Graciliano Ramos: escritor e homem de partido

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                                 Reproduzimos a seguir série completa sobre Graciliano Ramos escrita por Igor Mendes e publicada nas edições de AND 204, 205, 206, 207 e 208. Ver em PDF.


Graciliano Ramos: escritor e homem de partido

AUTORRETRATO AOS 56 ANOS

Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas.
Casado duas vezes, tem sete filhos.
Altura 1,75.
Sapato n°41
Colarinho n°39.
Prefere não andar.
Não gosta de vizinhos.
Detesta rádio, telefone e campainhas.
Tem horror às pessoas que falam alto.
Usa óculos. Meio calvo.
Não tem preferência por nenhuma comida.
Não gosta de frutas nem de doces.
Indiferente à música.
Sua leitura predileta: a Bíblia.
Escreveu Caetés com 34 anos de idade.
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados.
Gosta de beber aguardente.
É ateu. 
Indiferente à Academia.
Odeia a burguesia.
Adora crianças.
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.
Gosta de palavrões escritos e falados.
Deseja a morte do capitalismo.
Escreveu seus livros pela manhã.
Fuma cigarros Selma (três maços por dia).
É inspetor de ensino, trabalha no "Correio da Manhã".
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo.
Só tem cinco ternos de roupa, estragados.
Refaz seus romances várias vezes.
Esteve preso duas vezes.
É-lhe indiferente estar preso ou solto.
Escreve à mão.
Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio.
Tem poucas dívidas.
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas.
Espera morrer com 57 anos.

INTRODUÇÃO

O jeito é o homem, como se diz. Temos, neste "Autorretrato", a figura exata do escritor seco, sarcástico, impiedoso, cuja pena não ameniza essas características nem ao falar de si mesmo. Este homem, Graciliano Ramos, é o nosso grande escritor, depois de Machado de Assis. Da sua lavra nasceram obras imortais da literatura brasileira, obras que souberam arrancar, com seu "realismo sóbrio"1, todas as máscaras das velhas e persistentes relações de opressão em que se via (e ainda se vê) mergulhado o nosso povo. Pelo menos duas delas - Vidas Secas e Memórias do Cárcere -, conjugam, em rara correspondência, o libelo implacável contra a ordem vigente com um assombroso valor estético, constituindo-se, por isso mesmo, como um passo a frente na cadeia geral do progresso da literatura mundial.

Por que escrever sobre Graciliano Ramos? Em primeiro lugar, porque, de toda uma geração que mudou a fisionomia do romance brasileiro – o chamado romance social nordestino das décadas de 1930 e 1940 – ele foi o nome mais destacado, que bebeu nas fontes comuns dos demais, mas se sobressaiu sobre eles2. Em segundo lugar, porque, nos meios literários, Graciliano é aclamado com uma copiosa bibliografia, que exalta o valor estético indiscutível dos seus escritos, mas silencia, quando não, nega, o seu espírito revolucionário. Aceitam, um tanto hipocritamente, a obra, mas não a fornalha em que foi feita, talvez por considerarem inadmissível que o maior nome das nossas letras no século XX tenha sido comunista3.

Ainda antes da passagem pela cadeia (1936) e do ingresso no Partido Comunista do Brasil (1945), já era homem de princípios rígidos, alheio às "igrejinhas" e aos intelectuais que se prestam a trabalhar como espadachins a soldo das classes dominantes. Todas as suas obras de ficção, que são dos anos 1930 (anteriores, portanto, ao ingresso no PCB), carregam já a marca indelével, em forma e conteúdo, desta sua profunda identidade com as massas populares, fonte autêntica do gigantismo de sua obra. Esta sua posição e atuação na luta de classes, como literato e homem de partido, é o objeto principal destes artigos que entregaremos ao longo das próximas edições de AND. Não há aqui, portanto, nenhuma pretensão de fazer uma crítica literária do seu romance, tarefa que exigiria estudos extensos e cuidadosos.

Em carta a uma jovem escritora, já no fim da vida, dizia Graciliano, em tom de conselho e desabafo: "Só conseguimos deitar no papel os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. Além disso, não há nada"4. Inseparável, portanto, o processo criativo da participação na vida e na luta do povo. Esta participação não enfraquece - como querem alguns -, senão que fortalece a criação artística, porque é a base mesma sobre a qual repousa um dos seus pilares, a verossimilhança. Como retratar convincentemente o que não se viveu? Impossível, diz-nos o Velho Graça.

