Maranhão: Encontro estadual de camponeses ocorre em Santa Maria

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Contando com mais de 100 ativistas representando cada um dos 21 municípios com atuação do Fórum e Redes e de Cidadania (FeR), o VII Encontro Estadual dos FeR teve início no dia 27 de dezembro de 2017, na comunidade de Santa Maria, no Maranhão. Publicamos adaptação do relatório pessoal escrito pelo ativista e estudante universitário Daniel Moreno e revisado por Jorge Moreno, dado que representa o avanço da luta pela terra no estado do Maranhão.


Chamamos à frente representantes das organizações populares da comunidade de Santa Maria: da Horta Coletiva, da Roça Comunitária, da Cantina Popular, da Organização das Mulheres, da Organização das Crianças e de Jovens, da Associação de Moradores de Santa Maria 1 e 2, do Núcleo de Cultura, da Alfabetização Popular, da Escola Popular Sebastião Zulima – Além do Advogado Popular Iriomar Teixeira; o Relator de Direitos Humanos e juiz Jorge Moreno; o Doutor Popular dos FeR Zé Simão e o lendário líder sindical e quilombola Justo Evangelista, hoje com 83 anos. Nossas bandeiras foram postas na frente do barracão e cada um dos presentes na frente receberam os militantes vindos de fora e acolhendo em sua comunidade.

A Horta está verde e linda. Cebola, coentro, pimenta, couve, cheiro-verde, quiabo e outros vegetais estão sendo plantados e colhidos pelos homens e mulheres da comunidade. Tudo irrigado por um poço, também construído em comunidade.

A Roça comunitária vai bem – com um quadro de 40 linhas, e outro com 50 linhas, já se planeja uma grande colheita para o ano seguinte. Planta-se arroz, feijão, maniva e milho. Também em rama, se planta abóbora, melancia, fava, melão; e o feijão-do-pé de-milho, que cresce se enrolando no milho.

O representante da Roça avisou que os roceiros estão sendo intimidados pelos latifundiários: encontraram várias cruzes postas no caminho da roça, como se ameaçando a morte. O tiro, todavia, saiu pela culatra: “se botarem dez cruzes na roça da comunidade, vamos botar vinte na deles!”.

'Justiça vamos conquistar; a história não falha, nós vamos ganhar!'

A roça também sofre ameaça da juíza da comarca de Urbano Santos, que tenta de todas as formas despejar a comunidade em favor do “Gaúcho”, grileiro que se diz dono da terra. Todos sabem dos métodos fraudulentos do dito-cujo: a anos atrás, mandou gente em seu nome para colher assinaturas da população da cidade. Grande parte dos lavradores e donas-de-casa da comunidade, analfabetos ou semianalfabetos, foram coagidos a assinar documentos que mais tarde ele usaria para “justificar” a posse de sua terra.

No dia 8 desse mês, foi feito uma marcha no município de Urbano Santos contra as decisões da “justiça” de criminalizar o povo que trabalha em ações fraudulentas à favor do Gaúcho. A marcha cruzou a cidade, passando em frente à prefeitura, no TRE e desembocando no fórum, para ir de encontro com a juíza... Que não estava lá! No fim, queimamos, como costumeiro, uma cópia de sua declaração de despejo. Para nós, vale quase nada.

Marcha rechaça tentativa do judiciário do velho Estado de despejar camponeses

Alfabetização popular

Os trabalhos de alfabetização popular também foram relatados como sucesso. Vários adultos já estão exercitando leitura e escrita; alguns destes, de tanto entusiasmo, foram em cartório tirar novamente seus documentos, dessa vez assinando o nome ao invés de usar a digital. Um companheiro da comunidade puxou uma toada de boi em comemoração:

Eu não 'seio' ler
Eu não 'seio' ler
Mas esse ano eu vim aprender

O mundo ficou que nem balança
Pra pesar vingança
De quem merecer

Cantina Popular

A Cantina Popular prospera e traz comida e mantimentos baratos e de qualidade para o povo. O objetivo é acabar com o monopólio dos mercadores locais, que estabelecem preços arbitrários a bel-prazer, subjugando as comunidades à sua vontade. Dessa forma, os militantes organizam redes de compra e circulação de mercadorias das cidades para os campos – e também trazendo colheitas e feitios de outras comunidades onde as cantinas existem, como no Cassó – alterando o preço no mínimo e reinvestindo o lucro para que os trabalhos permaneçam sendo autossustentáveis.

No último censo feito, os preços da Cantina Popular estão saindo ainda mais barato que nos supermercados da capital.

O heroismo de um bravo camponês

Depois da apresentação feita pelo advogado Iriomar Teixeira e o juiz Jorge Moreno, foi dada a fala ao grande companheiro Justo Evangelista, herói do povo. Apesar de seus oitenta e três anos, doente de câncer e impedimento da rótula, estava contente e animado para conversar sobre sua história.

