A Terceira Coreia do Round 6

Recentemente a série sul-coreana Round 6, produzida e divulgada pelo monopólio de streaming Netflix, chocou telespectadores do mundo inteiro pelas cenas de violência e sexo, até então, inéditas nas produções coreanas disponíveis no serviço. Tomando espaço nos principais veículos de imprensa internacional, posições contra e a favor à divulgação da série para adolescentes (que estão entre os maiores utilizadores de streamings e fãs dos produtos culturais da Coreia do Sul como K-Pop, K-Rock e K-drama) dividem especialistas, professores e pais gerando um debate, cujo principal efeito foi popularizar ainda mais a série. Fenômeno semelhante aos inócuos debates sobre a jogos de computador como Counter Strike (que resultou na proibição do jogo na Arábia Saudita e Brasil e sua popularização em todo o mundo inclusive – via pirataria – no Brasil) e sobre a proliferação de imagens bizarras acompanhadas de mensagens doentias como da Boneca Momo. Falem mal ou bem, mas falem, assim contribuindo para sua difusão. Eis, talvez, uma das razões pelas quais as séries e filmes nos últimos anos exploraram tanto o ramo dos “temas sensíveis”: nudez frontal, sexo explícito, uso de drogas, ofensas religiosas, etc. Pelo que parece, Round 6 não é diferente.

A história da série, evitando spoilers indesejados e um detalhamento muito extenso, consiste em um torneio de jogos inspirados em brincadeiras infantis, nos quais os derrotados são mortos para o entretenimento de grandes burgueses ocidentais degenerados. Seus jogadores são todos coreanos pobres, desempregados, falidos, operários e alguns delinquentes que, após permitirem serem agredidos fisicamente por um desconhecido em troca de dinheiro, foram convidados para o torneio para ganhar um prêmio milionário. Em suma, os mesmos que no Brasil estão incluídos na categoria de “morríveis" pela Covid-19, pela miséria, pela seca, pelas enchentes, de frio – em um país tropical! – debaixo dos viadutos com seus pertences roubados pela polícia ou no sistema carcerário brasileiro. São essas pessoas que irão se matar um a um, em seis rounds de jogos pela bolada, por isso, a série possui o nome de Round 6.

Afora as mortes sangrentas à lá Tarantino, demonstrações de degeneração moral dos grandes burgueses e da impotência de um “bom policial” em investigar o esquema dos poderosos, a“Round 6” nos mostra outra coisa, que choca quem está acostumado com a produção cultural coreana. A série, assim como o filme “O Parasita”, mostra uma Coreia do Sul escondida pelas histórias românticas “água com açúcar” e ocidentalizadas dos k-dramas, das boybands de K-Pop cabelos e roupas coloridas e das modelos coreanas artificialmente ruivas, de olhos redondos e siliconadas. Uma Coreia profunda, que não é nem a do Norte atacada pelo conjunto da imprensa monopolista, que em que pese seus desvios revisionistas e militaristas [1], resiste há 70 anos à presença militar ianque na Península Coreana e nem a Coreia glamourizada e cor de rosa que aparece nos streamings do Ocidente. Este artigo se trata dessa “terceira Coreia" escondida sob toneladas uma forte propaganda e censura oficial de um estado que ainda teme o fantasma da revolução democrática e anti-imperialista que enfrentou há cerca de 70 anos.

Um “Tigre” de estimação...

Oficialmente chamada de República da Coreia, a Coreia do Sul é um estado semicolonial dominado pelo imperialismo ianque que ocupa a metade Sul da península Coreana desde a década de 1940. A despeito da área diminuta e da população de pouco mais de 40 milhões de habitantes possui o décimo maior PIB do mundo (à frente da superpotência atômica russa) e sedia monopólios importantes nos setores de eletrônicos e automóveis como Samsung, LG e Hyundai que invertem capital numa série de países de Terceiro Mundo, entre eles o Brasil [2] e a própria Coreia do Norte. Devido aos seus indicadores socioeconômicos suspeitos e mal interpretados, o país é classificado como um "país desenvolvido" pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) juntamente aos países imperialistas da Europa Ocidental, América Anglo-saxônica e o Japão (mas também com o Catar, Costa Rica e o Chile demonstrando a imprecisão dessa categoria). Devido ao seu rápido crescimento econômico na segunda metade do século XX e sua conversão de país agrário e atrasado para um país industrializado exportador de capital, é classificado junto a Hong Kong, Macau, Singapura e Taiwan como um "Tigre Asiático". 

