Editorial semanal – Fenecendo, porém vivo

O desespero de Bolsonaro para reproduzir-se no cargo é proporcional à sua vinculação com o “centrão”. Depois de liberar R$ 909 milhões em emendas ao relator do orçamento para viabilizar seu “Auxílio Brasil” (projeto que é sua esperança para reverter o quadro das pesquisas eleitorais), Bolsonaro através do seu ministro Paulo Guedes deve nomear nos próximos dias o apadrinhado do mensaleiro Valdemar Costa Neto, José Gomes da Costa, para comandar o Banco do Nordeste.

A lista da promiscuidade de Bolsonaro com o antes demonizado “centrão” (a centro-direita parlamentar, fisiológica) cresceu à medida que a instabilidade de seu governo se agravou, e crescerá tanto mais à medida que suas chances eleitorais minguarem – até e se concluir que não vencerá as eleições, quando deve passar a sérias provocações.

Ao longo dos últimos três anos foram 30 trocas de comando nos ministérios forçadas pela ação conjunta do Alto Comando militar, monopólio de imprensa e a centro-direita, derrubando importantes nomes da extrema-direita bolsonarista, como Ernesto Araújo das Relações Exteriores e Abraham Waintraub da Educação. Só em 2021 foram 14 trocas, que coincidem com a aprovação no parlamento de medidas vitais para a sobrevida do fascista na presidência. O “toma lá, dá cá” é tal e tão escrachado que o estratégico ministério da Casa Civil foi cedido ao chefete dos assaltantes dos cofres públicos, Ciro Nogueira/PP, aquele mesmo que chamara noutros tempos Bolsonaro de fascista e decretara que o melhor presidente da história do Brasil fora Luiz Inácio. Hoje, é bolsonarista roxo, mas não de graça, por certo. De brinde, no ano passado, o presidente do PP foi agraciado com o arquivamento de denúncias de corrupção na Petrobras que corriam no STF graças ao voto de Kassio Marques, indicado de Bolsonaro.

A crise eleitoral e inclusive ideológica no seio do bolsonarismo, diante da difícil estrada pela qual foi obrigado a enveredar é tal que até mesmo notórios insignificantes desta horda pronunciaram-se de modo controverso. Depois de Olavo de Carvalho compartilhar no Twitter mensagem que atribui à aliança de Bolsonaro com o “centrão” o motivo de sua bancarrota, Allan dos Santos fez o mesmo.

Agora, vemos o lento fenecer de um Bolsonaro que esteve já às bordas de subverter a correlação de forças no Alto Comando das Forças Armadas a favor do recrudescimento do regime, e agora está refém de seus pretensos adversários do “centrão”.

É claro que ao longo dos últimos três anos o governo que operou no país foi o governo militar de fato, dos generais lotados nos principais ministérios e departamentos do Palácio do Planalto, conluiado com a centro-direita. Bolsonaro, que só poderia assumir de fato o timão do Executivo através de aproveitar do caos e da desordem (seja por ele criados ou aproveitados das circunstâncias) ao longo do seu mandato, não foi capaz de subverter o regime e, de roldão, enfraqueceu-se gradualmente para esse intento. De modo que chegamos a tal situação: o presidente, eleito sob a retórica mais radical contra o sistema político, sequer pode arrotar abertamente e sem grandes custos seu extremismo, ainda que seja para agitar e coesionar sua base social fascista, pois seu governo se encontra infestado do único alvo possível desta retórica, isto é, o “centrão”. Que triste cenário: Bolsonaro, que pretendia-se um maldito Führer, está mais próximo de um Antonio de Santa Anna [1] depois das derrotas.

Assim vamos entrar no quarto ano de governo, em que a grave crise geral – do econômico, social, institucional ao militar – encontra péssimo terreno para solucionar-se. Os generais, diante da gravidade da crise – com a qual crescem proporcionalmente os riscos de uma ruptura aberta – se viram obrigados a temerem mais a esta, unindo-se à centro-direita parlamentar como forma de isolar os intentos bolsonaristas, pois sabem que uma ruptura precipitada nesse contexto produzirá uma explosão social sem precedentes que só favoreceria a Revolução. Todavia, conluiar-se à centro-direita e permitir que lhe sejam cedidos espaços no aparato de Estado significa atrasar a solução das três tarefas reacionárias: prolongamento da crise econômica e da desmoralização do regime; desemprego, miséria, crise social, crescimento aritmético da delinquência nas cidades, caos social; crise institucional e severa crise militar, enfim, crise geral que a atual eleição não cessará, senão que atiçará ainda mais. Neste cenário, onde fabulosamente se acumulam toneladas de materiais inflamáveis, ao longo dos próximos anos crescerão – como contrários que são – tanto a Revolução Democrática, Agrária e Anti-imperialista (sendo a tendência política principal) como a ofensiva contrarrevolucionária encabeçada pelo Alto Comando até desembocar, abertamente, na guerra civil e no golpe militar de Estado.

Mas, para a ordem do dia, que ninguém considere Bolsonaro acabado: enquanto personagem, está fenecendo, porém vivo e com possibilidades de atuação. Neste sentido, ele tem uma vantagem: sabe que a velha ordem só poderá se sustentar mediante um regime de força, em combate desesperado contra uma Revolução ascendente. Se isso se realizará ou não sob seu comando, também se trata de um detalhe: um golpe de Estado militar contrarrevolucionário, necessário como desdobramento dos confrontos violentos entre as classes, é inevitável quando ameaçada estiver a reprodução da velha ordem, com ou sem o nosso Santa Anna.


Nota:
[1] Santa Anna: senhor de terras mexicano, general e presidente inapto durante a Guerra Mexicano-Americana, de 1846-48. Em que pese a trajetória de fracassos que trilhara, era venerado por suas tropas. Sob seu comando o México perdeu metade do seu território para o expansionismo ianque; apesar de apresentar-se por nacionalista, tentou servir como espião dos invasores por mais de uma oportunidade. Ao fim da vida, enquanto seu país ardia em tensões com os ianques, Santa Anna ofereceu seus serviços aos invasores e, simultaneamente, ao Imperador Maximiliano (do México), porém selando sua desgraça ambos rejeitaram. Odiado por muitos e venerado por uns tantos, é até hoje uma figura controvérsia na história de seu país.

Ouça já o Editorial Semanal de 05 de janeiro de 2022:

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