Chile: Trem é incendiado e latifúndio de deputado é queimado por camponeses em meio à intervenção militar

Trem carregado de celulose é descarrilhado e incendiado por camponeses em Victoria, na região de La Araucanía, sul do Chile, em 2 de novembro de 2021. Foto: ATON CHILE/AFP

No Chile, camponeses mapuches continuam a lutar pela terra, golpeando latifúndios e repudiando a intervenção militar em curso no sul do país, decretada pelo presidente reacionário Sebastian Piñera em 12 de outubro. Entre o final de outubro e início de novembro, dezenas de ações de sabotagem a latifúndios, propriedades da grande burguesia imperialista foram levadas a cabo por organizações camponesas.

Leia mais: Chile: Camponeses realizam ações de sabotagens contra a intervenção militar no sul

Contexto

A intensificação das ações dos camponeses mapuches se dá em meio à luta das massas chilenas em defesa de seus direitos. Essas ações ocorrem também em meio à “Constituinte” que busca concretizar um novo acordo entre as classes dominantes chilenas, expresso na nova Carta Magna.

Dois anos antes, ocorreu a rebelião popular de 2019 que estremeceu não somente o governo de Sebastián Piñera, mas todo o velho Estado burguês-latifundiário chileno. As massas populares não cessaram sua luta mesmo com a manobra das classes dominantes, que tentaram iludir parcela das massas com o oportunismo durante o processo de uma nova Constituição (a anterior datava do regime militar de Pinochet). Como consequência direta da gigantesca mobilização das massas nesse momento, até mesmo o recente relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) constatou que 92% dos chilenos acreditam que o seu país é governado nos interesses de uns poucos e não da maioria da população.

O que começou nos grandes centros urbanos, primeiro como reivindicações econômicas, e depois políticas, foi se expressando cada vez mais no campo do país na luta pela terra. Nas cidades do interior do Chile, tem sido impulsionada a secular luta travada pelos camponeses chilenos em defesa de um pedaço de chão para viver e trabalhar.

O alvo das ações de protesto são os latifundiários, os mineradoras e os imperialistas que usurpam as terras dos camponeses. E no atual momento da situação política do Chile essas manifestações assumem o caráter de também combater a intervenção militar. 

Trem transportador de celulose é incendiado

Camponeses mapuche descarrilharam um trem carregado de celulose e em seguida o incendiaram como uma ação de sabotagem da produção do latifúndio. A ação ocorreu por volta das 5 horas da manhã do dia 02/11, próximo da cidade de Victoria (La Araucanía), e expressou um claro rechaço contra a intervenção militar em curso na região sul do país. No local, foi deixada uma faixa escrita: Fora os milicos! Liberdade aos P.P.M! [Presos Políticos Mapuche]. Os dois maquinistas que estavam presentes no trem antes da ação não tiveram qualquer ferimento.

O trem descarrilhado pelos mapuches transportava cargas de celulose retiradas da exploração madeireira das terras camponesas.

Os policiais, que agora trabalham em conjunto com os militares do exército reacionário chileno, declararam que foram “pegos de surpresa” e que não há agentes suficientes para cobrir toda a “zona de risco”. Eles dizem ainda que: “Estamos diante de um adversário que se utilizou da surpresa em um lugar de difícil acesso” e que no terreno “tampouco existe visibilidade para a Estrada 5 sul”, local onde ocorreu a ação.

Camponeses incendeiam ônibus de conglomerado bilionário

No dia seguinte, 03/10, na província de Arauco (comuna de Lota) um ônibus da grande empresa florestal Jordan foi incendiado às 7 horas da manhã, quando o ônibus rumava a buscar os trabalhadores do projeto Modernização e Ampliação da Planta Arauco (Mapa). O veículo foi interceptado por camponeses, que retiraram o motorista do ônibus vazio e depois o incendiaram. 

A megaempresa Jordan tem como clientes bancos como o Santander e o Banco do Chile. O projeto Mapa, por sua vez, busca ampliar a exploração e produção de celulose em Arauco. 

