20 anos de pistolagem, milícia, grilagem e impunidade: a trajetória de Evangelista Araújo Costa

A trajetória de Evangelista Araújo Costa revela o funcionamento da violência reacionária que acompanha a expansão do latifúndio agroexportador no MATOPIBA: grilagem de terras, expulsão de comunidades camponesas e uma estrutura paramilitar armada, com participação de agentes do velho Estado, a serviço dos latifundiários.
Exclusivo: 20 anos de pistolagem, milícia, grilagem e impunidade. Como Evangelista Araújo Costa comandou uma estrutura de pistolagem, milícia e grilagem do Tocantins ao Maranhão. (Imagem: Comsolute/Reprodução)
Exclusivo: 20 anos de pistolagem, milícia, grilagem e impunidade. Como Evangelista Araújo Costa comandou uma estrutura de pistolagem, milícia e grilagem do Tocantins ao Maranhão. (Imagem: Comsolute/Reprodução)
Exclusivo: 20 anos de pistolagem, milícia, grilagem e impunidade. Como Evangelista Araújo Costa comandou uma estrutura de pistolagem, milícia e grilagem do Tocantins ao Maranhão. (Imagem: Comsolute/Reprodução)

20 anos de pistolagem, milícia, grilagem e impunidade: a trajetória de Evangelista Araújo Costa

A trajetória de Evangelista Araújo Costa revela o funcionamento da violência reacionária que acompanha a expansão do latifúndio agroexportador no MATOPIBA: grilagem de terras, expulsão de comunidades camponesas e uma estrutura paramilitar armada, com participação de agentes do velho Estado, a serviço dos latifundiários.

Publicamos abaixo uma importante reportagem investigativa enviada com exclusividade à Redação de AND pelo Comitê de Solidariedade à Luta pela Terra (COMSOLUTE), que apresenta a trajetória de Evangelista Araújo Costa e as denúncias de uma estrutura latifundista de pistolagem e grilagem atuante do Tocantins ao Maranhão, envolvendo também agentes do velho Estado burocrático-latifundiário. O conteúdo é de total responsabilidade dos autores.


Durante pelo menos duas décadas, um mesmo nome tem atravessado a vida de camponeses do cerrado brasileiro, levando terror, violência, mortes, ameaças e expulsões de famílias de suas terras. A serviço de latifundiários possuidores e/ou grileiros, EVANGELISTA ARAÚJO COSTA, também conhecido como “Berro Grosso”, tornou-se a expressão acabada de uma engrenagem criminosa que, muito além de um caso isolado, revela, na verdade, como avança a expansão da fronteira agrícola sobre o cerrado: pela pistolagem conformada principalmente por grupos paramilitares armados; pela grilagem de terras; e, pela expulsão de comunidades. Sua trajetória constitui um retrato perfeito da verdadeira força motriz que impulsiona e materializa o projeto estatal criminoso do MATOPIBA, cuja expansão, longe da propaganda do “desenvolvimento”, tem sido sustentada pela violência, pela concentração fundiária na formação de imensos latifúndios e pela expulsão sistemática de comunidades camponesas, indígenas e quilombolas.

Apresentado pelo Estado como uma “fronteira de desenvolvimento agrícola”, o MATOPIBA, projeto acolhido e institucionalizado pelo Estado em 2015 (gerência de Dilma Rousseff – PT), abrangendo mais de 73 milhões de hectares, consolidou o cerrado como principal frente da expansão do agronegócio. Segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2025), produzido pelo IPAM e pela rede MapBiomas, o bioma concentrou, em 2015, 55% de toda a área desmatada do Brasil, mais de 540 mil hectares de vegetação nativa suprimidos, área que equivale a praticamente todo o território do Distrito Federal, tendo naquele então, pelo terceiro ano consecutivo, a liderança nacional em perda de cobertura vegetal.

Concentração do desmatamento no Cerrado em 2025. Foto: Divulgação/IPAM

É nesse contexto que se insere a trajetória de Evangelista Araújo Costa. Em 2010, sua atuação ganhou repercussão nacional durante um conflito fundiário em Natividade (TO), quando veio à tona sua relação com o Desembargador, então Corregedor-Geral de Justiça do Tocantins, e latifundiário Bernardino Lima Luz. As investigações concluíram que o desembargador havia contratado Evangelista, junto com seu bando de pistoleiros (integrado majoritariamente de policiais de todos os matizes: federais, civis e militares), para expulsar os camponeses de uma área pretendida pelo então Desembargador Bernardino, que seria a Fazenda Nova Jerusalém.

