Preto Chaves, o “bruxo” do Araguaia

Francisco Manoel Chaves. Foto: Banco de Dados AND

Pouco se sabe sobre Francisco Manoel Chaves. Nascido provavelmente em Minas Gerais no ano de 1906, era filho de uma família de camponeses pobres. Sofreu desde pequeno a opressão do latifúndio e do racismo.

Ainda muito jovem em 1928 ingressou como Praça na Marinha de Guerra Brasil, a Marinha sempre foi a parte das forças armadas em que por consequência das diferenças de classe agudas que se manifestaram se gestaram as maiores revoltas militares, a exemplo da revolta da chibata (1910) liderada por João Cândido [1].

Manoel não ficou imune a esse espírito de revolta que predominava na marinha brasileira à época. Enquanto a alta oficialidade sempre aderiu as posições fascistas do integralismo, Chaves e demais marujos jovens ingressavam nas fileiras do Partido Comunista do Brasil – P.C.B. e da Aliança Nacional Libertadora (ANL), que apoiou e tomou parte no Levante Popular Armado de 1935. 

Com a derrota do Levante Antifascista, Manoel Chaves foi preso e brutalmente torturado pelo infame Lucio Meira, verdugo conhecido do Estado Novo, que não arrancou uma palavra de Francisco. Sua resistência foi inquebrantável e ficou conhecida por seus semelhantes.

Manoel Chaves Foi encarcerado no presídio da Ilha Grande (RJ), onde foi retratado por Graciliano Ramos na sua genial obra Memórias do Cárcere como “gordo e baixo, sempre em luta com dificuldades imensas de expressão” e “sempre em conciliábulos no fim do galpão.”. No livro, Graciliano narra a luta de Chaves e demais prisioneiros políticos no Coletivo [2] para resistir e denunciar as condições desumanas vividas na prisão. Em 1937 é expulso da Marinha por “atividades subversivas”. 

No início da década de 1940 foi posto em liberdade, entrou em defesa do Partido na luta contra os liquidacionistas capitaneados por Agildo Barata e lutou contra o perigo da dominação fascista do Brasil. Participou da Conferência da Mantiqueira realizada em 1943, na conferência foi eleito suplente do Comitê Central e a partir de então entrou para a clandestinidade, desde então fica difícil saber mais sobre sua vida. Sabe-se que exerceu o cargo de suplente do Comitê Central até 1946. Após este período, passou a integrar o Comitê Metropolitano da Guanabara (atual Rio de Janeiro). 

Antirrevisionista, Manoel Chaves defendeu a linha Marxista-Leninista dentro do Partido quando da ofensiva dos revisionistas encabeçados por Prestes, e veio a integrar o processo da reconstrução do Partido Comunista do Brasil sob a sigla PCdoB em 1962, após o golpe de 1964, convencendo grande parte dos militantes da Guanabara a romperem com o revisionismo kruschevista-prestista do PCBrasileiro e integrarem o verdadeiro Partido da classe operária.

Com 60 anos de idade, Preto Chaves se disponibilizou para ir para a região do Araguaia na primeira e heroica tentativa de levar a cabo a Guerra Popular no Brasil, atuou no destacamento C da guerrilha adotando o nome de Zé Francisco, segundo depoimentos era um frequentador dos terreiros de Terreco [3] juntamente com Osvaldão e andava sempre com um patuá.

Com o começo da guerrilha, após a descoberta pelas forças armadas, o boato que corria entre os milicos era que o “guerrilheiro Preto” era na verdade um feiticeiro que vivia com “cordões amarrados no pescoço” e por isso que não conseguiam pegá-lo. Semelhantes boatos também foram associados a Osvaldão, líder do Destacamento B que, segundo estórias, se transformava em pedra, em árvore e em planta de forma que nunca os militares conseguiam atingi-lo. Os comunistas que foram deslocados à região do Araguaia conheciam bastante a área e eram experimentados no treinamento militar, além dos laços desenvolvidos com a massa daquela região. Isto foi o que dificultou a ação do exército reacionário, precisando de três expedições (a primeira campanha das forças de repressão contou com 5 mil soldados, a segunda com 15 mil e a terceira com 5 a 6 mil) para aniquilar toda atividade dos comunistas na região.