Acerca das condições que propiciaram o desenvolvimento da Coreia do Sul como dos Tigres Asiáticos, os mesmos que propuseram essas categorias tergiversam com a supervalorização de elementos secundários culturais como o budismo e confucionismo como inspiradores de uma cultura de prosperidade (ironicamente ausentes no Sri Lanka, Mianmar, Tailândia, Butão, Camboja, Vietnã, Laos e Mongólia que também possuem maioria populacional budistas e influência confucionista), ignorando o fato mais importante da história do século XX: as revoluções socialistas. Diante do sucesso das revoluções na China, Coreia do Norte, Vietnã, Camboja e Laos entre as décadas de 1940-1970 e da presença de lutas armadas revolucionárias na Índia, Bangladesh, Mianmar, Malásia, Tailândia e mesmo no Japão, o imperialismo ianque fomentou no Japão, Coreia do Sul e nos demais tigres asiáticos a adoção de medidas voltadas à industrialização e desenvolvimento social nesses países como contraposição ao desenvolvimento que ocorria nos países de democracia popular e socialismo, de forma semelhante ao que fizeram com seu “plano Marshall” [3] na Europa. Tais medidas objetivavam reduzir a influência revolucionária nas massas daqueles países, como o fortalecimento de seus estados burgueses para fazer frente à onda revolucionária que dominava mais de metade do continente asiático. Entre as medidas tiveram a reforma agrária e o estímulo aos grupos empresariais nativos através de financiamento público, proteção do mercado interno e a incorporação de tecnologias estrangeiras. Ainda assim, até o fim da década de 1970, a Coreia do Norte, mesmo com clima mais frio, relevo mais acidentado, menor população e menos solos agricultáveis, era mais rica que sua contraparte do Sul.

Também entre as causas da pujança econômica dos Tigres Asiáticos, não poderia deixar de estar presente a elevada mais-valia extraída à custo de relações trabalhistas brutais que, aliadas ao custo de vida bastante elevado, geram uma carestia que contrasta com o “mundo cor de rosa” dos K-Dramas. As relações trabalhistas, ainda mais brutais que as brasileiras, incluem jornadas de trabalho que chegam até as 20 horas diárias, razão pela qual o suicídio pela pressão do trabalho é frequente no país e que levou o governo, em 2018, aprovar uma lei limitando as horas de trabalho às 52 horas semanais. Os jovens, mesmo os que possuem formação superior, compõe a maior parte dos desempregados e subempregados. Os gastos com aluguel correspondem em média 50% da renda familiar (maior média da OCDE, segundo o monopólio britânico BBC), assim as pessoas pobres são obrigadas a morar em bunkers e porões subterrâneos chamados de “banjisha” ou em “goshiwon”, kitnets minúsculas que compartilham banheiro e cozinha – imortalizado pela literatura brasileira como cortiços. Eis a Terceira Coreia, até então completamente desconhecida pela maior parte do Ocidente que nos permite ser vista, ainda que de relance, em obras cinematográficas comerciais voltadas ao entretenimento do grande público Round 6 e “O Parasita”.

Interior de um Goshiwon coreano. Foto: Reprodução.

Um espectro ronda a Ásia

Politicamente a Coreia do Sul, ou República da Coreia, foi fruto da ocupação ianque em conjunto com os reacionários locais, que ocupou a metade sul do país após a derrota do imperialismo japonês (que dominou o país de 1910-1945) para impedir a libertação nacional completa, já vitoriosa no Norte pelo Exército Antijaponês liderado por Kim Il Sung e apoiado pela URSS e os comunistas chineses. À frente do governo sul coreano foi colocado pelos EUA o fascista Singman Rhee, que reprimiu violentamente o povo, em especial perseguindo e matando comunistas e patriotas, mas que fracassou junto aos seus amos imperialistas em destruir a República Democrática Popular da Coreia  – RPDC na Guerra da Coreia (1950-1953). Na heróica resistência comunistas, democratas e patriotas, além da valentia do povo coreano, se destacou o papel do internacionalismo proletário, decisivo para que a pequena república revolucionária, com o apoio da URSS e mais de um 1,45 milhões de voluntários chineses [4], conseguisse expulsar os imperialistas ianques e seus aliados (entre eles as próprias forças da ONU) da metade norte da península.

No sul como no norte da nação coreana  – cindida por uma guerra fratricida fomentada pelos imperialistas e reacionários locais  – os reflexos dessa guerra subsistem até hoje. Na Coreia do Sul, onde se concentra nossa matéria e é pintada pelos monopólios de imprensa como baluarte da democracia na região, ainda hoje a razia anticomunista toma a forma de lei e opressão contra o próprio povo. Como no Brasil, a Coreia do Sul possui uma Lei de Segurança Nacional, datada de 1948, que proíbe manifestações ou organizações socialistas ou comunistas e que segue sendo utilizada contra qualquer comunista, democrata, ativista pró-unificação da Coreia e a retirada das bases e tropas militares ianques, lideranças sindicais e opositores políticos em geral. Em 2002, 167 pessoas foram processadas por esta lei e em 2013 118 foram processadas, entre elas, um padre católico, um líder partidário e um jogador de futebol. Em solo coreano, custeada parcialmente pelos próprios impostos do povo coreano (13,5% do total) permanecem 23,5 mil tropas ianques de ocupação.

Greve combativa contra a demissão em massa dos operários da indústria automobilística Ssang Yong em 2009. Em sua repressão mais de 50 operários foram feridos e 70 foram presos. Na série Round 6 um personagem – operário desempregado – faz menção a este evento em um dos episódios. Foto: Reprodução.