As apurações revelaram ainda que a relação entre ambos ia muito além da simples contratação para o “serviço”. Bernardino mantinha contato permanente com Evangelista e chegou, inclusive, a fornecer armamentos que seriam utilizados contra os camponeses durante as operações de expulsão.

Esse conflito além de demonstrar de forma inequívoca que Evangelista atua como chefe de pistolagem (o que nos termos da legislação penal brasileira é chamado de milícia armada), escancara também o quão profunda é a relação entre essa estrutura criminosa e o próprio Estado. Ainda durante a investigação sobre a invasão perpetrada por ele nas terras ocupadas pelos camponeses, foram interceptadas diversas ligações entre Evangelista e agentes públicos.

Notem abaixo o quão deliberativas são essas relações, no sentido de beneficiar criminosos ladrões de terra. Durante o conflito, Evangelista faz uma conversa com Ediceu, um latifundiário também interessado na tomada da área em questão.

Dia 01/11/2010 Ediceu sugere falar com o presidente do ITERTINS para pedir o título da fazenda Nova Jerusalém para ajudar no processo de reintegração de posse contra os camponeses.

Dia 04/11/2010 Evangelista em conversa telefônica com Bernardino diz que já falou com o presidente do ITERTINS (Instituto de Terras do Tocantins) e que combinou que o presidente no dia seguinte iria à sala do Bernardino, na CGJ (Corregedoria-Geral de Justiça do TJTO), para tratar sobre o título.

No meio disso, Evangelista fala com Giovanne Silveira, agente da Polícia Federal, onde tratam sobre a conversa com o ITERTINS e falam sobre Rodolfo, agricultor da região que havia movido processo de reintegração de posse contra o bando de Evangelista na invasão de suas terras.

No dia 06/11/2010, Evangelista em conversa telefônica com alguém que não foi identificado pela investigação, conversa sobre a documentação da área, e alega que “o documento de lá saiu, o título já, o ITERTINS deu ontem pra nós, mesmo com esse tanto de problema. Então agora nós (…) As coisas voltaram a funcionar.” […] “Agora é só receber meu dinheiro e ficar de boa”

Enquanto milhares de camponeses nascem e morrem tentando conseguir o “papel” da terra, Evangelista rapidamente consegue com o ITERTINS. Note que no mesmo dia em que se tem a conversa com o presidente do ITERTINS, eles já alcançam o intento. Não seria esse um tempo recorde de titulação no Instituto de Terras do Estado do Tocantins? O Sr. Onofre Marques Melo, então presidente do ITERTINS, de forma extremamente “diligente”, foi até a CGJ/TJTO (órgão que, em tese, entre outras atribuições, fiscaliza os Cartórios e, assim, indiretamente, até mesmo o próprio Instituto Estadual de Terras) e fez atendimento especial ao Desembargador, concedendo um título definitivo da área, apesar de, como o próprio Evangelista diz na conversa telefônica, “do tanto de problema” que existia naquelas terras, ou seja, apesar do conflito fundiário e de ter uma decisão judicial favorável aos camponeses.

Outro ponto que chama atenção é a participação do agente da Polícia Federal, Giovanne Silveira. Segundo investigações policiais, ele já era alvo de diversos procedimentos investigativos relacionados a golpes e outros conflitos fundiários. Eles também conversavam sobre as tomadas de diversas áreas, vejam:

O nível de ousadia é tão grande, que o delegado da época de Natividade/TO, Mozart Macedo Félix, pediu exoneração da polícia, após sofrer uma série de intimidações, ameaças e até mesmo perseguições aos seus familiares, especialmente a sua mãe, praticadas por Evangelista.

Quando capangas de Evangelista foram presos durante invasão de terras, eles perseguiram o juiz responsável pelo caso, Marcelo Laurito Paro, foram ao hotel onde ele estava hospedado e tentaram invadir o seu quarto às 23h da noite, e diante da negativa da recepção, ele, junto com seus pistoleiros, se hospedaram no hotel, obrigando a administração do hotel a trocar de quarto o juiz todos os dias.

Ao ser intimado na delegacia, Evangelista, em depoimento gravado, diz “eu não vou abrir mão daquela terra não. Nem que tenha que morrer 500 pessoas. Entendeu? Você pode ter certeza disso.”

