Luta pela terra em Rondônia – Área Paulo Bento: ‘Eu luto pela terra e pelos pobres’

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A equipe de AND visitou, em outubro de 2018, a Área Revolucionária Paulo Bento, apoiada e organizada pela Liga dos Camponeses Pobres no estado de Rondônia, na cidade de Mirante de Serra. Conversando com camponeses sobre a luta e a labuta diárias, a equipe pôde colher excelentes depoimentos e registros.

A Área Paulo Bento foi conquistada no dia 17 de maio de 2017 pelos camponeses. A área foi batizada em homenagem à Paulo Sérgio Bento, camponês assassinado por policiais do Grupamento de Operações Especiais (GOE) da Polícia Militar (PM), no mesmo dia e no mesmo ano, após fazer uma denúncia da repressão em uma reunião com os órgãos públicos.

O velho camponês seu Ademir, de 53 anos, veio do Paraná com 29 e relembra décadas de menosprezo do pequeno camponês pelas autoridades. “Desde os antigos presidentes se fala que vão fazer a reforma agrária e nunca fazem”. Ele ajuda no lote de seu filho, André de 24 anos, na área Paulo Bento. A “reforma agrária’, segundo seu Ademir, “tem que fazer no peito”, porque as autoridades não se importam com os camponeses. Ele explica que o movimento de ocupação e corte popular de terras do latifúndio faz desenvolver municípios e toda a região, pois dá renda para o pequeno produtor e isto aumenta o consumo nas cidades próximas, diminuindo a pobreza e ajudando os pequenos comerciantes.

A vida na roça, explica seu Ademir, é dura. “Muito trabalho! Aqui ó: mandioca, muita fruta, muita coisa plantada e muita galinha”. Mas, ele explica que valeu a pena. “O grande problema é tem muita terra em mãos de poucos. Se eu consigo sobreviver com dez alqueires, porque tem gente com 1 mil?”, pergunta. “Se essas terras fossem distribuídas para os pequenos... Ih, rapaz, o nosso Brasil seria muito melhor! Não tenho nem dúvida!”, exclama. Mas, ele explica: os políticos não querem nem saber dos pequenos.

Outros camponeses de origem sulista são Walter, de 35 anos, e seu tio Arildo, de 44. Ambos vieram com suas famílias do Paraná há 34 anos, quando eram bem pequenos. Walter enfatizou para a equipe de AND como são prósperos alguns dos companheiros da área, plantando café e arroz. Arildo, por exemplo, tem mais 1 mil abacaxis plantados, e ele e seu sobrinho planejam plantar cacau. Walter possui, por exemplo, mais de 250 galinhas em sua propriedade, além de criação de gado e porcos.

Walter planta um pouco de tudo no seu lote, “uma salada de frutas”, em particular suas doces melancias são motivo de grande orgulho. Walter mora com sua companheira de 19 anos de casamento na área, em sua casa própria, finalmente livre de aluguel. Ele e seu tio procuraram a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) de Rondônia porque sabiam “que eles ajudam o povo”, e que “o povo nada teria se dependesse desses governantes que estão aí”. Tio Arildo enfatizou como o campesinato brasileiro é que sustenta a vida nas cidades do país. Walter fica indignado quando os camponeses que ocupam terras de latifúndios são chamados de bandidos. “Onde já se viu bandido que vai plantar e produzir pra se manter?”, questiona Walter, de forma incisiva. 

Walter e Arildo recordaram com felicidade de uma visita realizada por estudantes à Área Revolucionária. Eles presentearam os jovens com pepinos, abóboras e outros frutos de seu trabalho como sinal de amizade, recordam.

Mais à frente, a equipe de AND encontrou o camponês Flavio, de 41 anos, cavando um poço no seu terreno. Interrompido em seu trabalho, Flavio, hospitaleiro como todo camponês não se incomodou. Perguntado para que cavava, respondeu sorrindo: “É para a sobrevivência da minha família”.

Flávio está na Área há um ano e seis meses produzindo cacau, banana e alguns pés de café, além de milho, manga, coco, melancia, mamão, mamona, abobrinha, maracujá, caju e cebolinha. Cacau e café são suas principais produções. Ele também possui um pequeno pasto para o gado leiteiro que é vital para manter sua família de quatro membros.

