Seguindo sua toada de alimentar as chamas de uma guerra regional expandida ao Líbano, Síria e Irã, o regime sionista em um período de menos de 24 horas atacou a capital libanesa Beirute – em tentativa de assassinato de Fouad Shukr, um dos líderes do Hezbollah, cujo paradeiro ainda é incerto -, e em seguida cometeu o assassinato de Ismail Haniyeh, presidente do Birô Político do Hamas, que estava em Teerã, capital do Irã.
Ismail Haniyeh era o líder político do Hamas, grupo que lidera a Resistência Nacional Palestina, e foi escolhido como primeiro-ministro da colaboracionista Autoridade Palestina nas eleições legislativas de 2006 após vitória do Hamas em sua primeira participação no pleito, porém teve seu governo dissolvido pelo presidente Mahmoud Abbas, em 2007, após pressão internacional, especialmente ianque e israelense.
Legado da Nakba
Haniyeh nasceu em 1963 no campo de refugiados Al-Shati, o famoso “campo da praia” – onde foi filmado parte do documentário “Nascido em Gaza”, da Netflix. Sua família era originalmente da região onde hoje fica a cidade israelense de Ashkelon, mas, assim como outros 750 mil palestinos, foram expulsos em 1948 para dar lugar aos colonos sionistas. Ele se formou em 1987, com bacharelado em Literatura Árabe na Universidade Islâmica de Gaza, hoje completamente destruída pela guerra de agressão sionista. Durante seus estudos universitários, Haniyeh se tornou líder do conselho estudantil. Concomitante com sua graduação, a Primeira Intifada teve início, e Haniyeh tomou parte de diversas manifestações contra a ocupação sionista, e se tornou parte do Hamas – formado durante a Primeira Intifada -, sendo preso três vezes entre 1987 e 1988. Sua última prisão durou três anos. Ao ser liberto, em 1992, Israel o deportou para o sul Líbano, à época também sob ocupação sionista (ocupação que duraria até 2000). Em 1993, após a formação da Autoridade Palestina na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, Haniyeh retornou a Gaza e foi nomeado reitor da Universidade Islâmica.
O líder palestino ´tinha muita proximidade com o fundador e líder espiritual do Hamas, o Sheikh Ahmed Yassin. Em 1997, após o Sheikh Yassin ser liberto dos calabouços sionistas, Haniyeh foi nomeado seu assistente, e em seguida se tornando representante do grupo Hamas na Autoridade Palestina.
A experiência de Ismail Haniyeh com os assassinatos sionistas direcionados às lideranças palestinas começou muito antes dele próprio ser alvo bem-sucedido de tais operações terroristas de Israel. Em 2003, ele mesmo e o Sheikh Yassin foram vítimas de uma tentativa de assassinato, tendo evacuado o prédio apenas segundos antes de ser atingido, após ouvirem o jato israelense se aproximar, e ficaram levemente feridos. Seis meses depois, o Sheikh Yassin foi assassinado por Israel ao sair de uma mesquita, após as orações matinais. Seu sucessor, Abdel-Aziz Rantissi, também foi assassinado apenas um mês depois. Com esta série de assassinatos, aceitar o cargo de liderança poderia ser impensável para qualquer pessoa. Mas não para Haniyeh, um palestino nascido e criado em um campo de refugiados assim como tantos outros. Ele aceitou a posição, e foi então escolhido como primeiro-ministro após a vitória parlamentar do Hamas nas eleições de 2006.
Após pressões internacionais – especialmente dos EUA, Israel e União Europeia – e sanções, o presidente colaboracionista da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, dissolveu o governo eleito, Haniyeh voltou a viver em Gaza, de forma relativamente simples, com sua esposa e seus 12 filhos. Manteve lá seu governo eleito, isoladamente da Autoridade Palestina na Cisjordânia, até 2016, quando evacuou para o Qatar após ser escolhido como o líder do Birô Político do Hamas.