*

A literatura "graciliânica" é sóbria, complexa, densa. Em vida, seus livros vendiam menos do que os de outros romancistas nordestinos, como José Lins do Rego e Jorge Amado. Graciliano, na verdade, nunca pôde se dedicar exclusivamente à confecção de seus romances, trabalhando em diversos empregos simultâneos, passando frequentes privações, como veremos adiante. Foi apenas após a morte que sua obra atingiu consagração definitiva, despertando interesse renovado com o passar dos anos, experimentando adaptações para o teatro e o cinema. Esta longevidade explica-se: sua literatura não desenha heróis infalíveis, nem grandes aventuras, mas a epopeia cotidiana de homens e mulheres comuns. A ambição e os tormentos que assolam Paulo Honório; os ciúmes, recalques, revolta e loucura de um Luís da Silva; os sentimentos do bruto vaqueiro Fabiano, que muito pensa e pouco fala; os sonhos da cachorra Baleia, quase tão humana quanto seus donos animalizados pela miséria... Que galeria! Ele captou, como nenhum outro em seu tempo, a essência da vida social, a psicologia e a linguagem das massas. Por outro lado, as bases semicoloniais e semifeudais de nossa sociedade, que denunciou em seus romances, a miséria, a iniquidade e a opressão seguem atormentando o povo brasileiro, outra razão da atualidade da sua literatura.

Uma das acusações mais comuns que sofre é chamarem-no pessimista. Como conciliar esta opinião com a sua notória condição de comunista? Numa carta a Heloísa, sua mulher, da época em que escrevia Vidas Secas, temos uma indicação desse "pessimismo":

"Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil, como você vê... O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos. A diferença é que eu quero que eles apareçam antes do sono, e padre Zé Leite pretende que eles nos venham em sonhos, mas no fundo todos somos como a minha Baleia e esperamos preás." (Grifo meu).

Ora, como a cachorra sacrificada pelo vaqueiro, Graciliano também almeja um mundo em que as asperezas e mazelas da vida sejam substituídas por uma ordem nova. Contudo, os padres e demagogos de plantão pretendem que isso se faça num sonho. Os revolucionários trabalham para que isso se faça em vida ainda, em plena luz do dia, e é disso que nos fala o grande escritor nesta carta tão significativa. Se muitas vezes sua literatura é amarga, não é por outra razão, senão porque amarga é a realidade da qual ela nos fala. Embelezá-la é que seria faltar ao compromisso com a nossa gente.


Um cinturão*

GRACILIANO RAMOS

As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.

(...)

Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se a minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras. Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes.

(...)

Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação. Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.

Onde estava o cinturão? Impossível responder. (...) O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira.

Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro.

Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.

Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote. A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que gogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo.

Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava, começava a aprendizagem dolorosa (...). O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível.

Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.

Pareceu-me que a figura imponente minguava – e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou (...).

Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.

*Um dos contos que compõem o livro de memórias Infância, publicado em 1945.


Notas:

1 - Expressão de Lênin, que via o “realismo sóbrio, o arrancar de toda a espécie de máscaras” como uma das maiores qualidades do escritor russo L. Tolstoi. Ver “Lev Tolstoi como Espelho da Revolução Russa”. Penso que este não é o único ponto de contato entre ambos.

2 - Graciliano aponta duas causas para esta inflexão na literatura brasileira, a partir de 1930: o Modernismo e a Revolução de Outubro, os quais, segundo ele, "abriram caminhos, cortaram diversas amarras, exibiram coisas que não enxergávamos". Ver "Decadência do romance brasileiro".

3 - Sobre isto, seu filho Ricardo pontuou: "O que não podemos ignorar é que a febre da pesquisa, ao longo de anos e anos, minuciosa a desenterrar crônicas, poesias, toda a obra juvenil ou imatura de Graciliano, alcançando mesmo pseudônimos para nós secretos, haja unanimemente desprezado as suas ostensivas publicações políticas. Os comentários aqui são dispensáveis". Ver: Graciliano Ramos, "Garranchos".

4 - Carta a Marili Ramos, na compilação "Cartas".

Graciliano Ramos: o ciclo ficcional

“Os dados biográficos é que não posso arranjar, porque não tenho biografia. Nunca fui literato, até pouco tempo vivia na roça e negociava. Por infelicidade virei prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatórios que me desgraçaram. (...) Houve uma série de desastres: mudanças, intrigas, cargos públicos, hospital, coisas piores e três romances fabricados em situações horríveis – Caetés, publicado em 1934, S. Bernardo em 1934, e Angústia em 1936. Evidentemente isso não dá para uma biografia. Que hei de fazer? Eu devia enfeitar-me com algumas mentiras, mas talvez seja melhor deixá-las para romances”. 

