Editorial - Um ano explosivo

Tudo conspira contra o núcleo duro das classes dominantes, o establishment, em suas tentativas de impedir o agravamento catastrófico da crise geral do capitalismo burocrático e de seu velho aparelho de Estado. Já com seu sistema político bastante desmoralizado, em crise agônica que se arrasta há sete anos, permanentemente ameaçado de ruptura institucional, encontra-se condicionado pela ofensiva contrarrevolucionária preventiva em curso e desatada pelo Alto Comando da Forças Armadas (ACFA) diante das grandes rebeliões populares de 2013/14. A economia local e a mundial; a divergência profunda entre os seus representantes políticos e, inclusive, os chefes militares; o crescente e já elevado nível de consciência espontânea das massas; o potencial para crescimento explosivo do movimento revolucionário. Todos são fatores que apontam a dificultar, e muito, a sua missão.

Do ponto de vista das massas populares, não há expectativas dentro da velha ordem, nem a curto e nem a longo prazo. Ao menos 15,6 milhões de famílias estavam oficialmente na extrema miséria em dezembro de 2021, contando apenas as registradas no Cadastro Único, cujo índice só faz crescer. O desemprego, que vigora na casa dos 26,3 milhões de pessoas (contando desempregados, desalentados e subutilizados no terceiro trimestre de 2021), não terá solução minimamente plausível: a consultoria IDados estima que apenas 500 mil brasileiros sairão desse quadro durante o presente ano. Agravar-se-á a fome, que hoje já atinge mais da metade dos brasileiros, segundo a Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan). Com a renda familiar em baixa, alto endividamento doméstico e baixo consumo, segue crescendo as falências de empresas (principalmente pequenas e médias): 35% a mais em 2021, se comparado ao ano anterior.

Os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que comparam os desempenhos de diferentes países do sistema imperialista através do movimento do Produto Interno Bruto (PIB), demonstram péssimas perspectivas a nível mundial, mas muito piores são aquelas para o Brasil. Aqui ocorreu uma das quedas mais bruscas e acentuadas de todas as economias em 2019 – queda que sucedeu e foi potencializada pela recessão de 2015-2016. Sequer recuperou-se dessa segunda recessão, já está mergulhada numa terceira, desde início de 2020, e sem limites. Este ano será, por esses e outros fatores, um ano explosivo.

Esse perigoso quadro econômico lança as massas a se levantarem contra a miséria, potencializando a revolta contra as injustiças cotidianas, como se viu em 2013/14, quando se abriu um novo período de desenvolvimento da situação revolucionária no país e diante do qual o ACFA desencadeou a ofensiva contrarrevolucionária preventiva. Em seu âmbito, o núcleo do establishment impôs os maiores golpes nos direitos duramente conquistados em décadas de lutas pela classe operária e demais trabalhadores e acirrou a crise política, à medida que tal ofensiva apontou também a desmoralizar determinados grupos de poder em sua pugna para impor a solução (Operação “Lava Jato” e impeachment de Dilma). Com isso, as unidades de vontade e de ação necessárias às classes dominantes na busca por reverter o ciclo de crises não foram alcançadas. A crise política provocada por dita ofensiva aprofundou-se cada vez mais como crise militar, ainda durante o governo Temer tutelado pelo ACFA e deu novo salto com a eleição de Bolsonaro, quando se abriu uma disputa pela direção da ofensiva contrarrevolucionária entre a extrema-direita golpista de Bolsonaro e a direita liberal hegemônica no ACFA. Isto é resultado da situação gravíssima da velha ordem, tal que os gordos cães de fila do establishment, que ostentam quatro estrelas em fardamento verde-oliva, vieram à baila ditar as regras do jogo e necessariamente elevaram as divergências e as disputas de poder que podem arruinar seus planos de salvar o regime de exploração e opressão em profunda crise geral.

Quanto mais se digladiam os reacionários entre si e estes com a falsa esquerda oportunista – em suas farsas eleitorais e disputas palacianas –, e se agrava a crise geral, mais consciência recobram as massas sobre a totalidade da realidade circundante. Mobilizando-se, percebem que tudo que seus olhos veem, no momento de calmaria, é um traiçoeiro engano: a “democracia”, a “paz” e a possibilidade de alcançar estabilidade, nada disso existe e nem depende destas eleições farsescas. Marchando em luta percebem, passo a passo, que nesse sistema seu destino de ruína e padecimentos está selado e que, portanto, não há nada nele que mereça entusiasmo e nem credibilidade. Seu nível de consciência médio é já elevado e se expressa na postura que tomam nas farsas eleitorais, em cuja última o boicote eleitoral – expressão espontânea dessa consciência embrionária – foi o caminho escolhido por 58 milhões de pessoas, contando os legalmente aptos a votar; assim como se mede pelo grau de explosividade que as catapultam em lutas por suas demandas mais básicas e simples, e a crescente radicalização que têm imprimido quanto às suas formas de lutas primárias e elementares que, ontem, eram abaixo-assinados e mendicância aos políticos e, hoje, já há algum tempo, são as barricadas e os combates de rua. Mais adiante, bastará que tais massas fundam-se com a consciência proletária – através de sua vanguarda revolucionária – para que céus e montanhas se movam.

É claro que os revolucionários proletários, saídos que são das massas populares e mantendo com elas um profundo vínculo material e de pensamento, não celebram as crises, a miséria e as desgraças; mas, sabedores que são das leis que regem o capitalismo burocrático, em particular, têm clareza de que tais fenômenos no sistema de exploração e opressão são tão inevitáveis quanto a sucessão de estações climáticas. Têm, ainda, uma estratégia clara e objetiva para suplantar esse regime e esses fenômenos, passo a passo, num curso prolongado e paciente dentro do qual, através de táticas apropriadas, invertem a correlação de forças com um inimigo poderoso, tornando-o gradualmente débil e fraco, num curso sinuoso e, também, caótico. Tudo aponta a que os democratas revolucionários brasileiros têm, cada vez mais, duas vias: uma revolução violenta e prolongada, ou a resignação à escravidão, no máximo ornada a reformas cujo destino é serem revogadas logo adiante, na próxima crise.

Ouça já o Editorial da Edição nº 246 de janeiro/fevereiro de 2022:

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