Sacrifício próprio, ascetismo: um líder palestino
Durante a atual guerra de agressão sionista em Gaza, Ismail Haniyeh sofreu a perda de três de seus filhos e cinco netos em um único ataque israelense, e posteriormente mais dez membros de sua família também foram vitimados por bombardeios sionistas, incluindo sua irmã. Israel admitiu ter atacado tanto os filhos quanto os outros familiares de Haniyeh, no que se configura como um ato claro de terrorismo, ignorado pela assim chamada “comunidade internacional” como todos os outros crimes sionistas. A resposta de Haniyeh às perdas foi de relembrar o martírio de todos os palestinos, independentemente de serem familiares seus, e reforçar o comprometimento seu e do povo palestino com sua libertação.
“O inimigo acredita que ao atacar as famílias dos líderes, vai nos forçar a desistir das exigências do nosso povo. Qualquer pessoa que acredite que o ataque aos meus filhos levará o Hamas a mudar sua posição, está delirando. Os residentes de Gaza pagaram um alto preço com o sangue de seus filhos, e eu sou um deles. Nós dizemos à ocupação que este sangue apenas nos fará mais firmes em nossos princípios e em nossa aderência à nossa terra.”
Em pesquisa realizada em dezembro de 2023 pelo Palestinian Center for Policy and Survey Research, Ismail Haniyeh figurava como um dos favoritos para uma futura eleição presidencial palestina. Em um cenário em que ele disputasse com o atual presidente colaboracionista Mahmoud Abbas, Haniyeh teria 78% dos votos. Caso as eleições também tivessem Marwan Barghouti concorrendo (líder extremamente popular do Fateh, atualmente nos calabouços sionistas, visto como o “Nelson Mandela Palestino” por muitos), Haniyeh perderia, mas por muito pouco.
Ataque terrorista em solo estrangeiro
Ismail Haniyeh estava em visita diplomática a Teerã, capital do Irã, para atender à cerimônia de inauguração do presidente eleito iraniano, Masoud Pezeshkian, ocorrida ontem (30/07), junto com líderes de outros movimentos de resistência da região, como o movimento iemenita Ansarallah, extremamente feroz em seu apoio ao povo palestino. Haniyeh encontrou-se com o Secretário Geral da Jihad Islâmica Palestina, Ziyad al-Nakhalah, e com o Líder Supremo iraniano, Ali Khamenei. Ele estava se hospedando em uma instalação militar no norte da capital iraniana, e seu assassinato foi imediatamente reportado nos canais de resistência durante a madrugada do dia 31 de julho.
Em comunicado, o Hamas honrou “Abu al-Abd” (a kunya, de Ismail Haniyeh) e comemorou suas contribuições à Resistência Nacional Palestina. Mas não deixou de alertar que o ataque terrorista sionista que culminou no assassinato do líder palestino “leva a batalha a novas dimensões e terá grandes repercussões em toda a região”. Completam:
“O sangue do nosso líder Ismail Haniyeh, que hoje está misturado com o sangue das crianças, mulheres, jovens e idosos de Gaza, e com o sangue dos filhos e mujahideen do nosso povo e da nossa nação, confirma que a resistência e seus líderes estão no centro da batalha lado a lado com seu povo. Esse sangue puro, querido por Deus, definitivamente não foi derramado em vão, ao contrário, será um farol no caminho da libertação. E o inimigo pagará o preço pela sua agressão com o seu sangue em Gaza e na Cisjordânia, dentro da sua entidade monstruosa, e em todos os lugares que as mãos dos mujahideen do nosso povo e da nossa nação alcancem”
O assassinato do prospecto de paz
Ismail Haniyeh, sendo o líder político do Hamas, era também o líder nas “negociações” de cessar-fogo na Faixa de Gaza. Estas supostas negociações, tão alardeadas pelo governo ianque, vem sendo arrastadas pela entidade sionista de forma cínica. Por diversas vezes o Hamas anunciou que aceitaria propostas de cessar-fogo, e inclusive propôs uma em maio, que foi recusada por Israel. Menos de um mês depois, os EUA finalmente não vetaram uma resolução de cessar-fogo no Conselho de Segurança da ONU, com uma proposta praticamente idêntica à proposta de maio do Hamas, e o grupo palestino novamente anunciou que aceitaria o cessar-fogo. Em desrespeito à resolução (vinculativa) do Conselho de Segurança, Israel ignorou completamente a resolução e manteve sua agressão genocida.
