Vassalagem: Abin entrega ao FBI casal de cientistas que pretendia repassar tecnologia nuclear ao Brasil

Em ação serviçal, Abin delata casal de cientistas para o FBI e colabora nas investigações. Foto: Reprodução

A Agência “Brasileira” de Inteligência (Abin) entregou ao Departamento Federal de Investigação ianque (FBI, do inglês Federal Bureau of Investigation) o casal de cientistas Jonathan e Diana Toebbe. Foi o que revelou uma reportagem do jornal The New York Times, do monopólio de imprensa imperialista ianque, publicada no dia 18 de março de 2022.

De acordo com a publicação, o serviço de espionagem brasileiro entrou em contato com o FBI para denunciar os dois cientistas. O motivo? O casal queria compartilhar segredos de tecnologia nuclear com o governo brasileiro.

Na carta recebida pela diplomacia brasileira no USA, datada de abril de 2020, o remetente se identificou como Alice, e escreveu o seguinte: “Peço desculpas pela tradução ruim para sua língua. Por favor, encaminhe esta carta para sua agência de inteligência militar. Eu acredito que a informação será de grande valor para sua nação. Isso não é um trote".

Após a delação, o FBI abriu uma investigação que teve início em dezembro de 2020. Os agentes federais ianques começaram a fingir que eram agentes da Abin para investigar e produzir provas contra os cientistas. Tudo isso aconteceu com anuência e ajuda do governo brasileiro, que deixou inclusive que se usasse o prédio da embaixada brasileira em Washington, para ludibriar Jonathan e Diana, para que os mesmos tivessem certeza de estarem negociando com um membro do governo brasileiro.

Jonathan e Diana Toebbe foram presos no dia 9 de outubro de 2021, após quase um ano de investigações. O julgamento deles deve ocorrer em agosto do presente ano. O casal está sujeito a pegar prisão perpétua.

Os documentos que o casal pretendia entregar ao governo brasileiro continham informações confidenciais sobre detalhes técnicos, manuais de operação e relatórios de desempenho de submarinos movidos a propulsão nuclear. Esses submarinos chegam a custar 3 bilhões de dólares, e poucos países no mundo têm a tecnologia para produzi-los. Além disso, as embarcações movidas a propulsão nuclear oferecem grande vantagem em comparação às que utilizam combustível comum, pois não precisam reabastecer, afinal, o combustível de urânio é suficiente para durar mais de 30 anos. Os submarinos com propulsão nuclear também operam com maior velocidade e não exigem oxigênio como os de combustível comum, podendo dessa forma passar muito mais tempo submerso.

Jonathan, de 43 anos, entrou para a Marinha ianque em 2012, após fazer mestrado em física nuclear. Ele havia deixado o serviço ativo em 2017, por ter cumprido seu tempo, e ficaria na reserva até julho de 2020. Sua mulher, Diana, 42 anos, era professora do ensino básico. Os dois viviam em Annapolis, no estado de Maryland.

Tal ação serviçal comprova mais uma vez o caráter semicolonial do velho Estado brasileiro e trata-se de um crime lesa-pátria.

Brasil tenta desde 1979 construir seu submarino de propulsão nuclear. Foto: José Dias

Pressões e sabotagens contra o programa nuclear brasileiro

O Brasil tenta desde os anos 1940 desenvolver seu programa nuclear. Contudo, dado o seu caráter semicolonial, enfrenta inúmeras dificuldades e sabotagens por parte de países imperialistas e suas agências internacionais, aliadas com políticos lacaios locais. Como prova disso, a Marinha tenta desde 1979 construir um submarino com propulsão nuclear.

O projeto não consegue se desenvolver, pois apesar de já dominar tecnologias vitais como a do ciclo completo do combustível para ser usado em reatores, os cientistas brasileiros não conseguem obter certificação do combustível a ser usado no submarino, pois é impedido pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) de enriquecer o urânio a uma temperatura de 20%, que é a quantidade necessária para rodar a turbina do motor da embarcação.

