Ameaçados de despejo, camponeses da Área São Francisco abandonam ilusão e persistem na luta

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O caminho da luta pela terra em Rondônia (segunda parte) 

A Área Revolucionária São Francisco, localizada no Lote 131 entre os municípios de Rio Crespo e Ariquemes, está sob ameaça de uma reintegração de posse, marcada para o dia 5 de dezembro. A Área foi visitada pela equipe do jornal em outubro de 2018 e nela foram coletadas entrevistas, depoimentos e imagens sobre a luta do campesinato brasileiro em geral e rondoniense em particular. De acordo com os camponeses, hoje moram cerca de 150 pessoas produzindo no local.

Como a maior parte das histórias do campesinato brasileiro, a história da Área São Francisco é de muito sacrifício e sofrimento, mas também de muita luta e persistência. A Área ocupada de maneira quase independente por um pequeno grupo de famílias, no início dos anos 2000, tinha aproximadamente 420 alqueires extremamente produtivos quando foi despejada, em 2012. O Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) prometeu às famílias um novo assentamento para quebrar sua resistência; os camponeses acreditaram, mas a promessa nunca foi cumprida. Os camponeses viveram então sete duros anos na beira da rodovia, em lonas, passando fome e na miséria, recebendo apenas três cestas básicas por ano pelo Incra.

Edileusa, de 39 anos e três filhos, hoje planta cacau, banana e cupuaçu na Área retomada. Ela é viúva; seu marido, que trabalhou com ela na Área São Francisco antes do primeiro despejo, morreu faz dois anos. “Muito sofrimento”, diz, ao recordar aqueles tempos. O casal sofreu nos sete anos sem rumo. “Ter que sair de repente, deixar tudo aqui... Ele ficou muito deprimido, entrou em depressão, foi coisa demais que ele sofreu.”. Sofrimento e desgraça que contrasta com a alegria de estar de novo na terra, com vontade de luta. Ela ressalta que a Liga “deu confiança” para aquele povo.

A Liga dos Camponeses Pobres (LCP), que organiza a Área e presta apoio aos camponeses, foi procurada pelas famílias na véspera de um despejo, pouco depois de retornarem à sagrada terra. A retomada ocorreu em julho de 2018, de maneira independente, após algumas das antigas famílias camponeses que sofriam com a miséria resolverem dar um basta na situação. Eles dizem, emocionados, que depois que passou a tremular a bandeira vermelha da Liga na Área, eles sentem-se mais seguros e confiantes para seguir trabalhando e lutando. Eles dizem que procuraram a LCP porque “cansamos de enganação e de promessa”, referindo-se aos órgãos de reforma agrária que os enganaram.

Eílson, pai de 3 filhos, está há dois anos plantando. Ele conta, com indignação na voz, que produzia no período anterior ao despejo cerca de 5 mil pés de café em plena produção. Ele arrepende-se de ter acreditado nos órgãos do velho Estado. “Fomos aquele povo pacífico, que sempre esperava que o Incra viesse resolver... Mas nada disso aconteceu. A gente sobrevivia em cima da terra, e de repente acabamos dormindo em baixo de lona. Não tivemos outra opção à não ser retornar para a área, e agora retornamos para valer, determinados pra ficar”, pontua decididamente.

Eílson, assim como todos os camponeses da área, emociona-se muito ao lembrar da produção que tinham, da alegria profunda que sentiam por ter uma terra e produção abundantes. Não raro, choram ao lembrar do sofrimento e carregam o peito com a determinação e a decisão de dar tudo pelo pedaço de terra, para resgatar novamente aquela felicidade destruída pelo velho Estado.

“Se dependesse do governo”, prossegue Eílson, lembrando os anos sem ter para onde ir após o despejo de 2012, “teríamos todos morrido de fome, foram quase dois anos sem receber sequer uma cesta básica.”, diz.

Ele também, com sinceridade e alegria típica do camponês, recorda o papel que teve a LCP. “Se não fosse a ajuda da Liga, nosso pessoal nem estaria mais aqui.”, diz e detalha a intimidação constante da polícia.

