MG: Agropéu ameaça comunidade quilombola de Saco Barreiro

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Latifúndio da Agropéu ameaça

comunidade quilombola de Saco Barreiro

Por Alexandre Alves, Aline Freitas, Ana Raquel e Carlos Henrique

A comunidade quilombola Saco Barreiro localizada do município de Pompéu (MG) é mais uma de muitas outras comunidades quilombolas no Brasil ameaçada pelo avanço do latifúndio. O quilombo de Saco Barreiro está travando uma luta dura contra a empresa Agropéu S/A para conseguir a titulação de suas terras.

A origem do quilombo de Saco Barreiro passa por várias desventuras e conflitos com latifundiários. Os quilombolas de Saco Barreiro são remanescentes de outro quilombo de Pompéu conhecido como Quilombo da Vereda. Durante todo o processo de constituição do quilombo houve diversos conflitos com fazendeiros da época que envolvia coerções, ameaças e expropriações de terras, esses conflitos ficaram conhecidos como 1ª, 2ª e 3ª expulsão.

A primeira expulsão de acordo com os moradores se deu com a expropriação dos moradores do Quilombo da Vereda pelos fazendeiros. O Quilombo da Vereda que deu origem a Saco Barreiro se localizava as margens do córrego Curralinho, que fica ao norte do local onde está Saco Barreiro hoje. Segundo Wilton, um dos quilombolas entrevistados, a primeira expulsão ocorreu da seguinte maneira: os fazendeiros chegavam ao local onde estavam os quilombolas com o interesse de usar a região como pasto para o gado, pois a área cultivada pelos quilombolas já havia sido preparada por eles. Os fazendeiros então ofereciam terras adiante aos moradores; os quilombolas preparavam a terra, começavam a produzir e novamente os fazendeiros apareciam interessados nas terras para o gado e ofereciam terras em outro lugar. Muitos desistiam de continuar a tentar produzir, deixavam as terras e migravam para as cidades a procura de emprego, outros permaneceram nas terras, porém, por medo, acabavam atendendo aos anseios dos latifundiários.

As expropriações continuaram e hoje a comunidade se encontra esmagada em uma pequena área ilhada por um mar de cana de açúcar sem poder plantar.

As segunda e terceira expulsão ocorreram com o aumento da exploração do trabalho dos quilombolas pelos latifundiários e com a chegada da Agropéu na região. Sem terras para plantar muitos quilombolas começaram a trabalhar no regime de meia para os fazendeiros, os fazendeiros muitas vezes forneciam também sementes e ferramentas para o plantio, o que fazia a divisão da meia ser alterada. Por exemplo a cada 20 alqueires de terras cultivadas 10 alqueires fica para o fazendeiro e 10 para os quilombolas porém o fazendeiro cobrava 5 alqueires pelas sementes restando assim somente 5 alqueires para os quilombolas. Devido a essa situação precarizada, em épocas de pouca colheita não havia comida para todos, muitas vezes as famílias trocavam dias de trabalho por alimento. As condições de trabalho eram bem precárias e duras para os quilombolas, alguns saiam de casa as 4 da manhã para tirar leite e só voltavam por volta das dezenove horas, tudo isso sem férias ou aposentadoria. A tirania dos fazendeiros era evidente também durante as eleições, onde os fazendeiros intimidavam os moradores para votar nos candidatos que os fazendeiros apoiavam. Posteriormente com a mecanização, os filhos dos fazendeiros que haviam retirado as famílias quilombolas anteriormente, passaram a proibir os filhos dos quilombolas de trabalharem nas fazendas, os fazendo procurarem emprego nas cidades e provocando uma segunda expulsão. De acordo com Wilton após os filhos dos quilombolas irem para a cidade, seus pais permaneceram no quilombo, muitos já idosos e sem condições para trabalhar. Os fazendeiros então ofereciam para os idosos um barraco na cidade em troca de suas terras, expropriando os quilombolas e gerando uma terceira expulsão.

 

AGROPÉU S/A E A TENTATIVA DA QUARTA EXPULSÃO 

 

A história da comunidade de Saco Barreiro passou por muitos grandes dificuldades e embates diretos com os fazendeiros e coronéis da cidade mineira de Pompéu. Mas apesar de todas as investidas para tentar acabar com a comunidade, a resistência dos quilombolas fez com que a comunidade permanecesse de pé. Porém atualmente os moradores de Saco Barreiro enfrentam um novo inimigo, o latifúndio travestido de agronegócio da empresa Agropéu.