Líder quilombola e sindical, foi o primeiro vereador negro do Maranhão e um “cabra marcado pra morrer”, em sua época. Escondido de igreja em igreja, com ajuda de padres engajados na luta por terra, em especial Dom Xavier, corria pelo Maranhão inteiro fugindo de pistoleiros e jagunços. Nunca arredou o pé, todavia. Quando um latifundiário exigiu despejo de uma comunidade e do cemitério próximo a ela; onde estavam enterrados vários mortos da Guerra do Paraguai, principalmente negros; o próprio Justo organizou e convocou em armas a comunidade para emboscar os jagunços derrubando árvores à frente e atrás, o que fizeram com sucesso. Capturados, os pistoleiros foram postos nus e abandonados longe de lá. Essa foi apenas uma das várias histórias que ele nos contou durante os três dias que passou conosco.

Quando o juiz Jorge Moreno o conheceu tinha apenas 17 anos de idade e foi na surdina para uma reunião de comunidade onde Justo estava, dando as diretrizes de ação da comunidade, mesmo estando sendo perseguido por pistoleiros.

Feliz e emocionado de estar sendo lembrado por sua história de luta, disse que já não sentia mais nenhuma dor em seu corpo, e que podia agora morrer feliz. Mal sabia que a sua homenagem mal tinha começado.

No dia seguinte, os Fóruns e Redes, sob decisão conjunta e voto popular, decidiu conceder a Justo Evangelista o título de Doutor Popular – aquele que, mesmo não tendo educação formal e à vezes nem alfabetização, formou-se na escola do trabalho e da vida comunitária e esse conhecimento e sabedoria vale mais que mil títulos oficiais. Outros homenageados com o título são Dr. Pop. Luiz Vila Nova, Zé Simão e Sebastião Zulima. Com suas falas aprendemos, as suas histórias estudamos e à seu exemplo nos formamos.

Uma das histórias contadas pelo Seu Justo diz relação a um parente de sua esposa, conhecido por sempre entrar em briga nas festas, que gostava de duelar faca com os outros. Todos sabiam seu truque pra sempre vencer, mas quem aceitava o desafio sempre acabava furado. Justo explicou o que era: o sujeito era canhoto e sempre colocava a faca na cintura, às costas. Quando ia brigar, a mão direita segurava a bainha e a esquerda segurava a faca. O duelista desviava da bainha, pensando que era a faca, e caía no golpe da faca, que estava na mão esquerda. Seu Justo usou dessa analogia pra explicar: “A lei é a bainha, é com ela que assustamos, mas sabemos que não é ela que vai resolver o duelo; é a nossa organização que é a faca – ela que dará o golpe verdadeiro no inimigo”. Logo essa sabedoria se tornou uma frase de ordem, que foi cantada várias vezes nos momentos seguintes.

Balanço

Num balanço geral desses dias do VII Encontro, temos um clima geral de vitória - nenhum dos compromissos foram deixados de serem cumpridos. Mais que isso, recebemos, com entusiasmo, bem mais que o esperado. E é essa uma característica vital de nosso povo, especialmente o camponês: entusiasmo e carinho intensos. Não só fomos recebidos em suas casas e em suas mesas de jantar, mas em abraços apertados; no meio de anedotas e cantorias.

Barracão construído pelos residentes de Santa Maria para receber as delegações de outras regiões do Maranhão

Quando Che Guevara diz: "Sem perder a ternura, jamais"; mais que qualquer coisa, ele faz uma proposição de caráter geral aos revolucionários, em especial aos da América Latina. Se antes de tudo, um revolucionário deve ser um com o povo, em nosso estado e em nosso país isso significa sobretudo ser terno e carinhoso como nosso povo é.

A ainda existência de ternura e sensibilidade tão intensas entre as camadas mais violentadas pela luta de classes é não só um relato da força de resistência das massas; mas também de que estas, compostas de raízes ameríndias, africanas e mamelucas, desenvolveram com a história seus próprios métodos ímpares para manutenção de sua existência comunitária.

Devemos compreender profundamente como corresponder ao entusiasmo de nosso povo, para que, além de nos tornarmos simplesmente mais carismáticos, tratemos de fazer dessa correspondência uma das bases sobre a qual se formará um Novo Homem, enfaticamente brasileiro e profundamente socialista.

Mais que qualquer outra coisa, foi a confirmação disso que a militância no movimento camponês me confirmou.

Então, antes de mais nada...

VIVA O VII ENCONTRO DOS FeR!
VIVA A COMUNIDADE DE SANTA MARIA!
VIVA A INCANSÁVEL LUTA POR TERRA!
VIVA TODOS OS HERÓIS DO POVO!
... E a nosso povo, QUE VIVA PLENAMENTE!

Carinhosamente, Daniel Moreno; estudante universitário.

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