Aos 95 anos, morre o poeta amazonense Thiago de Mello

Thiago de Mello na beira do rio Andirá, no baixo Amazonas, em 1997. Foto: Alberto César Araújo

“Reparto, companheiro, porque chegas

a este caminho longo e luminoso

mas que também se faz áspero e duro,

onde as nossas origens se abraçaram

dissolvendo-se em paz as diferenças”

Canto de companheiro em tempo de cuidados

Morreu no dia 14 de janeiro o amazonense Thiago de Mello. Nascido em 30 de março de 1926 na cidade de Barreirinha, interior do Amazonas, Thiago de Mello era poeta, tradutor, ensaísta e defensor da Amazônia. Foi um dos poetas brasileiros mais conhecidos por todo o mundo por sua obra marcada pela militância política e a defesa da Amazônia.

A trajetória de um grande poeta

Thiago abandonou o curso de Medicina no 4º ano para seguir o caminho da poesia. Seus poemas foram inicialmente publicados no jornal Correio da Manhã. Foi um dos maiores representantes da chamada “geração de 1945”. Com apenas 29 anos, o poeta Thiago de Mello já havia sido aclamado membro da Academia Amazonense de Letras, ocupando a cadeira 29, de Castro Alves.

Um dos grandes nomes da poesia brasileira, Thiago de Mello fez sua poesia ecoar as denúncias ao regime militar instaurado após o golpe de 1º de abril de 1964. Até este momento, Thiago ocupava o posto de adido cultural no Chile, lançando mão do cargo quando rebentou o golpe.

Em resposta ao Ato Inconstitucional nº 1, o primeiro emitido pelo governo militar após o golpe, Thiago de Mello escreveu Os estatutos do homem (Ato Institucional Permanente), seu poema mais conhecido. De volta ao Brasil, foi preso logo após desembarcar no aeroporto. No mesmo ano ficou novamente preso durante um mês no mês de novembro de 1965 por participar de uma manifestação contra o regime militar durante a II Conferência da Organização dos Estados Americanos (OEA), no Hotel Glória, Rio de Janeiro, no qual discursava o fascista Castello Branco (primeiro dos militares a ocupar o posto de presidente do país). Deste episódio saiu o poema Inscrição do Prisioneiro.

Capa de A canção do amor armado, obra mais aclamada de Thiago de Mello. Foto: Reprodução.

A poesia durante a perseguição política e Pablo Neruda

Ao fim de um mês, já liberado da prisão, Thiago de Mello entraria na clandestinidade e teve contato com algumas organizações de resistência ao regime militar fascista. Exilou-se no Chile, se estabelecendo na casa de Pablo Neruda. Ficou no país até o golpe do general Augusto Pinochet. Após 1973, Thiago viveu na Argentina, Alemanha, França e Portugal.

Os anos de convívio com o poeta chileno Pablo Neruda foram frutíferos para ambos. Hospedado na casa do consagrado poeta, a amizade e colaboração dos dois cresceram. Durante seis meses a rotina da casa dos poetas era igual: trabalhando na mesma mesa, um traduzia os poemas do outro. Neruda teve suas obras Antologia poética de Pablo Neruda, Farewell, Cadernos de Temuco: 1919-1920, Os versos do Capitão traduzidas por Thiago de Mello, que, por sua vez, viu o chileno dedicar-lhe o soneto Thiago y Santiago que em seus versos finais diz: “Te irás, hermano, con la que elegistes./ Tendrás razón, pero estaremos tristes,/ que hará Santiago sin Thiago de Chille”.

Porém antes de regressar ao Brasil do exílio no Chile, Thiago de Mello publica dois livros: A canção do amor armado (1966) e Poesia comprometida com a minha e a tua vida (1975). São essas suas obras mais marcadamente políticas, em que a aflição com o forçado exílio transforma-se em grandes libelos de denúncia contra a opressão e em defesa de uma nova sociedade.