A Agropéu foi criada e introduzida na cidade de Pompéu durante do regime militar com o Programa Nacional do Álcool – PROALCOOL, a empresa possuí cerca de 20.000 ha de canaviais e representa hoje o maior problema para o quilombo. A empresa traz diversos danos para os moradores, como: invasão do território, problemas de saúde, problemas econômicos e danos ambientais.

Após a empresa se instalar na cidade e começar sua produção, vários fazendeiros em torno da comunidade quilombola se viram pressionados a vender suas fazendas para a empresa, pois a maior parte das terras, não possuem escrituras e/ou são griladas. Com a pressão da Agropéu e com os fazendeiros vendendo suas terras fez com que hoje, Saco Barreiro, fosse cercada por todos os lados por um mar de cana de açúcar, tornando o quilombo um grande foco de resistência contra as tentativas da empresa de tomar suas terras.

A Agropéu gera grandes mazelas para os quilombolas, o canavial está tomando conta do território, a casas no quilombo cujo a entrada fica a menos de 5 metros do canavial, lugares importantes para os quilombolas como a antiga escola da comunidade, e casas de moradores, foram demolidos para da espaço á cana. Fora os problemas em relação ao território, os moradores enfrentam um problema mais grave, a intoxicação causada pelos agrotóxicos jogados na plantação. Os moradores reclamam muito do bombardeio de agrotóxicos feitos pelos aviões da empresa, quem sem dia, hora ou direção especifica despeja litros e mais litros de agrotóxico sobre a plantação de cana. Como a comunidade esta cercada pela plantação, o agrotóxico e despejado sobre as casas dos quilombolas. Os danos a saúde relatados pelos moradores são vários como: dores fortes de cabeça, náuseas, problemas graves de visão, dores nos rins entre outras coisas. Além dos problemas de saúde os agrotóxicos causam danos ambientais como no caso da morte dos peixes do córrego que próximo a comunidade, Wilton relatou que ao acordar um dia, foi ate o córrego e deparou com os peixes agonizando e morrendo. Técnicos foram a comunidade e constataram que o córrego havia sido envenenado por agrotóxicos. Problemas econômicos causados pela empresa também são relatados pelos moradores. A comunidade de Saco Barreiro tem como uma de suas fontes de renda a venda dos excedentes da produção das famílias. De acordo com Wilton alguns lugares já mostraram interesse em fechar licitações com a comunidade de fornecimento de hortaliças, mas os agrotóxicos jogados pelo avião da Agropéu contaminam os alimentos produzidos pelos quilombolas fazendo com que seja inviável fechar um contrato com algum fornecedor.  Como não bastasse todos os prejuízos causados, a relatos de vezes em que a empresa sabotou as plantações dos moradores, desviando toda a água do córrego com uma bomba para irrigar a plantação de cana. Wilton disse que já fez varias reclamações sobre toda essa situação, mas a resposta da empresa sempre se limita a propor a comprar as terras dos quilombolas.

Vários moradores denunciam os atrasos para o processo de titulação da comunidade relacionando com o poder dos latifundiários, usam de seu poder financeiro para boicotar e retardar o processo de titulação da comunidade. A titulação das terras é algo muito esperado pelos quilombolas, o processo de titulação é longo e burocrático, mas o quilombolas se mostram dispostos a ir ate o final para garantir legalmente as terras que na pratica já os pertencem desde a época de Dona Joaquina de Pompéu.

Ao visitarmos a comunidade  de Saco barreiro, podemos perceber que de fato o seu território está sendo ameaçado constantemente pelo avanço do latifúndio local através da cana de açúcar. Os moradores sofrem diversos ataques sutis como as constantes chuvas de agrotóxico, roubo de água entre outras coisas, no intuito de precarizar as condições das famílias de se manterem na região para assim força-las a ceder seus terrenos, provocando assim a tentativa de uma quarta expulsão dos moradores. Mas sem duvidadas a comunidade e seus moradores resistirão a mais essa tentativa de expropriação de suas terras. Ficou muito claro nas falas dos moradores durante as entrevistas o sentimento de pertencimento  à aquela terra e a disposição de luta para ir ate o fim sem nenhuma passo atrás até sua titulação. Saco Barreiro representa um importante foco de resistência em Pompéu, e serve de exemplo para todos os moradores da cidade, um exemplo de luta e resistência histórica do povo quilombola de nosso país. Saudações de luta a todos os moradores de Saco Barreiro.

 

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