

Nem mesmo através da repressão mais brutal ou acordos com os oportunistas e revisionistas (que buscam em vão se apresentar como os legítimos representantes das massas em luta), as classes dominantes conseguem apagar a chama da rebeldia das massas e atingir a “estabilidade”. Estabilidade que significaria a aceitação pelas massas de uma superexploração ilimitada sem “distúrbios” ou protestos.

Apesar da proposta da nova constituinte (a constituição vigente é oriunda da época do regime militar de Pinochet), conquistada após décadas de luta popular, e que aparece hoje não como a garantia de melhores condições de vida para o povo, mas sim como um novo pacto das classes dominantes, as massas mais profundas continuam a empreender grandes lutas no campo e na cidade.  

A marcha com mil participantes, sendo eles a maioria de povos originários, acontecida dois dias antes da declaração de estado de emergência (10/10), foi um grande marco na situação política recente do país. Chegando próximo da culminação da nova constituinte, os camponeses não param de lutar por seus direitos, sendo o mais importante deles o direito sagrado à terra.

Tudo isso configura uma crise política gigantesca, visto que as massas não dão sinal de parar de lutar.

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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