O projeto pertence ao Grupo Angelini que investiu 2.350 bilhões de dólares (quase R$ 13 bilhões) na região. O grupo buscava elevar a produção de celulose passando das atuais 800 mil toneladas para 2,1 milhões de toneladas ao ano. A “sociedade anônima” Celulose Arauco e Constituição, que é parte do Grupo Angelini, e que também faz parte do projeto Mapa, tem seis fábricas de celulose no Chile e no Peru, além de fábricas de madeira na Argentina e no Brasil.

O Ministro do Interior Rodrigo Delgado disse que o incêndio do ônibus "chama a atenção", pois ocorreu fora da área onde acontecem as maiores ações. Outro ônibus também havia sido utilizado para cortar o trânsito da rota 160, no mesmo local, ao mesmo tempo.

Ônibus da mega empresa Jordan é incendiado. Foto: Reprodução

Jovem mapuche é assassinado pelas Forças Armadas reacionárias

Funeral do jovem Yordan. Foto: @Julio_jara_wertha

Um camponês mapuche de 22 anos, Yordan Llempi Machacan, foi assassinado à queima roupa por um militar da Marinha chilena no dia 04/11. A companheira de Yordan, Danitza Herrera, estava na casa do jovem quando o ato ocorreu e denunciou que a polícia mentiu ao justificar a morte do camponês. A versão da polícia alega que o jovem teria sido atingido por uma “bala perdida” enquanto tentavam dispersar uma barricada construída numa estrada próxima, quando foram atacados por mapuches armados em plena luz do dia.

De acordo com Danitza, que estava no quintal da casa do jovem, eles estavam conversando na parte de fora da sua casa, quando os militares “começaram a atirar como loucos”, atingindo Yordan. Herrera também denunciou que, após o atingir, os oficiais que estavam no local impediram a transferência imediata do jovem ferido para um centro médico: "Eles rumaram à estrada, não deixaram levá-lo para Cañete, nem queriam levá-lo para o posto Huentelolén. Eles o impediram". Ela ainda assinalou que "se o tivessem levado para Cañete - que era a localidade mais próxima - isto não teria acontecido. Ele perdeu muito sangue".

Perguntada sobre a versão dos policiais e dos militares (que afirmam que ocorreu uma “emboscada terrorista”), ela respondeu: "Isso é mentira, eles começaram a atirar, tinham a estrada bloqueada, não era uma emboscada dos membros da comunidade Mapuche, isso é mentira!".

Grupo mapuche guerrilheiro exige o abandono do território pelos militares

O grupo guerrilheiro Waychan Auka Mapu (WAM), que em mapudungun, língua mapuche significa “luta do território rebelde” (em tradução não oficial), lançou um vídeo, no dia 04/11, em que seus integrantes aparecem na selva e fortemente armados. Os guerrilheiros começam o vídeo fazendo a saudação Marri marri aos pu machi (autoridade religiosa, conselheira e protetora do povo mapuche), aos lonko (chefe de cada grupo familiar), aos pu werken (mensageiros e voz da comunidade), aos pu wunen (irmãos), aos pu weichave (guerreiros), ao pu compuche (todo o povo) e ao pu che meli witran mapu (povo da terra dos quatro lugares).

Eles se dirigem ao povo mapuche, aos povos em resistência internacionalmente, à opinião pública nacional e internacional, como weichave (guerreiros) da organização Weichan Auka Mapu (WAM), que coabitam o território lavkenche (povo do mar), e declaram que o atual estado de exceção com presença de tropas do exército, infantaria da Marinha e policiais em sua histórica wallmapu (terra), não é algo novo para o nosso povo. Eles apontam que se trata de um “plano estratégico político contrainsurgente, aplicado pelo governo atual, mas impulsionado pelos poderes econômicos com interesses no território, que é o poder real por trás da classe política que tem governado, governa e pretende seguir governando no chile”. 

Os guerrilheiros demarcam que seus “kuivikecheyem (ancestrais), que sustentam a “weichan” (guerra) contra os invasores incas, espanhóis e o Estado chileno, instam à nova força policial e militar, “cachorros guardiões dos ricos”, a abandonar seu território, porque serão derrotados pela “força do povo Mapuche em armas”.

