O enterro sem velório da ‘CPI da Covid’

O arquivamento pela Procuradoria Geral da República (PGR) das apurações feitas pela CPI da Covid em 2021 sepultou, sem velório e em vala coletiva – como previsto nesta tribuna –, qualquer possibilidade de responsabilização penal para os generais e membros do governo militar genocida de Bolsonaro. Dentre os crimes fadados à impunidade, contam-se: a “experiência de Manaus”, que levou à morte dezenas de milhares de pessoas sufocadas por falta de oxigênio medicinal, enquanto o general Pazuello, o Carniceiro, ofertava cloroquina e enviava suprimentos a outro estado; a sabotagem ativa das Forças Armadas reacionárias e Bolsonaro às medidas de prevenção, dentre elas, o uso de máscaras sanitárias; a compra e produção pelas Forças Armadas reacionárias de cloroquina e hidroxicloroquina (comprovadamente ineficazes para tratar Covid-19), enquanto se negava a compra e registro de vacinas eficazes; o retardamento doloso da vacinação geral da população; a experiência mortífera da Prevent Senior[i], de orgulhar a Josef Mengele[ii]; política de não-testagem e até destruição de testes; negação de auxílio-emergencial e o espalhamento geral de desinformação e misticismo em flagrantes crimes contra a saúde do povo, e outros.

Em estudos recentes, ficou documentado e comprovado que, pelo menos, um terço das mortes poderiam ter sido evitadas ao ter-se adotado a combinação de máscara, testagem, vacinação e campanhas de informação. Nem se inclui nesta lista o infame lockdown, medida extrema e ineficaz se não acompanhada das demais, que virou o espantalho preferido do governo militar genocida para sabotar todas outras medidas – bem verdade, muito ajudado que foi pelo alarmismo, terrorismo psicológico e pusilanimidade do oportunismo e Rede Globo combinados. Portanto, falamos de um genocídio de cerca de 500 mil pessoas, dentre elas, 1.439 crianças entre 2020 e 2021, segundo a FioCruz[iii]. Isso tudo, sem considerar as mortes decorrentes da crise potenciada pela pandemia e das medidas econômicas reacionárias aplicadas sob pretexto dela.

Interesses eleitoreiros acima de tudo e o velho Estado acima de todos

Em 2021, as V. Excrescências do Congresso montaram um circo. A infame “CPI da Covid”, supostamente armada para investigar e punir os genocidas, já nasceu desmoralizada. Alguns periodistas liberais mais emocionados chegaram a compará-la com o Tribunal de Nuremberg[iv], esquecendo-se do fundamental: aquele se deu baseado na vitória obtida sob a direção do proletariado no poder, particularmente, da União Soviética sob direção de Stalin; enquanto esta CPI fora dirigida pela ala majoritária de grandes burgueses e latifundiários, dirigidos por Renan Calheiros. Só os patetas ou canalhas poderiam esperar algum resultado efetivo em termos de julgamento saído daí.

Enquanto o oportunismo buscava iludir o movimento popular sobre os desígnios da CPI, tiveram atuação quase nula na mesma, uma vez que precisavam salvar o mandato de Bolsonaro para poderem competir em melhores condições na farsa eleitoral que se aproximava. Daí que sua “tática” foi apenas desgastá-lo. Já a ala dos liberais reacionários, que mais encarnam os interesses coletivos do velho Estado brasileiro, tinha por objetivo principal o impeachment de Bolsonaro para salvar o sistema de exploração e opressão, evitar maior desmoralização do velho Estado e evitar uma rebelião popular, temendo-a em níveis superiores a 2013. De forma secundária ainda, o impeachment seria o caminho livre para a “terceira via” triunfar no pleito de outubro.

Em comum, todas essas forças reacionárias tiveram o fato de nunca se atreverem a atacar os generais golpistas, tendo ficado mais histéricos com denúncias de “corrupção” do que com a nauseante página escrita em Manaus, para citar apenas uma. Falaram fino com a generalada genocida e miraram sua artilharia pesada em figuras patéticas da latrina olavista.

Ao fim e ao cabo, a CPI serviu de catalisador para a revolta popular com relação ao genocídio, em substituição aos levantes levados a cabo em países vizinhos. Isso e combinado à ofensiva ideológica do monopólio de imprensa, com a Rede Globo à cabeça, com seu terrorismo de isolamento social impositivo.

Desfaçatez do monopólio de imprensa

Depois de transmitirem e repercutirem cada segundo da farsa da CPI por meses a fio, abusando da paciência e boa vontade do povo, prometendo que não terminaria em pizza, tendo alguns de seus tribunos exaltados e garantindo que o PGR ficaria em muitos maus lençóis caso não tomasse providência e mesmo que assim fosse, que teriam caminhos jurídicos etc, etc. Estes mesmos monopólios hoje anunciam este enterro sem cerimônia de maneira tímida, frente ao perigo do maior desmascaramento de todo sistema político podre até o núcleo.

Basta mencionar, por exemplo, que não noticiam, ou pelo menos não de forma contundente, que justamente o Senado, tal sepulcro caiado, tem constitucionalmente o dever de remover o PGR, caso se verifique o crime de prevaricação. Ao contrário, porém, o que este Senado fez foi reconduzir Augusto Aras ao cargo. Não custa lembrar que é precisamente Augusto Aras quem pode abrir processos contra os ínclitos senadores por crime comum. Tal é a essência do “poder Judiciário” dentro do velho Estado: nada mais que um membro gangrenado do sistema podre.

Por isso, sempre dissemos e não cansamos de recalcar: só o poder do povo sob direção do proletariado revolucionário é que pode punir todos os crimes contra o povo, enquanto que sob a ditadura da burguesia, sempre prevalecerá a tendência ao acordo e às anistias para os criminosos. Lembremos que vivemos no país que jamais puniu os torturadores do regime militar. Agora, também, é o país que não puniu os genocidas do governo militar de Bolsonaro. Se seguirá sendo, são outros quinhentos.


[i]Prevent Senior – Plano de saúde do Hospital Sancta Maggiore, em São Paulo-SP, onde a direção do hospital identificada por lemas nazifascistas conduziram experiências humanas de morte com pacientes com Covid-19 e selecionaram deliberadamente pacientes para morrer no auge da crise.

[ii]Josef Mengele – Oficial nazista da SS, médico no campo de concentração de Auschwitz, durante a Segunda Guerra  Mundial. Mengele foi o principal médico responsável pela seleção das vítimas a serem mortas nas câmaras de gás e por realizar experimentos humanos em prisioneiros do nazismo, fugiu antes do Exército Vermelho libertar o campo de concentração, vindo parar na América do Sul. Morreu no Brasil, em Embu das Artes, em 1979.

[iii]2022, FIOCRUZ, “Covid mata dois menores de 5 anos por dia”. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/covid-19-mata-dois-menores-de-5-anos-por-dia-no-brasil/. Acessado em 28 de Julho de 2022.

[iv]Tribunal de Nuremberg – Julgamento histórico dos crimes no nazifascismo durante a II Guerra, condenou e fuzilou a maioria dos generais nazistas.

General Pazuello, o Carniceiro, presta depoimento na chamada CPI da Covid. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

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