Essa proibição impede o País de desenvolver uma matriz energética barata e potente, que ajudaria a evitar apagões como o que ocorreu em Macapá, no ano de 2020. Esta autossuficiência energética é uma condição fundamental para o desenvolvimento econômico. Outro exemplo de restrição ao Brasil  no que tange ao enriquecimento e pesquisas em torno do urânio está o fato de as Usinas Nucleares de Angra 1 e 2, no Rio de Janeiro, só poderem enriquecer o material até o índice de 4,25%. A justificativa é restringir o armamento nuclear, sendo que para se produzir bombas nucleares, o índice de enriquecimento do urânio tem que chegar a 80%.

Mais grave do que isso, é o fato de o Brasil ter a sexta maior reserva de urânio do mundo (mesmo sem explorar e verificar a existência do metal em dois terços do território nacional) e ser obrigado a transferir o material em forma bruta para outros países, para que, aí sim, tal material seja enriquecido e uma pequena porcentagem deste seja devolvida em forma de pastilhas em pó que alimentam os reatores das duas usinas.

Na matéria Roteiro das investidas contra o programa nuclear brasileiro, publicada na edição número 22 do AND, o autor Archibaldo Figueira discorre sobre as sabotagens e ataques ao projeto brasileiro:

“Um ano após o golpe contrarrevolucionário de 1964 foi assinado, em Washington, o Acordo de Cooperação Nuclear entre o Brasil e o USA. Esse acordo, lembra Guilhemina Coimbra (doutora em Direito e Economia, professora na Universidade Federal Rural, presidente do Instituto de Integração das Nações e vice-presidente da Comissão de Ensino Jurídico e Advocacia da Federação Interamericana de Advogados), gerou dependência tecnológica de equipamentos (reatores) e de urânio enriquecido, principalmente com a instalação de Angra I.

O urânio enriquecido só poderia ser adquirido no USA, não teria outra utilização que não a energia elétrica e teria de ser devolvido ao fornecedor da tecnologia, depois de utilizado. Até 1966, dentro do convencionado, nenhum depósito de urânio poderia ser 'descoberto', no Brasil. Somente em Poços de Caldas, Minas Gerais, a presença de urânio foi detectada e confirmada — mas, os argumentos contra a exploração 'eram os tendenciosos de sempre, objetivando desinformar a população brasileira sobre o seu imenso e inestimável patrimônio de minérios energéticos'.

De 1967 a 1969, foi decidida a construção de mais uma usina nuclear e, em seguida, firmado o Acordo Brasil-Alemanha. O Brasil não assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), mas reconheceu a AIEA. A Índia, a China, o Paquistão e a Coréia do Norte recusaram o TNP considerando-o discriminatório.

Na gerência de Ernesto Geisel (1974 a 1979), foi assinado o Protocolo de Bonn, contratadas empresas nucleares alemãs e criadas as empresas nucleares brasileiras.

A intenção geral do Protocolo de Bonn era a de implementar no Brasil uma capacidade industrial em todas as áreas de propósitos pacíficos da energia nuclear e, ao mesmo tempo, promover a transferência de tecnologia. Mas pelo Protocolo de Bonn, o Brasil deveria suprir a demanda de urânio da Alemanha, enquanto que, em 1983, o Fundo Monetário Internacional (FMI) mandou a gerência do Brasil à época reprogramar o cronograma de construção das suas usinas nucleares.

A comunidade científica foi deixada de fora do Programa Nuclear Brasileiro oficial. Até a Companhia Nuclear de Engenharia de Equipamentos Pesados (Nuclep), uma das empresas nucleares criadas por Geisel, foi proibida de ter os seus próprios projetos de engenharia e de comercializá-los. De 1984 a 1986 os cientistas, engenheiros, técnicos — apoiados pela Marinha — continuaram as pesquisas, chegando ao domínio completo do ciclo do combustível nuclear. Com isso a energia nuclear poderia ser usada em inumeráveis atividades, da engenharia à medicina, Em 1987, José Sarney, na gerência do Estado brasileiro, anunciou precipitadamente que os brasileiros estavam aptos a desenvolver a tecnologia nuclear. Nessa época aconteceu algo muito estranho: — A reação não se fez esperar. Aproveitaram-se do "incidente nuclear" de Goiânia para tentar convencer à população brasileira que, se os nossos técnicos não conseguiam administrar uma bomba de Césio-137, seriam incapazes de lidar comercialmente, com a energia nuclear”.

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