O papel embusteiro do Incra é objeto de profundo ressentimento por parte dos camponeses. Após a retirada, o latifundiário e policial Daniel Roberto Stivani destruiu toda a infraestrutura construída pelos camponeses. Casas de alvenaria e com pisos bem construídas, outras ainda sendo montadas, tudo foi jogado por terra. Os materiais de construção, como cimento, madeira e outros foram deixados lá para apodrecer. A ânsia destrutiva do latifúndio derrubou toda aquela comunidade. Nem mesmo a pequena igreja e a associação de moradores foram deixadas de pé.  De acordo com Jucemar, a produção abandonada pelos camponesas na área era vendida pelo latifundiário após o despejo. “Vendia a nossa produção na feira... se nossos filhos quisessem uma banana a gente tinha que comprar a mesma banana que a gente plantava!” recorda, revoltado.  

João Raimundo, de 59 anos, mostrou os alicerces da casa que havia construído para seu genro, trinta dias antes do despejo de anos atrás. Ele recorda a tristeza que foi abandonar suas terras, que viviam então um auge de produtividade. Apesar disso, fica enérgico ao ver o potencial de produtividade do seu lote, apontando a quantidade de limão e cacau que em uma curta caminhada pôde mostrar à equipe de AND. Ele esteve presente na área praticamente desde o começo com uma plantação de um “arroz muito do bom”, milho, feijão, mandioca, “um bocado de coisa”.

A cinzenta e marrom terra arrasada pelo latifúndio opõe-se ferozmente com a vibrante e fértil terra cultivada pelo campesinato. Outra camponesa Maísa, também morando em um lote verde e vivo, estava cozinhando feijão quando encontrada pela equipe de AND. Ela mora faz meses na área com o marido e três filhos e, nas suas palavras, “temos um monte de trem plantado”: mandioca, milho, abóbora. “É muito trem, não dá nem para falar, vai plantando e vai ficando.”, explica, bem humorada. A organização da LCP, para ela, foi fundamental: “Se não tivesse, meu amigo, todo mundo teria saído daqui, por medo mesmo”, diz.

O pequeno produtor Marco Antônio, pai de quatro filhos, após ler um exemplar de AND, falou como já conseguiu produzir apenas no seu lote quase 4000 quilos de café. Graças às falcatruas do Incra, Marco Antônio e sua grande família viveram anos sem moradia fixa. “É sofrimento, meu amigo.”, comenta. Por outro lado, lembra que “a Liga trouxe coragem para cá”. Ele diz que os camponeses da Área não irão, de maneira alguma, abandonar seu pedaço de terra.

O camponês, conhecido como “Cabeção”, emocionou-se ao lembrar da vida dura com seu pai e a saga de sua vida, indo do nordeste até Rondônia no pau-de-arara, parando no Amazonas. Com trabalho duro e muita dificuldade, ele recorda com dor a época em que plantavam o pouco que tinham no pequeno lote de seu pai e praticamente passavam fome. “Eu nunca ganhei um palmo de terra do Incra”, lembra.

Esperando ansiosamente conquistar seu pedaço de terra com a ajuda da LCP, depois de uma “vida de muito sofrimento”, como ele mesmo descreveu. “Tem que ter coragem para lutar, para conseguir o objetivo que você tem.”, afirma. “Enquanto há vida, há esperança, até você morrer tem que estar lutando”.

Os anos sofridos por aquelas famílias converteram-se, com a retomada e a recente presença da LCP, em grande espirito de combatividade e orgulho de ser produtor rural, camponês pobre. Trouxe confiança no povo e desconfiança no velho Estado burguês-latifundiário. Exemplo disso está no depoimento de Joel, de 48 anos, com três filhos, todos lutando na área.

Joel conta que chegou em 2007 na Área e ficou até o despejo de 2012. “Não vamos mais ser iludidos com conversa, seja do Incra, seja do governo, que vem dizer que vão nos ajudar, mas na verdade estão nos traindo...Vamos lutar até o fim!” vibra Joel, com decisão.

Joel vê como humilhante os anos de descaso das autoridades para com os camponeses, “trabalhadores, honestos”. Ele faz questão de agradecer à LCP, dizendo que trata-se de “uma organização de pessoas simples como nós, que sabem o suor que os camponeses dão em seu trato com a terra”. A LCP, diz ele, “é um projeto que Deus enviou para nós”.

Um outro camponês, ao referir-se à ameaça de reintegração de posse, diante de tanto sofrimento e enganação da qual foram vítimas, disparou: "Se vierem tirar a gente nós vamos lá na cidade levar os sacos pretos e falar para eles assim: 'quando vocês forem lá podem levar os caixões'. Só assim nós vamos sair daqui, nós entramos para ganhar".

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