Em Madrugada camponesa, Thiago retoma a vida dos camponeses que, durante os fins da madrugada, se levantam com a certeza de que “a manhã já vai chegar”. Na mesma linha é o poema Cantiga de claridão, em que o camponês surge como um irmão que, mesmo vivendo na escuridão, é “um claro companheiro”.

Otto Maria Carpeux definiu a obra de Thiago de Mello da seguinte maneira: “Freud comparou o sonho a uma voz de criança que canta no escuro porque sente medo. O ‘Canto no Escuro’, de Thiago de Mello, ao contrário, nos inspira coragem. Sua poesia também é relógio: dá a hora do galo que anuncia a aurora.”.

Já Carlos Heitor Cony, que era editor do jornal Correio da Manhã durante o golpe militar, assim definiu Thiago de Mello: "Misturando prosa e poesia, crônica e até anúncio imobiliário, o amazonense de Barreirinha, o cidadão do mundo, o personagem de nossa época, o poeta de ‘A Canção do Amor Armado’ penetra na memória, obtendo a síntese do urbano e do telúrico, do lírico e do social. Comprometido com a sua terra e com a sua gente, de uma vez por todas Thiago de Mello assume a expressão de um poeta verdadeiramente universal.".

Regresso ao Brasil e a defesa da Amazônia

Em 1978, Thiago de Mello regressa ao Brasil e se fixa em sua cidade natal, Barreirinha (interior do Amazonas), local onde viverá sempre escrevendo e trabalhando. A defesa da Amazônia é um dos temas que Thiago de Mello se dedicará até o fim de sua vida, escrevendo livros como Amazonas, Pátria da Água (1991) e Amazônia – a menina dos olhos do mundo (1992), em que denuncia a degradação social relegada ao povo da região pela opressão do latifúndio, exploração aurífera (garimpos) e outros.

O Brasil sem Thiago

A poesia de Thiago de Mello representará sempre um clarão de liberdade àqueles que doam seus esforços na luta por um Novo Brasil – não somente aos homens e mulheres que leram os versos de um ainda jovem poeta exilado nos idos de 1960 e 1970. Nos versos do amazonense genuíno filho da Amazônia brasileira existe terreno fértil para o povo brasileiro tornar mais firme, confiante e segura sua longa e luminosa caminhada.


Abaixo reproduzimos dois poemas retirados de sua obra mais importante, A canção do amor armado; além do LP Mormaço na floresta (1983), gravado com seu filho Manduka.

 

Madrugada camponesa

 

Madrugada camponesa,

faz escuro ainda no chão,

mas é preciso plantar.

A noite já foi mais noite,

a manhã já vai chegar.

 

Não vale mais a canção

feita de medo e arremedo

para enganar solidão.

Agora vale a verdade

cantada simples e sempre,

agora vale a alegria

que se constrói dia a dia

feita de canto e de pão.

 

Breve há de ser (sinto no ar)

tempo de trigo maduro.

Vai ser tempo de ceifar.

Já se levantam prodígios,

chuva azul no milharal,

estala em flor o feijão,

um leite novo minando

no meu longe seringal.

 

Madrugada da esperança,

já é quase tempo de amor.

Colho um sol que arde no chão,

lavro a luz dentro da cana,

minha alma no seu pendão.

Madrugada camponesa.

Faz escuro (já nem tanto),

vale a pena trabalhar.

Faz escuro mas eu canto

porque a manhã vai chegar.

 

Amazonas, 62,

Santiago, 63.

 

Canto de companheiro em tempo de cuidados

 

Para o Paulinho

(o hoje Artur da Távola)

e o Francisco Weffort,

os primeiros a ler este poema

 

Contigo, companheiro, que chegaste,

desconhecido irmão de minha vida,

reparto esta esmeralda que retive

em meu peito no instante fugitivo

mas infinito em que se acaba a infância,

porque a esmeralda não se acaba nunca.

