RJ: Exploração sexual é impulsionada por setores econômicos

Propaganda de turismo sexual na cidade do Rio de Janeiro. Foto: Reprodução.

O município do Rio de Janeiro, historicamente utilizado como vitrine brasileira ao turismo internacional, está sob preparativos para as primeiras grandes festividades após as seletivas medidas de enfrentamento à crise sanitária. Em que pese a Covid-19 e suas intermináveis variantes ainda proporcionarem riscos a todo o globo – no Primeiro Mundo, volta-se ao debate sobre isolamento e auxílio financeiro –, na Cidade Maravilhosa o clima é de superação.

No que depender do prefeito Eduardo Paes (PSD), os números de internações continuarão zerados na cidade. Isto porque, segundo membros de sua equipe, como o Secretário Municipal de Saúde Daniel Soranz, para “otimizar” a rede, novas internações clínicas diagnosticadas com a doença serão feitas preferencialmente nos sistemas estadual e federal. A propósito, no último dia 15 de novembro, Paes proporcionou uma festa em frente ao Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, comemorando o último paciente da Unidade de Referência contra a Covid, que está sob ameaça de perder tal posto.

Há quem diga que “nunca antes na história deste país” foram avistados tantos médicos reunidos em um único plantão de unidade de saúde pública. Em síntese, como não falha o ditado popular, a rede municipal de internação está zerada para inglês ver.

Girls From Rio, cafetinagem de Primeiro Mundo

Algo que vem chamando a atenção dos cariocas, ainda que também feitos especialmente para os gringos, são os anúncios estampados por toda a cidade em estímulo à retomada da economia turística. Na região central e na orla, especialmente, uma empresa vem estampando em pontos de ônibus, termômetros, outdoors, táxis e afins, sua publicidade criativa. Diz a peça publicitária: As melhores lembranças de viagem podem ser criadas em um hotel do Rio”. Inofensiva seria caso o anúncio fosse de uma rede hoteleira, mas a Skokka, a anunciante, é uma agência internacional de prostituição.

Agência de prostituição internacional, Skokka, faz publicidade num termômetro na orla do Rio. Foto: Reprodução.

Em seu website, verifica-se que a agência é sediada na Europa, mais precisamente na Ilha da Madeira, em Portugal. Para se ter informações mais detalhas dos “serviços”, o “cliente” deve escolher uma entre as 26 nações em que a empresa possui atividades – majoritariamente no Terceiro Mundo. Assim, passa a ter acesso a uma ampla rede de prostituídos, onde as descrições de seus anúncios, que mais se parecem com a letra de Girls From Rio (2021)¹, da cantora carioca Anitta, deixam nítido que maior parte é composta por mulheres jovens.

No Brasil, a Skokka atua sob o nome fantasia de Taça Escarlate Ltda., com sede em São Paulo. Entre o quadro de sócios da sucursal, estão pessoas jurídicas domiciliadas no exterior como a Allason Consultores, S.L., sediada na Espanha, a Guppy Ltd, com sede na Inglaterra, bem como o empresário Elcio Elter Binati. Desta forma, chama a atenção o irrisório capital social declarado à Receita: R$ 20.000,00 (vinte mil reais).

Elcio Binati, a propósito, possui participação em diversos CNPJs entre os estados do RJ e de SP. Somando-se, os capitais sociais das empresas culminam em cerca de R$ 14.000.000,00 (quatorze milhões de reais).

Miséria da população fluminense e carioca é fértil à prostituição

Segundo um recente e precário levantamento nacional feito sob ausência do Censo Demográfico pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estado do Rio de Janeiro, outrora sob fantasiosa pujança das empreiteiras e dos grandes eventos, tem indicativos de qualidade de vida risíveis frente ao seu potencial.

Entre indicativos de qualidade de vida em sentido amplo, próximo da definição burguesa do que é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o ente federativo ocupa a pior posição do Sudeste, apesar de ser o segundo mais rico da região e de toda a Nação. Em se tratando de elementos apurados de forma individualizada, a situação piora e muito: no quesito transporte público, o Rio ocupa a 5ª pior colocação entre os 26 estados e o Distrito Federal; no quesito moradia, é o lanterna nacional, destacando-se a ampliação de moradias tecnicamente irregulares – estimulada por grupos delinquentes de traficantes de drogas e paramilitares reacionários.

