Exército aplica violência contra moradores em operações no Rio

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Moradores da Praça Seca, zona oeste do Rio, e do Complexo do Chapadão (zona norte) denunciam por meio de redes sociais e mensagens diversos abusos e insultos cometidos pelas tropas das Forças Armadas (FF.AA.). Violência gratuita, xingamentos, arruaça e abuso de autoridade estão dentre as atitudes relatadas.

O Exército realizou operações simultâneas nas duas regiões: no dia 4, os militares invadiram a Praça Seca; e desde o dia 28 de junho seguem ocupando os Complexos do Chapadão e da Pedreira.

Um vídeo, publicado em uma rede social no dia 4 de julho, mostra o momento em que um militar do Exército, junto com seu bando, chuta e depois pisoteia o boné de um morador da comunidade do Barão, na Praça Seca. Ao fundo, o morador denuncia: “Deu soco na minha cara aqui, ó! Ó o exemplo aí, ó. Me abordou apontando um fuzil na minha cara. É esse o país que vocês querem, né?”. No fim do vídeo o milico dá um tapa no celular do jovem, ameaçando: “Eu vou quebrar essa porra!”.

Em entrevista ao G1, o morador relatou que permitiu que os militares entrassem em sua residência e que reclamou apenas pelo fato de o milico ter apontado o fuzil destravado para ele. “Botei meu filho no chão, aí ele começou a discutir comigo. Foi quando peguei meu filho no colo que ele deu um soco na minha cara. Aí vieram outros e não deixaram a briga acontecer. Mas até então eu não cheguei a encostar a mão nele não. Eu não entendi o que aconteceu na hora do soco”, relata o homem. “Estou muito decepcionado hoje com as Forças Armadas. Perdi a credibilidade no seu serviço”, conclui.

Em um outro vídeo publicado também no dia 4, inúmeras crianças aparecem fazendo fila e sendo, uma a uma, revistadas por um milico do Exército; as imagens, aparentemente, são do Chapadão.

Insultos, agressões, abusos

A série de abusos, segundo moradores, é ainda maior, considerando aquelas que não foram filmadas.

“Eles ficam querendo pegar telefone de morador para bisbilhotar, ver o que estão falando, o que está acontecendo”, relata uma moradora da comunidade Chico Mendes (favela no interior do Complexo do Chapadão, no bairro de Costa Barros), que não quis se identificar por medo de represálias.

“Um morador falou que sabia dos seus direitos e que não ia dar o telefone, daí o soldado disse: ‘te marquei, se eu te pegar de madrugada você está fodido’. Depois ele pegou o menino e ficou até 6 horas da manhã, batendo, batendo, batendo”, relata ela. “Eles passam por cima das motos dos moradores, estraçalha tudinho. Eles começaram a fazer isso ontem, sabe? É muita sacanagem.”.

Na favela do Chico Mendes e em outras próximas – as favelas que ficam no ponto mais alto dos morros do Complexo – são as regiões mais pobres e, também, onde mais ocorrem violações das forças de repressão.

As violações e agressões tendem a aumentar. Desde o início da invasão e ocupação, no dia 28 de junho, surgem relatos e mais relatos. Segundo moradores, há boatos de que os milicos ocuparão a comunidade por três meses. No entanto, quanto mais violência aplicam contra as massas empobrecidas, mais estas se conscientizão sobre o papel das Forças Armadas.

“Uma viatura do Exército passou por mim e pelas meninas e jogou spray de pimenta na gente. Eu fui atrás do tenente e ele disse que eu devia ter pego o número da viatura. Mas como, se a gente estava coçando o olho? Estou com o gosto de pimenta na boca até agora”, protestou uma moradora do Complexo do Chapadão, em áudio que chegou até a reportagem de AND, em condição de anonimato, no primeiro dia da ocupação. “Eles esperam escurecer para fazer arruaça aqui dentro. É por isso que o Complexo do Alemão expulsou eles de lá e vai acontecer aqui também!”, exclamou.

O Complexo do Chapadão é um dos pontos de maior conflagração do Rio de Janeiro, concentrando em si as mais bárbaras operações de guerra das forças de repressão e um brutal cotidiano de opressão e violência exercidos através do 41º Batalhão da Polícia Militar – um dos mais genocidas da cidade. O Complexo abarca os bairros de Barros Filho, Costa Barros, Pavuna, Guadalupe, Ricardo de Albuquerque e Anchieta.

Agressão na Cidade de Deus

Um outro vídeo de agressão havia já sido publicado, mas dessa vez o ocorrido foi na Cidade de Deus. Um grupo de militares do Exército aparece espancando um único jovem, que teria agredido, sozinho, um soldado em meio a uma operação. Essa versão foi logo questionada e desmentida por moradores. O caso ocorreu na segunda quinzena de junho e está sendo investigado, segundo o Comando Militar do Leste.

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