OS ANOS DE FORMAÇÃO

Quando tinha dez anos, Graciliano foi iniciado na literatura pelo tabelião Jerônimo Barreto, um sertanejo que contava histórias de Robespierre e tinha muitos livros em casa. Suas primeiras crônicas apareceram em 1915 (nessa época morava no Rio de Janeiro), nos jornais Parayba do Sul e Jornal de Alagoas. Obrigado a retornar para Palmeira dos Índios (AL), devido a uma tragédia familiar (perdeu três irmãs vitimadas por um surto de peste bubônica), colaborou, no princípio dos anos de 1920, no jornal local Os Índios. Entre o fim da década de 1920 e início da década de 1930 desempenhou diferentes funções públicas em Alagoas: diretor da Junta Escolar de Palmeira dos Índios em 1926, prefeito da mesma cidade entre 1927-1930, diretor da Imprensa Oficial de Alagoas entre 1930 e 1931 e diretor da Instrução Pública de Alagoas entre 1933 e 1936. Somente o primeiro cargo foi cumprido sem maiores sobressaltos: dos demais, ou renunciou ou foi exonerado, por chocar, com suas medidas e posicionamentos, alguns interesses das oligarquias locais. Graciliano foi, realmente, uma figura sui generis a frente destas instituições.

Dois exemplos: como responsável pela instrução pública, suprimiu o canto do Hino de Alagoas nas escolas, por “emburrar os alunos”; determinou o fornecimento de uniformes e sapatos às crianças; instituiu a merenda escolar (isso só se tornaria lei federal vinte anos depois); efetivou as professoras rurais, equiparando-as às filhas de famílias abastadas que lecionavam na capital. Antes disso, como prefeito, desafiou os interesses dos latifundiários locais ao questionar os seus métodos brutais de roubos de terras. Em relatório ao governo do estado de Alagoas sobre as atividades da prefeitura, entre 1928-1930, dizia: “Se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcar-me”.

Não só pelo conteúdo, mas pela forma literária, estes relatórios causaram sensação e foram publicados pela imprensa. Nesta época Graciliano já trabalhava em seu primeiro romance, Caetés, que tem como pano de fundo as querelas e o ambiente opressivo de cidade pequena, como a Palmeira dos Índios de seu tempo. Lançado em 1934, este livro seguro, sério, apenas indicava o autor que, nos anos seguintes, revolucionaria a literatura brasileira, publicando uma sequência quase inacreditável de obras-primas, enquanto a sua própria vida virava pelo avesso.

O CICLO FICCIONAL

Graciliano escreveu São Bernardo na torre de uma igreja vazia, durante a convalescença de complicada cirurgia na barriga, em época de desemprego. É a história de Paulo Honório, um “cabra criado no eito”, alfabetizado na cadeia, obcecado por tornar-se um grande proprietário. Quando consegue apropriar-se das terras de São Bernardo, casa-se com Madalena, uma professora de ideias progressistas, que se recusa a ser apenas mais uma das propriedades do marido. Disso, nascem ciúmes, tormentos e, por fim, a desestabilização completa do aparentemente inabalável protagonista. Como pano de fundo daqueles conflitos, a formação do latifúndio pela subjugação ilimitada da massa camponesa, que vive sob um despótico sistema de opressão semifeudal. Nas suas terras, Paulo Honório é prefeito, juiz, chefe de polícia e padrinho.

A linguagem de São Bernardo é concisa e extraordinariamente viva. Lendo-o, acreditamos mesmo que tenha sido Paulo Honório quem o escreveu. Sobre o processo criativo desta obra, disse Graciliano:

“O S. Bernardo está pronto, mas foi escrito quase todo em português, como você viu. Agora está sendo traduzido para o brasileiro, um brasileiro encrencado, muito diferente desse que aparece nos livros da gente da cidade, um brasileiro de matuto, com uma quantidade enorme de expressões inéditas, belezas que eu mesmo nem suspeitava que existissem. (...) O velho Sebastião, Otávio, Chico e José Leite me servem de dicionários.”1.

Aqui já aparece uma crítica que Graciliano faria repetidas vezes aos autores da cidade: estes buscavam emprestar aos seus personagens do campo uma linguagem que lhes era estranha, postiça, enfraquecendo a sua ficção. Qual a fonte viva da linguagem popular, afinal? As próprias massas, apontadas nesta carta como “dicionários de brasileiro”. Isso não significa menosprezo à norma culta da língua, que Graciliano dominava solidamente, mas o seu enriquecimento pela experiência direta junto ao povo.

*

No atribulado ano de 1936 apareceria o livro Angústia, publicado durante a prisão do seu autor. Nise da Silveira e Eneida de Morais, companheiras de cárcere, organizaram uma pequena cerimônia de lançamento na enfermaria do presídio, junto a Heloísa Ramos, esposa de Graciliano.