Afirmam, ainda, que há um fortalecimento de uma extrema-direita golpista e a debilidade de uma “centro-esquerda” servil e amarela, que através de suas ações de traição e de não responder às demandas dignas do povo, uma vez mais se coloca a serviço dos “donos do Chile”. Esses, por sua vez, ao verem ameaçados seus interesses pressionaram ao governo que se instalasse os militares na “wallmapu” (terra). 

Os guerrilheiros do WAM reafirmam ainda seu compromisso revolucionário nas ações de sabotagem aos interesses capitalistas que destroem e devastam a “ñuke mapu (mãe terra). Assim como as ações armadas que são concordantes com as necessidades de seus “lov” (clã familiar) e comunidades, garantidoras e possuidoras reais da legitimidade territorial. 

Eles entoam, então, as palavras de ordem: Pelos weichave [guerreiros] caídos em combate! Liberdade aos presos políticos Mapuche! Liberdade aos presos políticos do povo chileno! Fora milicos e pacos [policiais] de wallmapu [terra]! Ñielole mapu muleay aukan weichan auka mapu

Com suas armas para cima, dando tiros, eles exclamam: Marichiweu! Marichiweu! [dez e mil vezes venceremos!]

Latifúndio de deputado tem maquinário e casa queimados

Uma casa, três galpões, maquinários e veículos do deputado Jorge Rathgeb, no dia 5/11, foram incendiados pela organização camponesa mapuche nomeada Coordenadoria Arauco Malleco (CAM). Jorge Rathberg foi Governador da Província de Malleco e secretário regional ministerial da Agricultura de La Araucanía no governo do Presidente Sebastián Piñera. 

No local, uma mensagem foi deixada pela CAM: Empresas florestais, fora do território mapuche! Fora os milicos! Nossos mortos serão vindicados. Libertar os PPM (Prisioneiros Políticos Mapuche). Wewaiñ marichiwew [Nós venceremos, dez vezes nós venceremos, na língua Mapuche].

A mensagem foi assinada pelo Órgão de Resistência Territorial (ORT) Mangillwenu, um dos destacamentos armados da CAM. A ação ocorreu um dia após o assassinato à queima roupa pela Marinha de Yordan Llempi Machacan e horas após a liderança da CAM, Héctor Llaitul afirmar que “o que tiver de ser queimado será queimado”, em resposta ao assassinato do jovem.

Empresa forestal imperialista ianque e canadense é sabotada

Maquinário da forestal Hancock é queimado. Foto: Werken Notícias

Às 21 horas do dia 05/11, camponeses mapuches armados da CAM queimaram duas máquinas nas terras e um galpão de ferramentas. Três pessoas que se encontravam nos recintos no local foram expulsas. A ação ocorreu nas terras da Forestal Hancock, em Los Ríos. Quem realizou a ação do grupo foi a ORT - Williche Millalikan.

A Forestal Hancock é subsidiária das imperialistas canadense e estadunidense Manulife Financial Corporation e John Hancock Financial, respectivamente. A Manulife Financial Corporation tem diversos investimentos em exploração florestal ao redor do mundo.

De acordo com o jornal El Ranco, a presença da empresa imperialista na comuna de La Unión começou em 2019, quando a florestal Masisa (Suíça) vendeu seus ativos florestais. A extensão das terras que atualmente pertencem à Hancock é de 62 mil hectares, nas regiões de Los Ríos, Los Lagos e no sul argentino.

Galpão da Corporação Nacional Florestal é queimado

Em Lautaro, também no dia 05/11, um galpão da Corporação Nacional Florestal (Conaf) foi incendiado. A Conaf é uma empresa florestal do velho Estado chileno, responsável por criar “parques nacionais”. Os camponeses denunciam que através da Conaf o governo usurpa suas terras.

A ação ocorreu um dia após a morte de Yordan Llempi Machacan. Uma mensagem foi deixada no local, dizendo que a ação vingava a morte do jovem.

Mais de 30 pessoas apedrejam delegacia em La Araucanía

Um grupo de cerca de 30 camponeses da comunidade apedrejou, durante a noite do dia 05/11, uma subdelegacia da cidade de Ercilla, na mesma região de La Araucanía. Após isso, o grupo construiu uma barricada em chamas na Rota 5. Os policiais, junto do exército, dispersaram os camponeses.

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Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

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