Estudo revela o grau de intoxicação por agrotóxicos no Brasil

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O veneno está na mesa

mais de 25 mil casos de intoxicação por agrotóxicos foram notificados entre 2007-2014, revela estudo


Vinicius Alves

O estudo Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, de autoria da pesquisadora do Laboratório de Geografia Agrária da Universidade de São Paulo (USP), Larissa Mies Bombardi, traz importantes informações sobre o grau de contaminação das lavouras, recursos hídricos e da população pelo uso intensivo de agrotóxicos no país.

 

A intoxicação por agrotóxico de uso agrícola por região e estado

Segundo o documento, entre 2007 e 2014, foram notificados ao Ministério da Saúde 25.106 mil casos de intoxicações por agrotóxicos de uso agrícola, uma média de 3.125 casos por ano e de oito intoxicações diárias.

De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para cada caso de intoxicação notificada estima-se que outros 50 não são notificados, uma subnotificação da ordem de 1 para 50 (1:50). Por exemplo, o estado do Mato Grosso é aquele em que há maior utilização de agrotóxico no país, mas não se encontra entre as unidades da federação com maior número de notificações.

Desde 2015, o velho Estado não publica os casos de intoxicação, o que dificulta o reconhecimento e o estudo de casos de vítimas intoxicadas por agrotóxicos, seja em situações de trabalho, seja em casos de pessoas que residem em áreas de pulverização. 

A intoxicação por agrotóxicos inicia-se com os camponeses e demais trabalhadores rurais, que são contaminados durante o trabalho, seja aplicando os venenos ou sofrendo os efeitos desta aplicação, até chegar nos consumidores finais, contaminados no consumo de alimentos com alto grau de toxicidade.

Um conjunto de estudos têm demonstrado que o uso intensivo de agrotóxicos na agropecuária do país está relacionado a uma série de impactos ambientais e sociais negativos, como a contaminação dos ecossistemas, intoxicações, doenças crônicas, malformações congênitas e tentativas de suicídio.

A região Sul é a que apresenta o maior número de notificações de pessoas intoxicadas por agrotóxicos de uso agrícola entre 2007-2014, com 5.547 casos, seguido do Sudeste (5.473), Nordeste (4.005), Centro-Oeste (1.785) e Norte (859).

Quando se verifica a intoxicação por estado segundo os dados oficiais, o estado com o maior número de pessoas intoxicadas é o Paraná, com 3.723 casos. Minas Gerais (2.186 pessoas intoxicadas), São Paulo (2.055), Pernambuco (1.545), Santa Catarina (1.323), Ceará (1.086), Espírito Santo (1.066), Goiás (893), Bahia (722), Mato Grosso (513), Rio Grande do Sul (501) e Mato Grosso do Sul (324) completam a lista dos estados com o maior número de pessoas contaminados por agrotóxicos.

O estado do Rio de Janeiro apresentou 166 pessoas intoxicadas por agrotóxicos. Os municípios que apresentaram o maior grau de contaminação da população foram Natividade, Porciúncula, Sumidouro, São José do Vale do Rio Preto e Quatis.

 

O agrotóxico mata

A intoxicação por agrotóxicos de uso agrícola contribuiu para a morte de ao menos 1.186 pessoas no país, entre 2007 e 2014, uma média de 148 mortes por ano e uma morte a cada dois dias e meio.

O estado do Paraná é o que apresenta o maior número de mortes, com 231 óbitos, seguido de Pernambuco (151), São Paulo, Minas Gerais e Ceará, todos os três com 83 mortes, Santa Catarina com 51 e Goiás com 20.

O agrotóxico foi utilizado em 9.584 casos de tentativa de suicídio no país, entre 2007 e 2014. O estado do Paraná foi o que apresentou o maior número de tentativas, com 1.631 casos, sendo seguido de Pernambuco (1.145), Ceará (861), Goiás (315) e Mato Grosso (83).

 

A intoxicação no trabalho por agrotóxico

Entre 2007 e 2014, ao menos 10.912 casos de intoxicação por agrotóxico ocorreram no trabalho. Os estados com o maior número de trabalhadores intoxicados foram o Paraná, com 1.432 casos, sendo seguido de São Paulo (778), Santa Catarina (676), Rio Grande do Sul (268) e Ceará (75).