Segundo Nelson Werneck Sodré, trata-se de “um romance difícil e denso, livro importante em nossa história literária, profundo, sério”2. A história articula-se em torno de três personagens: Luís da Silva, o protagonista-narrador, filho de uma família de senhores de terras decadentes que exerce funções públicas modestas na cidade; Marina, uma mulher jovem, cheia de sonhos, sua vizinha e futura noiva; Julião Tavares, sujeito rico, “reacionário e católico”, que atravessa o romance de Luís da Silva, seduz Marina, engravida-a e depois abandona-a. Na aparência, uma estória simples, com temática tantas vezes abordada; na essência, um livro excepcional, que sobre base tão singela tece duras críticas à ordem vigente, contando várias estórias simultaneamente. Aparecem referências explícitas ao golpe de 1930, à repressão política então desatada, como neste trecho, narrado pelo protagonista:

“Muitos crimes depois da revolução de 30. Valeria a pena escrever isto? Impossível, porque eu trabalhava em jornal do governo. Moisés se tinha ausentado: a polícia incomodava os rapazes que liam livros suspeitos e falavam baixo.”.

Em outros trechos, a carestia de vida, a intelectualidade corrompida. A condição feminina também se destaca, como um dos fios condutores do romance. No final, Luís da Silva mata Julião Tavares, enforcado, o que não poderia ser mais significativo. Conta-se que Sobral Pinto, advogado dos presos políticos, teria dito a Graciliano durante uma visita na cadeia: “Com as leis que fizeram por aí, os seus romances dariam para condená-lo”. Angústia é mesmo um livro que, desde o título até a última página, recria o pesado ambiente do período marcado, no plano interno, pela repressão feroz que se seguiu ao Levante Popular de 1935 e, no plano externo, pela ascensão do fascismo. Esta preocupação com as grandes questões do seu tempo, fonte também de inspiração, aparece em carta a Heloísa:

“O meu Estado está pegando fogo, o Brasil se esculhamba, o mundo vai para uma guerra dos mil diabos, muito pior que a de 1914 – e eu só penso nos romances que poderão sair dessa fornalha em que vamos entrar.”.

Pois esta fornalha, e somente ela, poderia gerar obras deste quilate, feitas de “sangue e carne”.

Notas:

1. Ver a compilação “Cartas”.

2. Ver, deste autor, “Em defesa da cultura”, ótima referência para o estudo da literatura brasileira da época.

Vidas Secas: ‘o grande romance sertanejo’

Graciliano Ramos, o ciclo ficcional (continuação)

— Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Sabe como elas fazem?

— Não.

— Elas começam com uma primeira lavada. Molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Depois colocam o anil, ensaboam, e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Depois batem o pano na laje ou na pedra limpa e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer.

Graciliano Ramos, conversa com o jornalista Joel Silveira.

Graciliano Ramos foi libertado da prisão em 13 de janeiro de 1937, após dez meses de encarceramento. Jamais foi interrogado e nenhuma denúncia foi apresentada contra ele. Este foi o caso, aliás, de numerosas pessoas detidas pela todo-poderosa polícia política comandada por Filinto Müller. Conta-se que Vargas, instado a libertar o autor de Angústia, teria dito: “Neste caso de comunismo eu não mandei prender ninguém, mas também não mando soltar ninguém”1. Anos mais tarde, em Memórias do Cárcere, Graciliano diria sobre ele, sarcasticamente: “Era um prisioneiro como nós; puxavam-lhe os cordões e ele se mexia, títere, paisano movido por generais”.

Não nos deteremos sobre este ponto agora. O que importa é notarmos as condições de Graciliano nesta época: desempregado, fichado pela polícia, com família numerosa para sustentar. Ainda preso, decidira-se a não regressar para o Nordeste e viver de literatura. Passaria a compor, como um operário, contos e crônicas para diferentes veículos de imprensa, de resto, nem sempre suficientes para cobrir as parcas necessidades. Escritor consagrado, moraria em pensão modesta no Catete, em companhia de jovens estudantes ou intelectuais em princípio de carreira.  

Instado a participar de um concurso de contos infantis do Ministério da Educação e Cultura (que ganharia com a obra A terra dos meninos pelados), topou com o então Ministro, Gustavo Capanema – um dos próceres do futuro Estado Novo – no elevador do MEC, no dia da inscrição. Registrou assim este episódio em carta a Heloísa: “Zélins (José Lins do Rego) acha excelente a nossa desorganização, que faz que um sujeito esteja na Colônia hoje(Colônia Correcional de Dois Rios, a terrível prisão de Ilha Grande) e fale com ministros amanhã; eu acho ruim a mencionada desorganização, que pode mandar para a Colônia o sujeito que falou com o ministro”2.

Neste período de privações, escreveria, em tempo relativamente curto, o monumental Vidas secas,publicado em 1938. Trabalho inovador pela sua técnica, pois cada capítulo possui independência dentro da obra, constituindo-se como um  “romance desmontável”. Contudo, a totalidade do texto não se perde, firmemente tecida pelas mãos habilidosas do seu autor. Inovação devida, talvez, menos a uma preocupação estética que aos apuros financeiros de Graciliano:

“A conta da pensão e as despesas duplicadas com a vinda da família o obrigariam a escrever os capítulos como se fossem contos. Era um artifício para ganhar dinheiro, publicando-os isoladamente em jornais e revistas, à medida que os produzia. Às vezes, republicaria o mesmo conto, com título alterado, em outros periódicos”3.