Manoel Chaves foi assassinado pelas forças da reação durante a segunda campanha do exército reacionário no Araguaia, segundo o relatório do camarada Ângelo Arroyo:

“No Destacamento C, perto do dia 20 de setembro, dois companheiros, Vitor e Cazuza, deslocavam-se para fazer um encontro com três companheiros. Acamparam perto de onde devia ser o encontro. À tardinha, ouviram barulho de gente que ia passando perto. Cazuza achou que eram os companheiros e quis ir ao encontro deles, mas Vitor não permitiu. Disse que só devia ir ao ponto no dia seguinte. Pela manhã Cazuza convenceu Vitor a permitir que ele fosse ao local onde, na véspera, ouvira o barulho. Vitor ainda insistiu que não se devia ir ao ponto, mas acabou concordando. Ao se aproximar do local do barulho, Cazuza foi metralhado e morreu. Vitor encontrou os três — Dina (Dinalva Oliveira Teixeira), Antonio (Antonio Carlos Monteiro Teixeira) e Zé Francisco (Francisco Chaves). 

Como estavam sem alimento, Vitor resolveu ir à roça de um tal de Rodrigues apanhar mandioca. Os companheiros disseram que lá não havia mais mandioca. Vitor, porém, insistiu. Quando se aproximaram da roça, viram rastros de soldados. Então, Vitor decidiu que os quatro deveriam esconder-se na capoeira, próxima à estrada, certamente para ver se os soldados passavam e depois então ir apanhar mandioca. Acontece que, no momento exato em que os soldados passavam pelo local onde eles estavam, um dos companheiros fez um ruído acidental. Os soldados imediatamente metralharam os quatro. Dois morreram logo: Vitor e Zé Francisco. Antonio foi gravemente ferido e levado para São Geraldo, onde foi torturado e assassinado. Escapou a companheira Dina, que sofreu um arranhão de bala no pescoço. Depois destes fatos, o comando do C decidiu recuar e procurar por todos os meios o contato com a CM.”

Depois de morto foi “desaparecido” pela ditadura militar. A ossada que supostamente pertenceria a ele, encontrada pelo Grupo de Trabalho Araguaia (GTA), não pode ser confirmada como sendo de fato de Manoel Chaves, pois não foi encontrado sequer um parente para que fizessem o DNA. O destino do corpo deste e de milhares de outros dos heróis do povo brasileiro continuam mal esclarecidos. Apenas o povo poderá fazer justiça à memória de Francisco Manoel Chaves: realizando a Revolução de Nova Democracia ininterrupta ao Socialismo, irá fazer a verdadeira justiça, que é a justiça popular. Como colocado na última linha do texto escrito sobre ele no jornal A Classe Operária de 1974:“Milhares de novos lutadores seguirão seu exemplo e perpetuarão sua memória.".




Notas:

1- João Cândido, um grande brasileiro - A Nova Democracia.

2- Organização dos presos políticos do levante de 1935 que se organizava no sentido de lutar por melhores condições e manter a organização mesmo nas duras condições impostas pelo cárcere.

3- Religião de matriz africana predominante na região norte e nordeste.

4- Para uma maior compreensão é recomendada a leitura da intervenção escrita pelo camarada Pedro Pomar e apresentada ao CC do PCdoB na última reunião que participou antes de ser brutalmente assassinado pela ditadura militar em 1972 na Chacina da Lapa junto com os camaradas Ângelo Arroyo e João Batista Franco Drummond. disponível em: https://serviraopovo.wordpress.com/2017/09/20/intervencao-no-debate-sobre-o-araguaia-pedro-pomar-1976/?wref=tp

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