Uruguai: centenas de milhares marcham exigindo punição pelos crimes do regime civil-militar fascista

27° edição da "Marcha do Silêncio", exigindo punição pelos crimes contra o povo cometidos durante o regime civil-militar fascista no Uruguai. Foto: Reuters

Na capital do Uruguai, Montevidéu, centenas de milhares de massas marcharam por todo o centro da cidade carregando placas com o rosto dos 197 desaparecidos durante o regime civil-militar fascista no país, no dia 20 de maio. Desde anciãos que lutaram contra  o regime até jovens, todos exigiam a investigação dos desaparecimentos e mortes perpetrados pelos assassinos e torturadores, assim como punição dos militares e civis responsáveis pela repressão ao povo, democratas e militantes.

Participaram da 27° edição da marcha, que percorreu a avenida 18 de julho, a organização Mães e Familiares de Uruguaios Detidos Desaparecidos, assim como organizações sindicais e estudantis. Nos cartazes presentes se lia: “Nenhum pacto irá silenciar a luta. Quebremos a impunidade, vivam os sonhos de nossos companheiros!", “De que adianta a liberdade se não há justiça?!", e "Sem esquecimento, sem perdão, sem reconciliação!".

27° edição da "Marcha do Silêncio", exigindo punição pelos crimes contra o povo cometidos durante o regime civil-militar fascista no Uruguai. Foto: José María Ciganda

Uruguaios que moram na França, Argentina, Espanha e Inglaterra se manifestaram na mesma ocasião. Uma ativista que participava do protesto em Paris, afirmou: “Você tem que manter a pressão porque eles também estão mantendo isso do outro lado. Eles vão sair com outro projeto [de impunidade] e com outra lei, e enquanto isso os militares que puderem dizer o que aconteceu e onde enterraram os corpos vão continuar morrendo", disse Elena Salgueiro, que faz parte da organização “Onde eles estão?”.

Parlamento e Judiciário confluem para a impunidade

27° edição da "Marcha do Silêncio", exigindo punição pelos crimes contra o povo cometidos durante o regime civil-militar fascista no Uruguai. Foto: Ernesto Ryan.

As exigências por investigação e punição pelos crimes se dão em um contexto de paralisação completa das investigações pelos desaparecidos e do processo dos casos no Judiciário. 

Além disso, dentro do parlamento, partidos com ligações estreitas ao Exército reacionário e à direita-civil atualmente no governo tentam impor novamente a Lei da Caducidade (já aplicada durante todo o período do regime militar), que deixa livre de qualquer punição todos os policiais e militares reacionários que tivessem cometido qualquer crime durante todo o período do regime militar. Assim como tenta se aplicar a prisão domiciliar para todos os torturadores e outros criminosos do regime desde que tenham mais de 65 anos. 

27° edição da "Marcha do Silêncio", exigindo punição pelos crimes contra o povo cometidos durante o regime civil-militar fascista no Uruguai. Foto: Ernesto Ryan.

Exemplo dessa impunidade foi a decisão de dezembro passado de condenação do velho Estado uruguaio feito pela Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso pelo desaparecimento forçado de Luis Eduardo González González e Oscar Tassino Asteazu, bem como como as execuções extrajudiciais de Diana Maidanik, Laura Raggio Odizzio e Silvia Reyes durante o regime. Apesar do velho Estado uruguaio ter sido condenado, nenhuma nova instância foi gerada e o caso permaneceu estagnado.

Regime militar e o Plano Condor

Maria Bellizzi, fundadora da organização Mães e Familiares de Uruguaios Detidos Desaparecidos durante. Foto: Ernesto Ryan

A data do dia 20 de maio marca o assassinato de quatro militantes uruguaios: Zelmar Michelini, Héctor Gutiérrez Ruiz, Rosario Barredo e William Whitelaw, e também o desaparecimento de Manuel Liberoff, no ano de 1976. Os crimes continuam impunes até hoje.

Eles aconteceram durante o regime civil-militar fascista do Uruguai, que durou de 27 de junho de 1973 a 1 de março de 1985. O regime no Uruguai, assim como todos os outros regimes civil-militares fascistas ou governos com ligação direta ao Exército reacionário que aconteciam na América Latina ao mesmo tempo, como no Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru e Equador, foram o desenvolvimento da aplicação do plano imperialista ianque Condor, para aprofundar o domínio de exploração e opressão sobre a América Latina e, principalmente, conjurar a mobilização e organização das massas nesta parte do continente e o desenvolvimento destas mobilizações em revoluções.

No Uruguai, entre os anos 50 e 60 despontava uma grande crise econômica e política que levantou as massas do país em lutas por seus direitos, em um auge da luta pela terra dos camponeses pobres. No mesmo período surgiram e se desenvolveram diversas organizações revolucionárias que realizam ações armadas de guerrilha. 

Em resposta ao desenvolvimento da situação revolucionária, já nos anos 60 durante o governo reacionário de Jorge Alejandro Pacheco, uma série de medidas suspendem as “garantias constitucionais” (entre elas a liberdade de organização, de expressão, com censura à imprensa, dentre outras). O regime civil-militar fascista foi um desenvolvimento desse processo de reacionarização do velho Estado uruguaio.

No cenário internacional vigorava a vitória da revolução popular em Cuba, no ano de 1959, a invasão ianque no Vietnam, iniciada em 1955, assim como a Guerra Popular em resposta desenvolvida no país e o rechaço ao regime civil-militar fascista que já se instaurara no Brasil desde 1964.

Durante a aplicação do Plano Condor (que começa oficialmente nos anos 70), entre 1976 e 1978, de todos os países, os uruguaios totalizaram 58% dos perseguidos, de acordo com a pesquisadora italiana do Plano Condor Francesca Lessa. Assim como o Uruguai foi um dos países que mais se utilizou das estruturas de coordenação repressiva junto de outros regimes militares na América Latina e em contato direto com o imperialismo ianque.

27° edição da "Marcha do Silêncio", exigindo punição pelos crimes contra o povo cometidos durante o regime civil-militar fascista no Uruguai. Foto: Agustina Saubaber

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