Nesta época, a esposa e duas filhas menores dividiam o quarto de pensão com Graciliano. Sobre as condições precaríssimas em que foi escrito este clássico da nossa literatura, contaria sua filha Clara:

“Além da mesa, solidária com o dono, bamba, uma perna apoiada num dicionário, há no quarto mais duas cadeiras, um armário; uma cama, grande, de casal; outra estreita, solteira. (...) Entre a porta e a parede, a mulher e as duas meninas, Graciliano escreve sua novela. Trabalha de preferência de madrugada. Levanta-se por volta das três horas e entra escrevendo manhã adentro. Pela janela, única, intromete-se uma paisagem de gatos num telhado de garagem. Para que “o velho Graça” possa dormir à tarde, Heloísa leva as crianças à praça do Largo do Machado. (...) Mais quatro pessoas enchem então o espaço exíguo: um vaqueiro, sua mulher, dois meninos. Baleia ressuscitou, anda espalhando os gatos num telhado de garagem”4.

Tamanhas eram as suas privações que não tinha sequer dinheiro para pagar a passagem do seu filho Márcio (fruto do primeiro casamento) de Alagoas para o Rio, onde este buscava tratamento psiquiátrico. Diria, em carta cheia de preocupações:

“É possível a sua entrada numa casa de saúde aqui no centro, mediante a contribuição de quatro mil-réis por dia. Mas como você poderá vir? (...) Por enquanto, isto é o mais difícil”5.

Este é o preço que nosso grande escritor pagava para não se vender ao regime vigente. E, também, por tentar viver da sua arte, em país que, ainda hoje (imaginem naquele tempo), não enxerga a literatura como profissão, mas como passatempo de ricos, ou ofício de cortesãos.

Graciliano Ramos e sua condição de revolucionário

A militância no Partido Comunista do Brasil

“O ingresso do maior romancista brasileiro, um dos maiores escritores contemporâneos no PCB é mais uma prova concreta de que não existe divergência entre o conceito individual de liberdade e do trabalho de um romancista com os princípios do Partido Comunista... O romancista que fez a análise em profundidade de tipos e situações sociais da vida brasileira, que escreveu a história do sertanejo na densidade trágica de Vidas secas, caminhava para uma confissão plena e indiscutível, a de que só um Partido Comunista pode lutar contra aquela situação social em que se debate a maior parte dos personagens tão vivamente fixados naqueles romances. Por isto o romancista pede inscrição e é aceito nesse Partido”.

(Jornal Tribuna popular, órgão do Partido Comunista do Brasil, agosto de 1945).

O CULMINAR DE UMA LONGA TRAJETÓRIA

Naquele segundo semestre de 1945, Graciliano saboreou alguns acontecimentos mais felizes que os seus inseparáveis cigarros Selma: no mesmo dia em que ingressou no PCB, com ficha de filiação avalizada pelo próprio Prestes, lançou Infância, obra autobiográfica que constitui verdadeira obra-prima no gênero. Antes, no livro Histórias de Alexandre(1938) já havia incursionado, em parte, no universo memorialístico, ao compilar estórias que compõem o folclore nordestino, muitas delas ouvidas nos seus idos tempos de Quebrangulo e Palmeira dos Índios1

Era uma época de avanço das correntes democráticas e revolucionárias em todo o mundo, após a demolidora vitória da União Soviética, dirigida por Stalin, contra o nazi-fascismo. No Brasil, o Partido Comunista, recentemente saído da ilegalidade, gozava de grande prestígio, não só entre as massas de trabalhadores como entre a intelectualidade progressista. O PCB chegou a ter 200 mil filiados, e nos estádios do Pacaembu (em São Paulo) e São Januário (no Rio de Janeiro) multidões aglomeraram-se para saudar Prestes, saído recentemente da cadeia.

A esposa de Graciliano, Heloísa, e seus filhos Ricardo e Clara filiaram-se ao Partido antes do escritor. Em declaração à Tribuna Popular, o “velho Graça” esclareceu nestes termos a sua demora a decidir-se:

“Quando, em 1936, fui viver no Pavilhão dos Primários, na Sala da Capela, na Colônia Correcional de Dois Rios e em outros lugares semelhantes, encontrei os excelentes companheiros que hoje trabalham no Partido Comunista. Sempre me senti perfeitamente ligado a eles, e se até agora me limitei a apoiá-los, sem tomar posição de militante, foi por não saber se poderia ser útil, nesta agitação em que nos achamos, o trabalho de um sujeito que mal sabe contar histórias chochas”.