A “Cultura” sul-coreana

A dominação ianque se expressa não apenas no campo militar, mas, também, no cultural, como na emulação da produção musical e audiovisual baseada nos enlatados ianques (boybands e girlbands de empresários, K-Dramas alheios aos "dramas" do povo, similares às comédias românticas estadunidenses). Até as mulheres coreanas são vitimadas por essa opressão cultural imperialista associada à opressão feminina tão presente nos países capitalistas “avançados”. As mulheres sul coreanas são diuturnamente submetidas a padrões de beleza alienígenas ao seu biotipo: nas últimas décadas passaram a tingir seus cabelos de loiro e ruivo, a inflar-se de silicone – ignorando os impactos posteriores em sua coluna – e cada vez mais, e mais novas, realizam cirurgias plásticas para afinar e clarear o rosto como tornar os olhos mais amendoados. Como resultado dessas tácitas violências, Coreia do Sul é hoje o país com mais cirurgias plásticas per capita do mundo, onde é comum os pais presentearem suas filhas com esses procedimentos para satisfazer aos decadentes padrões estéticos impostos pelo imperialismo.

Cartazes em Seul propagandeiam as cirurgias plásticas "Todo mundo já fez, só falta você". Foto: Reprodução.

O imperialismo luta seus últimos rounds 

Voltando ao Round 6, longe de querer exaltar mais uma obra voltada à alienação em massa disfarçada sob a alcunha de entretenimento e a harmonização facial da crítica social, a série revela ao grande público a existência dessa Coreia profunda escondida pelos “imparciais” monopólios de comunicação burgueses, (ainda que por meio de uma narrativa ficcional). O ilustre pensador iluminista Jean Jacques Rousseau ao dizer que "uma sociedade só é democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém", anteviu uma grande contradição das “democracias” burguesas contemporâneas que, especialmente no tempo de sua crise derradeira, torna-se claro como a água. Quantas jovens, ou melhor, meninas, são obrigadas vender seu corpos para pervertidos do triplo da idade em esquina na Coreia do Sul e por todos os continentes do planeta, provocando muito mais danos a si mesmas que um soco causaria e por bem menos dinheiro que o oferecido aos personagens desesperados da série? Acerca da banalização da morte em “Round 6”, justificada pela adoração ao dinheiro, lembremos do Brasil onde se matam centenas de milhares por ano seja pelo soldo, pela delinquência crescente nas cidades e no campo e as incontáveis mortes provocadas pelas canetas azuis dos bandidos de terno e fardas no gerenciamento do Estado, como assistimos, revoltados e estarrecidos os mais de 600.000 mortos pelo impune genocídio da pandemia perpetrado pelo governo de Bolsonaro/militares. 

Antes de recomendar ou não, especialmente às crianças e adolescentes, assistir a série “Round 6” que está disponível na internet – espaço onde eles transitam com desempenho muito superior às gerações anteriores de de seus pais, professores, psicólogos e “especialistas” – vale refletir sobre a sociedade, essa sim violenta, suicida e erotizada, que é a base social e material que inspira obras cada vez mais perturbadoras. Para ficarmos em poucos exemplos “Jogos Vorazes” nos EUA e “Bacurau” do Brasil nos convidam a distopias onde o flagelo dos miseráveis serve de entretenimento a uma minoria endinheirada, decadente e pervertida que se diverte e excita com a desgraça de seus “selecionados” (aqueles dentre os miseráveis vitimados pelos “jogos”). Distopias nas quais todo e qualquer valor universal e comum ao conjunto Humanidade é letra morta. Demonstrando, ainda que sem clareza e consequência, que na arte e, sobretudo, na vida real não há como reconciliar esses dois extremos.

 


Notas:

1 - A atual ideologia oficial do governo norte-coreano e pelo Partido do Trabalho da Coreia é a revisionista “Ideia Juche”, adotada ainda na década de 1960, de matriz eclética suas formulações negam questões centrais do marxismo (que arrogantemente afirmam superar) como: o papel das circunstâncias econômicas sobre o homem, o potencial revolucionário das massas e  a luta ideológica no interior do Partido, derivando no atual regime burocrático cujo decadente capitalismo de Estado é administrado por um casta militar subserviente a superpotência atômica russa e a China social-imperialista. 

2 - Um exemplo disso é a empresa Saneouro que está buscando impor a privatização da água na cidade de Ouro Preto em Minas Gerais e vem enfrentando combativa e persistente resistência da população local liderada pelo Comitê Sanitário de Defesa Popular.

3 - Plano de recuperação econômica da Europa Ocidental (capitalista) promovido pelos EUA.

4 - Entre tais voluntários estava o soldado Mao Anying, filho de Mao Tsetung, morto em um bombardeio ianque.

 

REFERÊNCIAS

KOREANPOST: Goshiwons, o refúgio dos trabalhadores e estudante coreanos de baixa renda  – 10 de novembro de 2017

O GLOBO: Sul-coreanas têm maior índice de cirurgia plástica per capita do mundo. 20 de outubro de 2013. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/sul-coreanas-tem-maior-indice-de-cirurgia-plastica-per-capita-do-mundo-10440568

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