Táxi no Leblon estampa banner de agência de prostituição internacional, Skokka. Foto: Reprodução

Conforme discorrido em boletim pelo Movimento Feminino Popular (MFP), em março de 2019, com o predomínio e dominação dos monopólios, “[...] o imperialismo de um punhado de potências e superpotências opressoras de um lado e a imensa maioria de nações oprimidas do outro, sociedades que através de todos os seus meios de propaganda monopolizados pelos imperialistas e os burgueses e latifundiários lacaios seus seguem tratando as mulheres como puro objeto sexual, reproduzindo as ideias de superioridade masculina e rebaixando a condição de seres humanos das mulheres do povo, limitando sua prática social. Nossas crianças e jovens são estimuladas à erotização todo o tempo. A prostituição é estimulada de todas as formas e tratada com glamour, haja vista a rede globo, com seus programas e novelas, vanguardeia o pós-modernismo que, ao mesmo tempo em que trata as mulheres como objeto sexual, se autoproclama guardiã de uma pseudoliberdade sexual, porque pura degeneração. ”.

Em síntese, se por um lado a capital fluminense é o motor da economia turística nacional, angariando cifras bilionárias anualmente, em essência, o caráter deste “turismo” expressa o grau de deterioração de todos os âmbitos da vida: a moral, os costumes e afins, sendo estes, em última instância, resumidos em seu fator preponderante que é a economia subserviente a interesses escusos aos da população.

Permissibilidade e estímulo à prostituição como status quo da Prefeitura

Em âmbito municipal, no Rio, a Lei 1921/92, que dispõe sobre publicidade em bens e locais públicos, ou expostos ao público, estabelece, entre outros fatores, que “nenhuma exibição de publicidade poderá ser feita sem autorização do órgão competente”. Conclui-se, portanto, que a administração municipal está em pleno alinhamento ao conteúdo dos anúncios; caso contrário, no mínimo, seria inerte quanto às suas atribuições.

Alguns fatos, no entanto, reforçam a primeira tese. Basta uma breve consulta jurisprudencial ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro para que se constate que, nos últimos anos, diversos processos foram ajuizados por parte da Município contra publicidades supostamente irregulares, mesmo que em ambientes privados. Ainda, cabe relembrar que mesmo sob o sumiço generalizado dos postos de trabalho formais, há forte repressão aos vendedores ambulantes, que necessitam utilizar espaços para publicidades de forma precária.

Ponto de ônibus no calçadão da orla carioca faz um convite ao turismo sexual. Foto: Reprodução

A seletividade das classes dominantes no gerenciamento do aparato estatal, tão galopante que é, nos permite abrir mão do mérito legal em si, uma vez que mesmo entre exemplos distintos de irregularidades, a única que gera inibição é a do trabalho e não a da exploração sexual de corpos – vista como fonte de útil aos solavancos da economia semicolonial. Constata-se, portanto, a máxima de Maquiavel: Aos amigos, as benesses da lei. Aos indiferentes, a lei. Aos inimigos, os rigores da lei. ”. 

Forçoso memorar o espírito dos administradores semicoloniais: Paes, noutro mandato, fez notícia ao entregar um apartamento a uma mulher da periferia do Rio, recomendo à mesma “trepar muito” no local; aos vizinhos, recomendou que “pegassem a senha”. Retrato do que é a “volta à normalidade” desta economia.

NOTA

¹ No clipe da música citada, inspirado em propagandas da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) nos anos de Regime Militar, a cantora faz descrições sexuais, para estrangeiros em busca de turismo sexual no Brasil, do que seriam as “garotas do Rio”.

Curiosamente gravada em versão alternativa com um músico estadunidense, sob alcunha de DaBaby, o rapaz verborragia que pegou “um voo para o Rio para fazer sexo”, enquanto, no clipe, Anitta aparece com trajes sexuais de aeromoça dos anos 60. Na trama, alegando estar com o peso de quilos de ouro no pescoço, pouco tempo na agenda e trabalhado muito, DaBaby diz que precisa “que alguém o tire [o cordão] para que possa relaxar”. Anitta, então, já sob a estética caricata do favelado, diz compreendê-lo e que o mesmo irá “se apaixonar pela garota do Rio”, que são “gostosas, mas não parecem modelos”.

Por fim, quase numa tese antropológica de séculos passados, Anitta diz que este estilo de vida “corre em seu sangue”, pois “as ruas a criaram, é da favela” onde “crianças fazem crianças”.

A autora, ou plagiadora do que há de mais execrável, vem sendo premiada no Primeiro Mundo por tal exibição. Tal como descreve o citado boletim do MFP, as congratulações são ofertadas sob a premissa de serviços relevantes à liberdade sexual feminina.

Imagens do clipe Girls From Rio, da cantora brasileira Anitta. Foto: Reprodução.

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