O Ministro da Herança de Israel, Amichay Elyahu (que estava presente nas manifestações em defesa dos soldados estupradores ontem), publicou no X/Twitter “não mais acordos de paz imaginários”. O assassinato por Israel do líder palestino nas negociações de paz é a prova final de que o Estado Sionista não tem interesse algum em um processo de paz. Seu único interesse é atear fogo à região inteira, expandindo sua guerra fracassada na Faixa de Gaza ao Líbano, à Síria, ao Iraque, ao Iêmen, ao Egito e ao Irã, forçando seu patrão, padrinho e patrono ianque a ir a seu socorro. Antes mesmo do assassinato de Haniyeh, o governo ianque já enviou embarcações militares à costa leste do Mar Mediterrâneo, próximo ao Líbano, e o Secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin – em viagem às Filipinas para lançar lenha na fogueira de uma guerra regional contra a China -, afirmou que Washington defenderá Israel caso a entidade genocida seja atacada.
Israel encontra-se num crise jamais antes vista. A Operação Dilúvio de Al-Aqsa lançou a sensação de superioridade supremacista israelense no fundo do poço, e tal sensação supremacista só pode ser saciada com a incontrolável sede de sangue genocida que temos visto há 10 meses em Gaza, mas segue sendo lançada ao fundo do poço pela incapacidade de derrotar combatentes com sandálias, camisas regatas e túneis improvisados escavados. O premiê genocida, Benjamin Netanyahu, enfrenta protestos contra seu governo todos os dias, e é diretamente desafiado pelos seus próprios ministros. Israelenses invadiram suas próprias bases militares para defender o direito de seus soldados estuprarem prisioneiros palestinos, colocando o país em um dilema bizarro entre manter a máscara de uma democracia (“A Única do Oriente Médio”) e deixar a máscara cair para mostrar a verdadeira face do etnoestado supremacista que é Israel. Em meio a essa crise política, moral, militar e existencial, Israel precisa de uma guerra regional com seu chefe imperialista ao seu lado para justificar sua existência e levantar seu moral.
Por isso Israel esperou que Haniyeh estivesse em Teerã para assassiná-lo: para provocar o Irã. Haniyeh vive no Qatar, um aliado do imperialismo ianque. Israel não atacaria este valioso aliado de seu patrão, facilitador e fornecedor. A entidade sionista certamente tem esta capacidade, com jatos supersônicos com engenharias de furtividade, drones e mísseis balísticos. Mas Israel precisava insultar diretamente o Irã, o maior desafiante de sua hegemonia político-militar na região. Caso o Irã não responda a esta clara violação de sua soberania, de seu espaço aéreo e da visita diplomática de um líder aliado, o país terá cedido à intimidação sionista e parecerá fraco. Caso responda (justamente), Israel irá gritar “lobo”, assim como Pedro, e pedirá socorro aos seus aliados. Não é coincidência que, menos de 1 semana após o discurso inflamatório de Netanyahu ao Congresso ianque, no qual alimentou as chamas de uma guerra regional contra o Irã, Israel tenha atacado a capital libanesa para assassinar um líder do Hezbollah e, em seguida, tenha atacado a capital iraniana, assassinando o líder político do Hamas. As impressões digitais do imperialismo ianque estão por todo o lado de ambos os ataques, seja com fornecimento de aeronaves, de mísseis, de dinheiro ou mesmo de inteligência. O dedo que aperta é israelense, mas o gatilho é Born in the USA.
