BA: Latifundiários invadem retomada indígena anunciando nova chacina

Com a promessa de repetir a covarde chacina ocorrida em Amambai, Mato Grosso do Sul (MS), um comboio de 50 veículos formado por latifundiários do setor pecuário, pistoleiros e policiais avançou contra a aldeia Cassiano, uma retomada realizada pelo povo Pataxó na Terra Indígena (TI) Barra Velha do Monte Pascoal no extremo sul da Bahia (BA). O fato ocorreu em 26 de junho, dois dias após a chacina.

Comboio de latifundiários percorrem redondezas da retomada na TI Barra Velha do Monte Pascoal anunciando nova chacina. Foto: Povo Pataxó

O covarde ataque

“Estão se juntando os agropecuaristas do Sul da Bahia, entendeu? Todos proprietários rurais se juntando para tirar da propriedade Fazenda Brasília ‘falsos índios’, que não são índios, para fazer o que estão fazendo no Mato Grosso!”, afirmava um dos reacionários que participou da invasão, enquanto registrava em vídeo a passagem do comboio que contava com cerca de 50 caminhonetes vindas de diversos municípios da região. De acordo com denúncias dos indígenas, além dos latifundiários estavam nos veículos pistoleiros e agentes da Polícia Militar (PM).

Os alvos desta ilegal investida, levianamente chamados pelos reacionários como “falsos índios”, foram os indígenas do povo Pataxó que haviam realizado, em 25/06, uma vigorosa retomada na Terra Indígena (TI) Barra Velha do Monte Pascoal, localizada entre Prado e Porto Seguro.

“Eles estão querendo ir pra guerra”, denunciou em vídeo um transeunte que passava pelo comboio. Segundo relatos, os invasores portavam armas de uso exclusivo da polícia e se identificaram como policiais e seguranças do latifúndio. Durante o ataque, celulares de lideranças indígenas foram roubados pelos reacionários. Rondas seguem sendo feitas nas estradas e visam impedir a circulação dos indígenas.

Ao declararem a intenção de repetir as ações ocorridas em MS, os latifundiários se referiam ao recente ataque contra o povo Guarani Kaiowá. O massacre da tropa de Choque da PM mobilizou um helicóptero e 100 agentes junto a pistoleiros a serviço do latifúndio. O saldo foi uma covarde chacina contra indígenas em 24/06 no território de retomada Tekoha Gwapo’y Mi Tujury em Amambai. 

As retomadas do povo Pataxó

Um dia antes deste recente ataque na Bahia, cerca de 100 indígenas do povo Pataxó retomaram parte da TI Barra Velha do Monte Pascoal. A área ocupada pelos indígenas era conhecida como Fazenda Brasília e havia sido grilada pelo latifúndio. Essa não é a única área pertencente ao povo Pataxó que foi alvo da rapina do latifúndio.

No ano de 1980, 15% do território indígena Pataxó (8,7 mil hectares) foi demarcado formando a TI Barra Velha. Apenas em 2009 o restante da área foi reconhecida pela Fundação Nacional do Índio (Funai) formando uma nova delimitação nomeada TI Barra Velha do Monte Pascoal. Contudo, um grupo de latifundiários e o Sindicato Rural de Porto Seguro tentaram anular a demarcação através de processo judiciário em 2013. O processo segue em andamento apesar da decisão da Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) favorável aos indígenas.

Apenas no perímetro da TI, 41 propriedades em nome de 13 pessoas foram certificadas em sobreposição ao território indígena por meio do Sistema de Gestão Fundiária (Sigef) do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Essas áreas abrangem um total de 9,1 mil hectares. Oito destes latifundiários são parte do grupo que moveu ação judicial contra os indígenas.

A ocupação da TI Barra Velha do Monte Pascoal havia sido a segunda retomada ocorrida no sul da Bahia naquela mesma semana. No dia 22/06, aproximadamente 180 indígenas Pataxó retomaram parte do TI Comexatibá (Cahy Pequi) invadido por monopólios latifundiários de produção de celulose, após ao menos sete anos de espera pela conclusão da demarcação. A área ocupada era conhecida como Fazenda Santa Bárbara e segundo denúncias estava ligada a Suzano Celulose.


O terror não poderá parar as retomadas

Em um manifesto em vídeo realizado durante a retomada de parte da TI Comexatibá, uma liderança Pataxó afirmou: “Nós, o povo Pataxó, não vamos mais permitir a destruição de nossos territórios. O povo Pataxó é conhecido nas histórias dos povos indígenas do Brasil como de grandes estratégias de luta e grandes atiradores de flecha. E foram 450 anos de guerra do nosso povo nessa base para existir essa mata atlântica aqui. No arco e na flecha! Nosso povo foi conhecido por fazer incursão devastadora pra cima das vilas que tentavam destruir nosso povo.”. 

Reafirmando a disposição em defender os seus territórios, o líder Pataxó declarou: “Hoje estamos aqui mostrando que quem tem o sagrado poder somos nós! E que multinacionais, milionários, trilionários, Veracel, Suzano não são nada! Hoje nós estamos expulsando a Suzano do município de Prado, da Terra Indígena Cahy Pequi Comexatibá em torno do Monte Pascoal. Fora Suzano! Não vai ficar um pé de eucalipto em nossa terra sagrada, porque isso é mau. Fora de nosso território Suzano! Não aceitamos eucalipto aqui, não!”.

Em nota emitida pela Aty Guasu Guarani Kaoiwá após a chacina de Amambai, os guaranis declaram que a ação ilegal da PM, cães de guarda do latiúndio e garantidores da política latifúndista do velho Estado, visava impedir que as famílias alcançassem seu direito de reaver um território roubado e afirmam que não desistirão até que os responsáveis pelos covardes crimes sejam penalizados.

A redação do jornal Resistência Camponesa afirmou em ocasião da Chacina de Amambai, que “a sanha bovina dos promotores deste massacre é antes demonstração de temor que de força”. Disseram ainda que a luta dos povos originários desta terra é parte inseparável da luta geral dos camponeses pobres, e a via da autodemarcação é o mesmo caminho da resistência camponesa e da Revolução Agrária. A nota completa pode ser lida aqui.

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

Nunca recebemos um centavo de bancos ou partidos eleitoreiros. Todo nosso financiamento sempre partiu do apoio de nossos leitores, colaboradores e entusiastas da imprensa popular e democrática. Nesse contexto em que as lutas populares tendem a tomar novas proporções é mais do que nunca necessário e decisivo o seu apoio.

Se você acredita na Revolução Brasileira, apoie a imprensa que a ela serve - Clique Aqui

LEIA TAMBÉM

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de Apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro

E-mail: [email protected]om
Reuniões semanais de apoiadores
todo sábado, às 9h30

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda (licenciado)
Victor Costa Bellizia (provisório)

Editor-chefe 
Victor Costa Bellizia

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão (In memoriam)
Henrique Júdice
Matheus Magioli Cossa
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação
Ana Lúcia Nunes
João Alves
Taís Souza
Gabriel Artur
Giovanna Maria
Victor Benjamin

Ilustração
Victor Benjamin