Caçada as bruxas na República Federativa da Alemanha (RFA)

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Caçada as bruxas na República Federativa da Alemanha (RFA)

 


Reproduzimos a seguir a versão em português do importante artigo publicado pelo sítio alemão Dem Volke Dienen em resposta a odiosa campanha de criminalização e perseguição política movida pelo Estado Alemão contra os ativistas que tomaram parte dos combativos protestos contra a reunião da cúpula do G20 em Hamburgo, em julho de 2017.


Hoje (19/12/2017), em uma coletiva de imprensa da polícia da “Cidade Livre e Hanse de Hamburgo”, fotos de 104 supostos “criminosos” foram publicados e 5 vídeos foram exibidos. A lista dos fatos foi: “Elbchaussee” 5 fotos de 5 pessoas. “G20 Not Welcome!”: 43 fotos de 13 pessoas. “Plünderungen”: 80 fotos de 46 pessoas “Stein- und Flaschenbewurf”: 32 fotos de 17 pessoas. “Rondenbarg”: 44 fotos de 25 pessoas.

Aqui segue um link anônimo para as imagens dos policiais: https://anon.to/wGv9tn

Os jornais reacionários estão cheios dessas imagens. Abaixo fazemos um comentário sobre essas questões:

 

Hoje (19/12/2017) a polícia de Hamburgo começou uma caçada em grande escala, que denuncia supostos “criminosos” - que é o termo usado pela justiça da classe burguesa, nós diríamos rebeldes. Essa ação obviamente não se trata de um problema relativo a alguns policiais locais, mas a questão é um dos tópicos decisivos da luta de classes da burguesia no país. A manutenção da ditadura burguesa através da garantia do monopólio absoluto da violência. A parte considerável das lutas contra a cúpula do G-20 para nós e para o inimigo, é a questão de que eles perderam o controle. O uso massivo de mais de 30.000 defensores do imperialismo, armados da cabeça aos pês - que, apesar da jornada de 24h e dos policiais terem sido levados a exaustão - demonstraram a impotência em manter um grupo de pessoas relativamente mal organizado, mas combativo sob controle. Este é o núcleo do problema. Esses dias do início de julho demonstraram a impotência do imperialismo quando o povo se une, se levanta, ousa lutar e ousa vencer. Por causa disso, agora, contas devem ser prestadas. A publicação de imagens de 104 pessoas em situações diferentes com diferentes contextos não tem o objetivo de impor a precisão alemã, mas tem um papel especial dentro da luta entre revolução e contrarrevolução nesse país. Pensamos que esta ação teve, principalmente, cinco objetivos.

 

  1. Disseminar terror no movimento revolucionário na RFA
  2. Dividir os “insurgentes” em manifestantes bons e maus.
  3. Mostrar os órgãos de repressão armados do estado imperialista da RFA como vítimas.
  4. Montar um precedente, com uma lei de linchamento e uma onda de denuncia massiva, que se compara somente ao terceiro Reich.
  5. A serviço de encobrir a profunda crise da burguesia imperialista de RFA, especialmente o escândalo sobre o aniversário do ataque ao mercado de natal de Berlim no Breitscheidplatz e a inabilidade da burguesia alemã de estabelecer um novo governo.

 

Sobre o 1o ponto:

É obvio que o objetivo é: criar terror, disseminar terror. Por que 104 fotos seriam publicadas sem especificar qual é a suspeita prevalente? Seria uma piada ruim acreditar que alguém pegando uma garrafa de um supermercado arrombado receberia a mesma punição de alguém que “jogou pedras pesando de três a quatro quilos na cabeça de um policial”. Mas é exatamente o que está acontecendo. “Tudo é o mesmo”. Correspondendo aqueles que não pensam através de uma posição de classe, se distanciam dos “criminosos realmente violentos” rapidamente. E é assim que a denúncia começa.