“Histórias chochas”, imaginem... Na verdade, a paixão pelo socialismo, parafraseando expressão de Jack London, nasceu muito cedo em Graciliano: há relatos de alunos seus, dos tempos de sertão, sobre o entusiasmo com que acolheu a Revolução de Outubro. Nos difíceis anos de 1930, o escritor manteve-se sempre crítico feroz do regime de Vargas, coincidindo plenamente com a posição do Partido Comunista. Seus filhos mais velhos, Márcio e Júnio, militaram nas Juventudes Comunistas nesta época. Mesmo sem ser filiado, sofreu na pele as consequências da repressão ao Levante Popular de 1935, mantendo na cadeia uma dignidade que alguns militantes de carteirinha não souberam conservar. Nesta época conturbada, escreveu à Heloísa, em bilhete:

“A encrenca política está num beco sem saída: ninguém sabe como esta porcaria vai acabar. É melhor pensar em outra coisa. Enfim, tudo vai muito mal, no pior dos mundos possíveis. É preciso que o Alberto endireite isso”2.

“Alberto” é Alberto Passos Guimarães, então secretário político do Partido Comunista em Alagoas.

Está claro que o ingresso em 1945 teve bases sólidas, muito antigas. Quando o Partido voltar à ilegalidade (fim de 1947) e vários de seus militantes forem perseguidos, outros debandarem, Graciliano poderá demonstrar a firmeza de sua decisão, que sustentará até o fim da vida.

A CISÃO ENTRE OS INTELECTUAIS

As ilusões acerca de um novo período de “paz e democracia” duraram pouco. No plano externo, em março de 1946, Churchill profere o famoso discurso de Fulton, que marca a hostilidade aberta dos “aliados” contra o campo socialista. É o início da “guerra fria”. No plano interno, a consigna do PCB, de “Constituinte com Vargas”, é de fato derrotada, pois Vargas é deposto por golpe militar e substituído pelo ultrarreacionário general Dutra. Este, que havia sido um dos elementos germanófilos do Estado Novo, converteu-se, durante a guerra, em agente ativo do imperialismo ianque. A repressão aos comunistas então recrudesce: primeiro, ideologicamente, logo, com medidas que culminarão, ao fim de 1947, com a cassação dos seus mandatos parlamentares e a decretação da ilegalidade do Partido. A partir daí, o PCB iniciará um processo autocrítico, acerca das ilusões constitucionais3.

Tudo isto não poderia deixar de refletir entre os intelectuais, como separação entre comunistas e progressistas de um lado e meros oportunistas de outro, que abandonaram o “antifascismo” ocasional assim que os ventos mudaram, não raro substituindo-o por feroz anticomunismo. Graciliano Ramos não apenas tomaria posição inequívoca na luta, como seria levado para o centro da polêmica, através da sua atuação na Associação Brasileira de Escritores (ABDE). O que lhe custaria, inclusive, rupturas com amigos de vida inteira, como José Lins do Rego.

Graciliano Ramos: Desaparecimento, reaparecimento, redenção

Os curtos anos compreendidos entre 1945, data de ingresso no PCB, e 1953, quando falece, foram provavelmente os mais intensos da atribulada existência de Graciliano Ramos. Além da atividade político-partidária, a qual se dedicou com paixão – o que se atesta pelos inúmeros discursos, cartas, manifestos, crônicas e campanhas que subscreveu –, o mestre Graça continuava dando duro para sustentar a família numerosa. Acumulava dois empregos: um, como inspetor de ensino, outro, como revisor do jornal “Correio da Manhã”1.

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Neste ambiente de trabalho ininterrupto e grande agitação política, nosso grande escritor tecia, com zelo de artesão, os quatro volumes do seu livro Cadeia – como se chamava, inicialmente, Memórias do cárcere.

AS ‘MEMÓRIAS’

Não era apenas a dura rotina de trabalho e militância que dificultava a redação de Memórias do cárcere. Graciliano passara privações terríveis nas cadeias do Nordeste, do Rio, de Ilha Grande, nos porões de navios-prisão. Vira iniquidades sem par, como a situação de companheiros torturados e as deportações de Olga Benário e Elisa Berger para a Alemanha nazista. Conhecera a degradação nas entranhas do fascismo tupiniquim. Contudo, dado seu comedimento, mesmo pessoas próximas desconheciam o alcance dramático das suas experiências. Ora, escrever sobre elas era, também, revivê-las.