Em um outro lote, José, de 57 anos, e sua companheira Geni, estão descansando da labuta, já aguardando a nossa equipe. Além da grande fonte de alegria que são seus seis filhos e um neto, ambos têm juntos uma pequena serralheria e mais de 29 cabeças de gado, e andam planejando plantar, entre outras coisas, cacau e banana. José se orgulha de ter construído a pequena estrada que chega até seu lote. Recém-chegado na Área, José está eufórico com a perspectiva de começar a plantar amplamente em seu lote. Em seus poucos seis meses na Área ele já trabalhou muito, inclusive cavando um poço até achar água.

José relatou que, por sua experiência de vida (ele já participou de muitas ocupações de terra) constatou que é quase impossível conseguir terra pelo Incra. “O Incra não quer ajudar o pobre”, condena. Comentou que também é muito difícil conseguir ajuda do governo. Ele lembrou de como foi difícil conseguir um financiamento e das dívidas que adquiriu com o mesmo quando teve uma terra com título de propriedade. “O governo não liga para isso não.”, diz ele, referindo-se à miséria do pequeno camponês. Disse também que não tem medo de despejo e nem de polícia, e que é com o campesinato firme, organizado e produzindo que se conquista um pedaço de terra.

Mais adentro da Área a equipe encontrou um casal que, na hora do almoço, descansava após a manhã de intenso trabalho. Juntos, eles têm uma criação de gado leiteiro com 40 cabeças e plantam mandioca, abacaxi, mexerica, jabuticaba e manga, tudo sem ajuda do governo. Possuem também um poço recém-construído. Não acreditam nas eleições e tampouco nos políticos. Lembraram o quão inútil foi a visita do Incra na área e reclamaram que eles não ajudam o povo. Estão preocupados com a educação de sua filha de quatro anos já que, como muitas partes do campo brasileiro, o transporte precário até a escola praticamente não funciona. Sensibilizados, comentaram sobre o quão difícil é para as pequenas crianças andarem tanto para chegar às escolas. 

Edilei, um camponês com seus 37 anos, já participou de outras lutas da LCP no estado de Rondônia. Ele lembrou que quando o campesinato é expulso do campo, seja pela miséria ou pela violência latifundiária, muitas vezes o desemprego e a miséria na cidade levam a juventude camponesa para à delinquência e para o crime. Edilei, com três filhos, disse que está há muito tempo com a Liga quase que como necessidade. “É para ajudar os pobres, os mais fracos”, diz ele. Relatou como durante os despejos a polícia age com extrema violência. “Lembra até uma ditadura!”, qualifica, mencionando os casos de espancamentos.

O veterano camponês Josival, de 43 anos, participou da tomada da área, afirmou que a mesma estava completamente abandonada quando chegaram. Afirma que ter esse pedaço de terra conquistado junto à Liga é a realização de um sonho, porque quer deixá-la para seus filhos e netos, sem se preocupar com o futuro deles, sem que eles precisem “morar na rua”. O que ele mais produz em seu lote é mandioca, mas também produz mamão, abacaxi e inhame. No ano passado chegou a colher seis sacas de mandioca, com seus poucos recursos, sem maquinário, com apenas suas mãos, vendendo os frutos de seu trabalho na cidade. Lembra com certa melancolia sua infância como arrendado: recorda que seu pai, mesmo com a família passando fome, era obrigado a dar metade da produção para o latifundiário. “É por isso que hoje eu luto” diz. “Vi muito sofrimento nessa época”, lembra.

Já no fim da Área Revolucionária encontramos Walcir, de 40 anos. Trabalhando na enxada ao sol das 15 horas, ele mostrou-se alegre e satisfeito com sua plantação de amendoim. “A gente planta uma parte e come outra”, comentou sorrindo. Ele está há um ano na Área e em seu lote de 10 alqueires planta milho, inhame, abóbora e mais de 800 pés de mandioca, além do amendoim. Planeja também começar a plantar açaí para reflorestar a área.

Walcir lembrou que, quando foi ocupada, a fazenda de 500 alqueires não produzia absolutamente nada. Falou que é bem perceptível a melhora econômica da região desde que a ocupação começou a plantar. “Aqui todo mundo fala a mesma língua: plantar e produzir para ver nossa cidade crescer”, afirmou e sorriu, como lhe é característico. Ele lembrou também que o latifúndio não gera renda para o município, apenas para os grandes fazendeiros e o resto “vai tudo para fora”. Ficou muito feliz com a organização e com o trabalho revolucionário da LCP, comparando com uma chave. “A Liga é uma chave: onde passa, portas se abrem. Verdadeiramente, meu amigo, por onde ela passa, as coisas acontecem!”, disse emocionado. Sobre seu pedaço de terra conquistado com muita luta, prometeu, com um sentimento perceptível, que não sai nem à força. “Eu nunca vou desistir!”.

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