E continua. A composição das imagens não é aleatória. É a criação da polícia política. Todos os tipos de pessoas  são tradatas juntas. Na esperança de que aqueles que “forem fracos” - na terminologia dos guerreiros da psicologia do Estado imperialista - denunciem os fortes. Para que? Para mostrar organização. Esse é o problema da reação. Dividir os revolucionários das massas. Esse princípio é aplicável a toda guerra contrarrevolucionaria. Mesmo que não se trate de “condições semelhantes a guerra civil” (aqueles que dizem isso nunca viram uma guerra), a reação utiliza o mesmo método, os guerreiros da psicologia do Estado alemão sabem exatamente que “tangentes devem jogar”.

Punks bêbados, pessoas queimando carros, revolucionários organizados, massas em geral e todo tipo de gente estão sendo tratadas juntas. Então “a esquerda”, se referindo aos partidos, organizações e grupos revisionistas e oportunistas, podem começar a se distanciar. Os lutadores estão sendo divididos em bons e maus. Os “espoliadores” e os “incendiários de carros” e os “manifestantes/ativistas” devem ser postos uns contra os outros. Porque “não pode ser que isso tenha sido uma guerra de classes”. O papel do revisionismo é claro: grupos nacionais alemães como o chamado  Jugendwiderstand (Levante da Juventude, em português) e outros do mesmo tipo se distanciaram das lutas das massas por meses. E isso é para ser levado adiante. Não deverá haver solidariedade com os lutadores. Eles devem ser divididos em rebeldes “corretos” e “incorretos”. Isso só pode ser feito por pequenos burgueses pedantes. Os lutadores enviam uma mensagem diferente. Consideramos mais do que necessário repetir: “não seremos divididos! Somos contra vocês, seu Estado e tudo o que representam!”

Qual deve ser a atitude dos revolucionários? Antes de tudo: não cair no jogo da reação. Manter-se calmo. E: não pôr a cabeça na areia como um avestruz, mas se unir ainda mais com as massas. Apenas aqueles pensando em si mesmos podem entrar em pânico. Apenas aqueles que esqueceram por que as lutas contra o G20 ocorreram podem entrar em pânico. Sim, pessoas se levantaram. Sim, pessoas infringiram as leis burguesas. Pela simples razão de que tudo o que o G20 representa é reação, saqueio, genocídio, guerra e remoção. A luta foi e segue sendo justa.

Isso está ficando mais obvio, quando se assiste aos filmes dos “pobres policiais alemães”. Quantos deles foram queimados vivos até agora? Temos nosso Oury Jalloh, o que vocês têm? Querem falar de vítimas? A reação alemã só e capaz de montar alguns segundos de imagens de um intervalo de uma semana (e não três dias como alguns turistas dizem), o que deveria mostrar que foram vítimas. Devemos ter pena deles? Eles usam armadura, armas de fogo e entram em uma luta para defender o imperialismo alemão. E devemos ter pena deles? Claro. Seus vídeos naturalmente atiçam o ódio da pequena burguesia. O bom sujeito alemão e claro instantaneamente levanta a voz, como quem fica de pé na lama saudando seu imperador [1].

Sobre o 4o ponto. Eles criam um precedente. A denúncia em massa deve ser usada contra os levantamentos populares de agora em diante. Todo o exército de policiais, Verfassungsschützer [2], agências de inteligência, lacaios e polícia secreta em geral não são suficientes para prender alguns ladrões de lojas? Agora uma velha tradição é reintroduzida como nova. A tradição da delação. O vizinho pode novamente dizer: “conheço ele, é um dos vermelhos!” O que talvez fosse desejado pela “alma de povo alemão”. “Sei quem é esse, tenho que denunciar ele. É assim que sirvo meu mestre.” Esta deve ser a melodia, deve ser a “modernidade do século 21”. Delação, traição. A negação de qualquer dignidade humana. Isto é o que é imposto aqui. Quando é possível enforcar na primeira página de cada mídia do país um “assaltante de loja” bêbado, por que não alguém arremessando uma pedra? Ou apenas resistindo a prisão?

