Editorial semanal – O indulto da crise

O indulto presidencial concedido pelo ultrarreacionário Bolsonaro ao seu semelhante de tornozeleira, deputado Daniel Silveira (valentão da hora da extrema-direita, que demonstrou toda sua bravura na causa do fascismo, ao chorar na cela todos os dias durante sua curta passagem na prisão), é mais carga inflamável no barril prestes a explodir. A edição-relâmpago do perdão presidencial, logo da condenação de Silveira a 8 anos e 4 meses de prisão por ameaças às sacrossantas instituições latifundiário-burocráticas, foi logo recebida com ares de espanto e indignação dos excelentíssimos, dos togados, seus bajuladores liberais e do monopólio de imprensa. Indignação e ultraje inversamente proporcional à capacidade destes de reagir impondo a prisão em regime fechado – sua intenção inicial – ao troglodita bolsonarista. Não deixa de ser irônico que, baseando-se no voto do próprio Alexandre de Moraes ao conceder indulto a um chegado de Michel Temer (que o indicou para o posto de juiz da suprema corte), Bolsonaro expôs com meridiana clareza sua semelhança com estes.

Por sua vez e enganchados que se acham os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) nas baionetas dos generais golpistas, tiveram que engolir mais esse abacaxi de ponta-cabeça, uma vez que tal medida de Bolsonaro não passara sem concordância e apoio do Alto Comando das Forças Armadas (ACFA), como abertamente noticiado no monopólio. Restou a Luiz Roberto Barroso, ministro do STF, externalizar publicamente seu protesto, o que é sinal de que ficará por aí mesmo e de que o STF não afrontará os gorilas derrubando a decisão de perdão. Ou seja, o político em questão não será preso, ainda que provavelmente, ficará inelegível e Bolsonaro já saiu vitorioso neste embate.

Como temos analisado desde o princípio do governo de turno de Bolsonaro e generais, o capitão falastrão é um obstinado. Seu intento sempre foi de arrastar as Forças Armadas reacionárias para uma aventura golpista, no seu sonho de impor o regime militar fascista (fechamento completo do regime político, com a rapina desenfreada no plano econômico, em síntese). Objetivo esse que encontrou sérios obstáculos de se concretizar ao ter sobre sua cabeça a espada da prisão e condenação de suas crias, por roubo de galinha. Mais ainda, por sua ação genocida na pandemia, que ceifou desapiedadamente a vida de mais de 650 mil brasileiras e brasileiros, teve seu cargo de presidente na berlinda. Fenecendo na cadeira, se viu obrigado a entregar a chave do cofre ao dito “centrão”, para se manter vivo. Chegando aos últimos meses de seu mandato, assegurado que não será interrompido por um impeachment, já pode enxergar, contudo, a silhueta do carcereiro e ouvir o tilintar da chave, caso perca as eleições. Por isso, tem, desde já, que pôr em marcha seu plano ‘B’: virar a mesa, abrir maior crise e arrastar o ACFA para o centro desta. Neste sentido, seus compromissos com o centrão, são, por ora, estéreis, uma vez que não há mais tempo para impeachment e, sem a ‘caneta bic’ em 2023, de nada mais serve a submissão a Liras e Waldemares1.

Por outro lado, o ACFA, embora dispute e divirja com Bolsonaro sobre a imposição de um golpe à moda antiga, tem um sério problema na relação com o Judiciário e o Congresso, pois que, para seu projeto de golpe militar branco preventivo parte por parte, precisa destas instituições com seu poder reduzido a meros eunucos do poder Executivo (e, no longo prazo, tendente a seu fechamento mesmo), ou seja, de um modelo de absolutismo presidencialista, para o cumprimento das três tarefas reacionárias2. Também veem tais decisões do STF, tanto da condenação em regime fechado de um político bolsonarista, como a recente liberação de áudios do Supremo Tribunal Militar, inclusive das seções secretas, como cruzar a linha do que toleram na convivência com o presidente absoluto. Isso somado às notícias desmoralizantes de compra de viagra, próteses, picanhas e outros indizíveis com dinheiro público, obrigou uma resposta.

Há, ainda, nos cálculos militares, o fator eleitoral. Uma vez que fracassada a malfadada “terceira via” (aposta inicial feita em Sérgio Moro, que se provando sem o mínimo de estofo para a sórdida tarefa de disputar a farsa eleitoral, fora cristianizado), depositaram os generais suas esperanças de terceira via em três possibilidades: uma delas nas candidaturas a vice, impondo Braga Netto a Bolsonaro e recebendo de bom grado Alckmin na chapa do oportunismo com Luiz Inácio à cabeça; na segunda frente, a negociação de não aderir ao golpismo ao preço de manter a tutela sobre o próximo presidente ou, a terceira, apostando numa instabilidade e comoção tal que justificasse interferência no processo eleitoral e não aceitação do seu resultado.

Enquanto as “personalidades” políticas, mirando desempenho nas urnas, correm para condenar Bolsonaro por mais este “ataque à democracia”, o oportunismo petista se finge de morto. O silêncio de Luiz Inácio diz muito. Primeiro, de entender que precisa de Bolsonaro elegível para poder disputar com este a farsa eleitoral, mantendo a falsa polarização entre “esquerda” e direita, cenário favorável aos primeiros e distante dos sonhos pequeno-burgueses que o PT ajudaria a combater Bolsonaro. Em segundo lugar, sinalização tácita de submissão aos militares enquanto Poder Moderador. Prova inconteste de que o embuste comprado pelos liberais de “salvar a democracia” confiando no petista, pode estar mais distante do que imaginam e se verão logo traídos, também estes com o aprofundamento deste modelo absolutista presidencialista. É o preço do “voto de confiança” naquele que fez escola na esperteza e no ardil. Modelo que terão de aceitar liberais e oportunistas e, logo, passarão a defender quando este se demonstrar mais eficiente no combate às massas em luta.

Fatos que encerram mais crise à vista. Como já dito nesta tribuna por inúmeras vezes, é cada vez mais tarefa impossível para os militares de tentarem conter o que chamam de “crise social” sem serem arrastados, eles próprios, para o centro da crise política, que logo salta a crises militares, cada vez maiores. Situação perigosa, frente à catástrofe que se avizinha, na visão destes, caso se confirme a tendência principal da vitória do oportunista Luiz Inácio, cenário para o qual já há sinais de agitação grande na caserna e que, episódios como este, do perdão a Daniel, fortalecem a tendência de “melar” a farsa eleitoral, embora ainda seja o menos provável.

O que pode melar, por sua vez, os planos reacionários de A a Z, é a ação decidida das massas que, dirigidas por sua vanguarda revolucionária, darão um sonoro recado com boicote ativo à farsa eleitoral e, frente às ameaças golpistas e do gerenciamento oportunista parido da crise de decomposição do capitalismo burocrático, fará voar pelos ares toda vileza que se assenta sobre suas cabeças.

1Refere-se a Artur Lira e Waldemar da Costa Neto, figuras nefastas que melhor representam o dito ‘centrão’.

2Temos nos referido às três tarefas reacionárias: 1) reestruturação do velho Estado em um regime de centralização máxima do poder no Executivo 2) Re-impulsionar o capitalismo burocrático em crise geral de decomposição 3) impedir o levante das massas, conjurar o perigo de revolução.

Ouça já o Editorial semanal de 19 de abril de 2022:

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