 

Reparto, companheiro, porque chegas

a este caminho longo e luminoso

mas que também se faz áspero e duro,

onde as nossas origens se abraçaram

dissolvendo-se em paz as diferenças,

engendradas na vida pela força

feroz com que desune o mundo os homens

que feitos foram para cantar juntos

porque só juntos saberão chegar

para a festa de amor que se prepara.

Porque tudo é chegar, meu companheiro

desconhecido, meu irmão que plantas

o grão no escuro e nasce a claridão.

 

É chegar e seguir, os dois cantando,

os dois e a multidão num só caminho,

em direção ao sol que nos ensina

a ser mais cristalinos, parecidos

ao menino que fomos e que somos

de novo dentro do homem, desde que o homem

seja capaz de repartir seu canto

e um pedaço de sol bem luminoso

a esse desconhecido ser que chega

sem nada: traz apenas a esperança

de ver o amor de perto. E sem ter canto

no peito machucado, de repente

de coração contigo vai cantando,

e vai na vida, a vida desgraçada,

achando uma fé nova enquanto um gosto

de também repartir lhe sobe na alma:

está no seu caminho e então reencontra

o menino que foi, quando a esmeralda

perdida no seu peito resplandece

de amor geral que se reparte e cresce.

 

Não sei se canto claro, companheiro.

Em tua vida vive o povo inteiro:

antes jamais te vi, mas te sabia

perto de mim, quando aprendi na dor

da queimadura do noturno mundo,

que se alçava voraz contra a alegria

e entranhas devorava e em fome e febre

enrolava a vergonha das mulheres

e pela mão levava sob a lua,

de enferma claridade, as ambulantes

manchas de riso em cujo fundo a infância

era uma rosa sórdida já murcha.

 

O tempo é de cuidados, companheiro.

É tempo sobretudo de vigília.

O inimigo está solto e se disfarça,

mas como usa botinas, fica fácil

distinguir-lhe o tacão grosso e lustroso,

que pisa as forças claras da verdade,

e esmaga os verdes que dão vida ao chão.

O tempo é de mentira. Não convém

deixar livre o menino da esmeralda.

Melhor é protegê-lo da violência

que amarra a liberdade em pleno voo.

A sombra já desceu, e muitas fauces

famintas se escancaram farejando.

Cuidado, companheiro, esconde a rosa,

espanta a mariposa colorida,

é perigosa essa canção de amor.

 

Cada um no seu lugar, na sua vez,

não descuidar na espreita do inimigo,

que não dorme jamais e é cheio de olhos.

E derramar a luz, no instante certo,

sobre a garra soturna do seu rosto.

É uma espera que dói, mas o que vale

é ter o coração por cidadela,

acender uma tocha em cada metro

de terra conquistado e trabalhar

melhor, para que o chão floresça mais

e o trigo erga bem alto o seu pendão

para a festa de amor, larga e geral,

onde a fome afinal não vai dançar,

porque não comerão somente eleitos,

porque são todos os que comerão.

É por isso que estamos todos juntos:

a nossa força tem o sortilégio

da seiva torrencial da primavera,

e o nosso amor palpita como os ímpetos

das águas amazônicas profundas.

 

É cantar, companheiro, e repartir

o que é preciso ser do amor geral.

Ninguém será sozinho nunca mais,

nem só na solidão, nem no poder.

 

Sempre contigo irei, e é quando canto

que te defendo, e deito em tua lâmpada

um azeite que dura a treva inteira

nesses tempos de cinza em que a vigília,

espada em flama erguida como a rosa,

só poderá cessar quando outra vez,

envergonhada, regressar a aurora,

que vai lavar de luz o chão amado,

e seremos de novo e simplesmente

meninos repartindo as esmeraldas.

 

Madrugada do inverno chileno,

La Chascona, 64.

Faz escuro mas eu canto

porque a manhã vai chegar.

Amazonas, 62,

Santiago, 63.

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