Até mesmo a mídia burguesa escreve sobre isso: “essa apresentação de acusados reais ou alegados não tem nada a ver com um pôster de procurado. É um amplo chamado a população para agir como xerife. É um chamado para caçar uma grande variedade de pessoas, cujos atos ou participação em atos não foram completamente solucionados.

Esse tipo de caçada excede muito o que o §131b do procedimento criminal permite. Os investigadores expandem esse parágrafo ao irreconhecível. Eles não fazem distinção entre acusados e não acusados. Essa forma de ridicularização via internet é contra a lei. O fim não justifica os meios. Isso também se aplica aos excessos na cúpula do G20.”

 

  1. A burguesia imperialista da RFA está em uma profunda crise política. Eles nunca tiveram problema em conformar um governo desde a fundação da RFA, o Estado continuador do Terceiro Reich. Eles não podem continuar como antes, sem suportar severas consequências. O foco é colocado agora nos “vandalos esquerdistas/ terroristas esquerdistas”, ao invés do problema de conformar um governo. E, especialmente, a data da coletiva de imprensa dos policiais de Hamburgo é inacreditavelmente bem escolhida com o fiasco e o escândalo associados com o ataque ao mercado de natal em Berlim um ano atrás. Parece ser pura coincidência que isso ocorra no aniversário do mencionado evento como o “Abendblatt” explicou [3].

No momento que o chanceler vai encontrar as vítimas do ataque, essa coletiva de imprensa aparece. Isso significa: a opinião pública deve focar em algo diferente de como o governo de Merkel avançou no chamado ataque em um aspecto depois do outro. Relembremos Lenin, que nos ensina que não existe coincidência na política. Especialmente agora, que estava prestes a cerrar fileiras dos CDU e SPD [4], o estado de Hamburgo, em bom controle do SPD levanta sua voz.

 

Então, O que Fazer?

A coisa mais importante é: ninguém deve entrar em pânico. A razão da ação da polícia é: a) impor medo nas pessoas, para que acreditem que a forma mais fácil é entregar-se para a polícia. b) que as pessoas entrem em pânico e comecem a ligar para amigos, mandar e-mails, textos ou mensagens de WhatsApp. O que mostra como funciona o sistema. Quer dizer, isso é exatamente o que não se deve fazer. Se os policiais tivessem um processo, não começariam esse tipo de caçada. Eles já teriam arrombado portas de apartamentos. Os policiais não têm nada. Por isso fazem isso. O que eles querem, em primeiro lugar, é que as pessoas se entreguem e ainda comecem a falar. E, nesse caso, a famosa frase dos shows de TV ianque “tudo o que disser pode e será usado contra você” não se aplica, mas só uma coisa: “tudo o que disser será usado contra você e seus companheiros!”. Cada um que acredite estar falando apenas sobre si, não só tem uma delação contra si mesmo, mas contra todo o resto. Todos que forem levados ao tribunal pelas lutas contra o G20 não estarão lá por causa de sua personalidade. Estarão lá por que se opõe a esse Estado. E serão tradados de acordo.

A primeira coisa, repetimos: todos devem manter a cabeça fria. Além disso, é claro que todo revolucionário deve sempre tomar medidas gerais. Quer dizer, não permitir que nada que possa estar conectado com uma luta revolucionária, sejam notas, materiais, etc. caia nas mãos do inimigo de classe. Bons conselhos também são encontrados online. Recomendamos ler alguns textos (pdf para download).

Chegando ao fim, pensamos ser importante enfatizar que essa grande caçada do Estado imperialista alemão é uma coisa em particular: uma expressão de sua fraqueza. De sua derrota humilhante em julho de 2017. Eles pensam que podem caçar pessoas. Que podem ter vingança. Mas temos um entendimento diferente. Como sabemos, no fim, venceremos.

 

1 Der Untertan”, Heinrich Mann.  Um dos melhores romances sobre o “carater nacional alemao”.

2 Verfassungsschutz (defensores da constituição, em português), Polícia política alemã.

3 “Abendblatt”, jornal diário do monopólio de imprensa alemão em Hamburgo.

4 SPD e CDU, partidos eleitoreiros alemães.

 

 
 

 

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