 

O grau de intoxicação entre mulheres e homens

Na maioria dos estados, o número de homens intoxicados por agrotóxicos é maior do que o número de mulheres, sendo as exceções Amapá e Roraima.

Os estados com o maior número de mulheres intoxicadas por agrotóxicos no país, entre 2007 e 2014, foram o Paraná com 1.076 mulheres intoxicadas, depois São Paulo (580), Santa Catarina (389), Bahia (284) e Mato Grosso do Sul (80).

 

A intoxicação por agrotóxico segundo a faixa etária

Entre 2007 e 2014, 343 bebês de zero a doze meses foram intoxicadas por agrotóxicos, uma média de 42 bebês por ano. Ao se levar em consideração a subnotificação já apontada acima, o número de bebês intoxicados pode ter chegado a 17 mil. Os estados com o maior número de bebês intoxicados foram o Paraná, com 41 casos, sendo seguido de Minas Gerais (35), Pernambuco (28), Ceará (15) e Tocantins (8).

Ao menos 2.181 crianças de zero a quatorze anos foram intoxicadas por agrotóxicos nesse período. O número de crianças intoxicadas foi maior no estado do Paraná, com 327 casos, sendo seguido por Pernambuco (212), Minas Gerais (164), Espírito Santo (99) e Rondônia (44).

 

A intoxicação por agrotóxico segundo o grupo étnico-racial

A pesquisadora dividiu a população brasileira em quatro grupos – a saber: brancos, indígenas, negros e orientais – para verificar o grau de intoxicação por agrotóxico em cada um desses grupos.

Os estados com o maior número de indígenas intoxicados por agrotóxicos foram Santa Catarina, com 27 casos. Paraná (17), Mato Grosso do Sul (12), Minas Gerais (7) e Espírito Santo (4) completam a lista.

 

Uso de agrotóxicos por região e estado

O Centro-Oeste foi a região que mais utilizou agrotóxicos de uso agrícola no período de 2012-2014, com uma média de 16,14 kg/ha [1] sendo seguido pelo Sul (9,81), Sudeste (8,63), Nordeste (3,61) e Norte (2,41). Por estado, o “campeão” no uso de agrotóxicos é o Mato Grosso, seguido por São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo.

Ao se verificar o número de estabelecimentos que utilizam agrotóxicos no mesmo período, a primeira posição é a da região Sul, com 632.756 estabelecimentos (62,89% do total dos estabelecimentos), com o Nordeste em segundo, com 525.166 estabelecimentos (21,40%), depois Sudeste com 261.932 estabelecimentos (28,41%), Norte com 70.160 estabelecimentos (14,70%) e Centro-Oeste com 63.432 estabelecimentos (19,98%).

Os estados com maior número de estabelecimentos que aplicam agrotóxicos são o Rio Grande do Sul com 285.834 estabelecimentos, sendo seguido por Paraná (217.151), Bahia (107.081), Paraíba (56.191) e Pará (20.334).

O atlas apresenta uma série de mapas com a quantidade de uso de agrotóxico utilizada e o número de estabelecimentos que utilizam agrotóxico para cada estado e para o Distrito Federal, além de demonstrar os municípios que mais aplicam agrotóxicos em cada unidade da federação.

 

Os agrotóxicos liberados no país

No país, 504 agrotóxicos são atualmente permitidos, sendo que 30% destes são proibidos na União Europeia (UE).

Dos 35 agrotóxicos voltados para o cultivo de soja utilizados no Brasil, 26 deles são proibidos na UE. No cultivo de milho são utilizados 32, sendo 26 proibidos na UE. No café são empregados 30 substâncias, sendo 22 proibidas na UE. Na cana-de-açúcar são utilizados 25 agrotóxicos, sendo 20 deles proibidos na UE.

 

Mapa da contaminação por agrotóxico

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Nota:

[1] Relação entre a média anual do uso de agrotóxico, em quilograma (kg), e a área agrícola da região, em hectare (ha).

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