Outra dificuldade vivida pelo autor, confessada logo no início do livro, era falar sobre pessoas reais, viventes de carne e osso. Por vocação, o grande ficcionista recusava os estereótipos e as idealizações fáceis. Descreveria, por isso, lado a lado, os gestos nobres e solidários e a torpeza, a coragem e o medo, os lutadores de todas as horas e os que, acostumados a nadar a crista da onda, não puderam suportar o contra-ataque furioso da reação. Diria:

“Fiz o possível por entender aqueles homens, penetrar-lhes na alma, sentir as suas dores, admirar-lhes a relativa grandeza, enxergar nos seus defeitos a sombra dos meus defeitos. Foram apenas bons propósitos: devo ter-me revelado com frequência egoísta e mesquinho. E esse desabrochar de sentimentos maus era a pior tortura que nos podiam infligir naquele ano terrível.”2.

Na jornada, conviveria com presos comuns, em ambiente de grandes privações. Observador “por índole e por ofício”, estabeleceria contato com aqueles seres do subsolo social, sentiria suas dores, interessar-se-ia pelas suas vidas. Legaria para a história um libelo implacável contra os algozes e as infâmias que presenciou, como neste trecho em que descreve a prisão de Ilha Grande:

“A precisão de um mictório chegou-me forte, levantou-me, dirigiu-me àquele ponto. Já havia me achado ali, pela manhã... mas então o refúgio estava deserto. Agora havia ajuntamento, e o que percebi horrorizou-me. (...) Pendiam do teto alguns chuveiros, quatro ou seis, e junto a uma parede se alinhava igual número de latrinas, sem vasos, buracos apenas, lavados por frequentes descargas rumorosas. Em todas viam-se homens de cócoras, e diante deles estiravam-se filas, esperando a vez, cabisbaixas na humilhação, torcendo-se (...). Caras macilentas, o suor a escorrer nas barbas crescidas; magrém e sujeira, chagas negras medonhas produzidas pela mucurana; fadiga, nudez mal disfarçada em trapos imundos... havia filetes de sangue às margens das latrinas, coágulos de sangue. (...) Afinal, pude esvaziar a bexiga, livrar-me da exposição miserável, tornar ao galpão. Tinha sono, mas não consegui dormir. O frio espicaçava-me, os queixos batiam castanholas.”3

Vargas, que à essa altura aproximava-se do Eixo, seria apresentado em diferentes momentos como um “títere”, “paisano movido por generais”. No trecho em que relata a deportação de Olga e Elisa, Graciliano anota:

“A subserviência das autoridades reles a um despotismo longínquo enchia-me de tristeza e vergonha. Almas de escravos, infames; adulação torpe à ditadura ignóbil.”4.

Aqui, o caráter geralmente sóbrio cede lugar, como se vê, à indignação contra a opressão. Porque o fogo terrível da luta de classes envolvia, e movia também, o preso político Graciliano Ramos.

‘VIAGEM’

Em 1952, Graciliano, então presidente da Associação Brasileira de Escritores (ABDE), interromperia a redação de Cadeia para realizar um sonho antigo: conhecer a União Soviética. As suas notas, escritas às pressas entre uma parada e outra, virariam o livro Viagem.

São inúmeros os livros de intelectuais ocidentais sobre a vida nos países do campo socialista, neste período. Tratava-se de verdadeiro, e necessário, “esforço de guerra”, para contrapor-se à feroz campanha anticomunista desatada pela imprensa capitalista. Jorge Amado lançara, em 1951, o livro O mundo da paz que foi apreendido das livrarias pela polícia. Graciliano não fugiria do seu posto, mas mesmo aí percebe-se uma nítida diferença em relação a outros autores: o observador arguto, cáustico algumas vezes, engraçado outras, nunca superficial, deixaria suas digitais bem marcadas nesta obra. Não são meras impressões ou cifras compiladas: Viagem também é obra de grande valor literário. Numa interessantíssima passagem, diria sobre a aparente uniformidade que presenciou:

“Um ofício não é superior a outro – e os homens tendem a uniformizar-se. Essa ideia choca o nosso individualismo pequeno-burguês: achamos vantagem nas discrepâncias, receamos tornar-nos rebanho. E nem vemos que somos um rebanho heterogêneo, medíocre, dócil ao proprietário.”.

Trata-se, aqui, de um problema de fundo. Na sociedade baseada na exploração, os adornos e vestimentas funcionam como traços distintivos entre as pessoas, o que não acontece no socialismo: aí, o que importa em primeiro plano é o ser humano e a ideologia que o guia – a alma mesmo das gentes, como dizia o Presidente Mao.

GRACILIANO E O REALISMO SOCIALISTA

Dênis de Moraes, biógrafo de Graciliano, sustenta que este jamais aceitou o realismo socialista. Contudo, não encontrei em nenhum de seus escritos afirmação neste sentido, e mesmo Dênis o faz recorrendo a terceiros.