Reações
O Vice Secretário Geral da Jihad Islâmica Palestina, Muhammad Al-Hindi, disse: “este assassinato não apenas é direcionado à Resistência Palestina e ao Hamas, em particular, mas é também direcionado ao Irã. Israel está à beira do colapso, e suas reações refletem confusão e inabilidade para alcançar seus objetivos. Israel enfrenta tal resistência pela primeira vez em sua história.”
O recém eleito presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, publicou no X/Twitter que o “O laço entre as duas orgulhosas nações do Irã e da Palestina será mais forte do que antes, e o caminho da resistência e defesa dos oprimidos será mais forte que nunca. Irã irá defender sua integiradade territorial e sua honra, e fará os invasores terroristas se arrependerem de seus atos covardes.” E o Aiatolá Ali Khamenei declarou que “uma vez que a operação foi em solo iraniano, nós nos vemos no dever de vingar seu [Ismail Haniyeh] sangue.”
Neste momento, Israel declarou fechado o espaço aéreo ao norte, na fronteira com o Líbano. Tal ação pode ser o prenúncio de movimentos militares maiores, como um lançamento de um segundo fronte em sua guerra de agressão contra seus vizinhos. Ao mesmo tempo, também é possível que Israel esteja apenas aguardando a justa retaliação dos grupos de Resitência do Líbano e Síria. Enquanto escrevia o texto, o analista político israelense Akiva Eldar disse à Al-Jazeera que, apesar de os israelenses estarem orgulhosos dos ataques em Beirute e Teerã – isto é, de seu terrorismo em solo estrangeiro, em dois países diferentes -, “as pessoas em Tel Aviv foram dormir com as portas de seus abrigos anti-bombas abertas”.
Na Palestina, até agora, há um silêncio. Mesquitas e programas de televisão anunciaram uma greve geral na Cisjodânia Ocupada, e as ruas lembram uma cidade fantasma, com todas as lojas, bancos e comércios fechados e poucos ou nenhum transeunte. A mobilização na Cisjordânia Ocupoada, lembrando, é extremamente difícil devido ao controle parcial ou total de Israel sobre o território, ou através do governo colaboracionista da Autoridade Palestina. Portanto, para os palestinos da região irem aos centros urbanos mais importantes e realizarem grandes manifestações, a missão é extremamente árdua, especialmente desde outubro de 2023. Mas a realização de protestos não está descartada. Já na Faixa de Gaza, a maioria dos cidadãos estão sem acesso à internet, à luz e a necessidades básicas em geral. Então os palestinos presos neste campo de extermínio estão descobrindo os fatos aos poucos.
A resistência é horizontal
Assassinatos não são novidade na história de Israel, como já foi mencionado. Também não são novidade nas histórias de grupos de resistência pelo mundo inteiro, em particular aqueles enfrentando esta entidade terrorista e gângster, cuja fundação foi feita exatamente através de assassinatos, sabotagens, extermínio e limpeza étnica. Em 1992 Israel assassinou o cofundador e então Secretário Geral do Hezbollah, Abbas al-Musawi. Seu substituto é, até hoje, um dos homens mais temidos e caçados (sem sucesso) por Israel, na figura de Hassan Narsallah. E se, 20 anos depois do assassinato do Sheikh Ahmed Yassin e seu sucessor imediato, o Hamas foi capaz de realizar a maior operação da história contra a entidade sionista, a única certeza que podemos ter é de que a Resistência é horizontal. Diferente das estruturas militares tradicionais e engessadas das forças regulares, a Resistência Nacional não é derrubada ao remover a cabeça. A cabeça ressurge das massas em defesa de sua nação, seu território e seu povo.
Fato é que, se Israel esperava desmobilizar e desmoralizar os palestinos e seus aliados ao assassinar Ismail Haniyeh, sua missão já se provou um fracasso. De um lado a outro no espectro político palestino, todos prestaram suas homenagens e condenaram o ataque como terrorista. Se Israel esperava espantar as formigas ao pisar forte e efusivamente no formigueiro, pode estar prestes a descobrir que as formigas são saúvas. E o pé que pisou está descalço.
Este artigo expressa a opinião do autor.