O que parece claro é que Graciliano recusava a cópia mecânica de romances tecidos em condições históricas diversas das nossas. Num juízo que fez, certa vez, sobre Machado de Assis, lançou uma pista sobre a sua própria concepção do papel da literatura e do escritor:

“O que mais me distancia de Machado de Assis é o seu medo de definir-se, a ausência completa de coragem de uma atitude. O escritor tem o dever de refletir a sua época e iluminá-la ao mesmo tempo.”5 (Grifo meu).

Graciliano recusar-se-ia a emprestar à realidade cores que ela não tem, e seria, por isso mesmo, acusado algumas vezes de “pessimista”. O que é completamente injusto, como tenho tentado demonstrar neste breve ensaio. Ocorre que ele jamais seria escritor de panegíricos. Quem lê-lo, deverá se dar ao trabalho de encontrar, entre os econômicos adjetivos, a solidez de suas convicções, como ocorre com a vegetação sertaneja, que esconde, sob aparência inóspita, raízes profundas.

Episódio pouco conhecido foi a elaboração, por Graciliano, de um plano de trabalho interno ao Partido Comunista para formar novos escritores saídos das massas. Em sua opinião, ao orientar os jovens literatos, seria preciso prevenir cinco erros que eles porventura cometessem:

“a) Os erros de caráter doutrinário;

b) Os desvios da linha política do Partido;

c) As tiradas demagógicas, o excesso de pieguices sentimentais, os devaneios ocos, a grosseria de linguagem, o populismo intencional etc;

d) As imperfeições de forma e de fundo;

e) A falsidade na construção dos tipos e situações.”6.

Todo o plano de trabalho, incluindo os critérios de avaliação, constitui uma forma autenticamente proletária de lidar com a literatura e a arte, despindo-a de qualquer misticismo, possibilitando a sua reprodução em massa. E se a preocupação estética faz-se presente, também está assinalada a primazia dos critérios ideológicos e políticos. 

REDENÇÃO

Graciliano desaparecerá em 20 de março de 1953, aos 61 anos, vitimado pelo câncer. Embora os operários de vanguarda e a intelectualidade soubessem o tamanho da sua obra, morrerá sem conhecer a consagração pelo grande público. Para se ter uma ideia, Vidas secas, uma obra que perfila entre as grandes da literatura mundial, demoraria dez anos para esgotar a primeira edição de mil exemplares. Importante destacar que o mesmo se passou com Machado de Assis, reconhecido pelos confrades, mas não pelas massas, à época em que viveu. Por quê? Lênin, falando sobre Tolstoi, que retratou como ninguém a velha Rússia camponesa sem ter sido lido pelos camponeses, pontuou:

“Tolstoi artista é conhecido de uma ínfima minoria, mesmo na Rússia. Para que suas obras grandiosas se tornem efetivamente patrimônio de todos, é necessária a luta, uma luta contra o regime social que condenou milhões e dezenas de milhões de pessoas à ignorância, ao embrutecimento, a um trabalho de forçados e à miséria, é necessária a revolução socialista.”7.

Graciliano encontrou, pois, no velho Brasil semifeudal e semicolonial, ao mesmo tempo, a matéria-prima e os entraves para sua literatura. Esta, no entanto, aumentou com o tempo, e com o tempo atingiu verdadeira redenção. Ele reaparecerá meses depois da sua morte, com Memórias do cárcere, que será o seu primeiro sucesso imediato de vendas: 10 mil exemplares esgotados em 45 dias. Alzira Vargas dirá, anos depois, que no Palácio do Catete o livro foi recebido “com emoção e respeito por todos os seus algozes, conscientes ou inconscientes”8. 

O sertanejo de vida dura e enorme sensibilidade jamais reclamou das dificuldades que enfrentou. Disse uma vez, para um grupo de estudantes:

“Para falar com franqueza, estou longe de agourar aos meus amigos a paz, o cargo bem remunerado, o sono tranquilo, isento de sonhos. Nada ganharíamos com isso. Não espero que sejam felizes: espero que sejam úteis.”9

Graciliano Ramos, escritor, comunista, contador igualmente genial das profundezas do sertão e do mundo novo socialista: foste útil, és muito útil, e creio que, se pudesses, ficarias feliz em sabê-lo.


Notas

1 Ver: Dênis de Moraes, “O velho Graça, uma biografia de Graciliano Ramos”. Segundo o mesmo autor, Graciliano, apesar dos apuros financeiros, recusava-se a escrever artigos para o jornal, por discordar de sua linha editorial burguesa.

2 Ver: Graciliano Ramos, “Memórias do cárcere”.

3 Idem.

4 Idem.

5 Dênis de Moraes, idem.

6 Parte do discurso proferido na célula Teodoro Dreiser do PCB, em 1946. Ver a compilação “Garranchos”, organizada por Thiago Mio Salla.

7 Ver Lênin, “L. N. Tolstoi”, novembro de 1910.

8 Dênis de Moraes, idem.

9 Ver: “Aos estudantes”, na coletânea “Garranchos”.

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