As investigações reuniram um conjunto robusto de provas apontando a existência de milícia armada voltada à expulsão de camponeses. As interceptações telefônicas, os depoimentos, além de diversos outros elementos demonstraram que Evangelista chefiava o grupo de pistoleiros (dos quais a maioria eram policiais), enquanto latifundiários financiavam sua atuação. O material indicava a participação por parte de agentes públicos de vários órgãos estatais, compondo a engrenagem necessária para “legalizar” grilagens e “dar ar” de legalidade aos frutos de ações totalmente criminosas.

Apesar da gravidade dos fatos, quando o caso chegou ao fim, em 2017, ninguém foi responsabilizado criminalmente. O grupo formado por Desembargadores, Juízes, Promotores, além de Policiais Federais, Civis e Militares, bem como de outros pistoleiros que atuavam diretamente na expulsão dos camponeses, permaneceu protegido. A única consequência foi a aposentadoria compulsória do Desembargador Bernardino Lima Luz, mantida pela decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), a qual confirmou decisão anterior proferida pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça). Para os camponeses vitimados pela violência da pistolagem, restou mais uma vez a confirmação de que nesse país, os criminosos ladrões de terra, pistoleiros, milicianos, agentes públicos em flagrante corrupção, saem impunes.

MUNIDO DAS BALAS E DA CERTEZA DA IMPUNIDADE, EVANGELISTA CHEGA AO MARANHÃO

Quando chegou ao Maranhão, Evangelista Araújo Costa não abandonou seu modus operandi. Trouxe consigo a mesma estrutura armada, os mesmos contatos e, sobretudo, a certeza de que dificilmente seria responsabilizado.

Não por acaso, seu destino foi o Maranhão. Barra do Corda e Fernando Falcão também integram a região do MATOPIBA. É justamente onde a corrida pela terra, impulsionada pelo latifúndio, pela especulação imobiliária e pelo avanço do agronegócio, produz um terreno fértifl para a atuação de grileiros, pistoleiros e milícias, encarregadas de transformar, por meio de violência extrema, terras públicas, que assim são mantidas para reserva do latifúndio, em grandes propriedades rurais, através da expulsão das comunidades camponesas, quilombolas e indígenas que ali vivem e são invisibilizadas.

Os primeiros registros de sua atuação no Maranhão aparecem ainda em 2018. Em julho daquele ano, um grupo formado por cerca de 15 (quinze) homens armados, contendo policiais militares, com apoio de um helicóptero, invadiu uma fazenda próxima ao Povoado Catingueiro, na zona rural de Fernando Falcão/MA. Atiraram em placas da propriedade, incendiaram materiais elétricos, hidráulicos e de construção, queimaram sacos de cimento, tijolos e tudo o que encontraram pela frente. O que não conseguiram destruir, levaram embora. Entre os objetos roubados estavam aproximadamente 1.200 estacas de madeira utilizadas na propriedade.  A referida invasão também foi comandada por Evangelista. Ele próprio, com a certeza da impunidade, liga para o caseiro da fazenda atacada assumindo o ataque, afirmando ser ele o verdadeiro dono da área e fazendo ameaças no sentido de intimidar e repelir qualquer tipo de resistência por parte dos verdadeiros donos. Segue a declaração prestada pelo próprio Evangelista, em sede do 37º Batalhão de Polícia Militar, admitindo a autoria do crime: 

Sobre estes fatos, também não houve qualquer tipo de responsabilização aos envolvidos.

Em 2019, novas denúncias chegaram ao próprio Comando Geral da Polícia Militar do Maranhão. Os relatos descreviam as mesmas ações, só mudando o local. Consta nas denúncias que Evangelista aparecia ao lado de policiais militares lotados no 37º Batalhão de Polícia Militar de Grajaú/MA, policiais civis, um vereador de Palmas/TO, além de outros integrantes da milícia que participavam dos crimes e/ou davam sustentação armada às ações do grupo.

As denúncias apontavam aquilo que, anos antes, a investigação da Polícia Federal já havia revelado no Tocantins, que era o fato de Evangelista não ser um simples pistoleiro contratado, ele era, e é, na verdade, o comandante de uma verdadeira milícia armada formada por agentes da chamada segurança pública, que atuam a serviço da grilagem e da expansão do latifúndio.

As várias disputas judiciais que começaram a se acumular na Comarca de Barra do Corda e na Vara Agrária do Tribunal de Justiça do Maranhão apenas revelam uma pequena parte do terror praticado por Evangelista. Camponeses, pequenos e médios proprietários passaram a recorrer continuamente ao judiciário buscando proteção contra as invasões perpetradas por Evangelista e sua corja de milicianos. Mesmo diante de várias ações possessórias e até mesmo decisões judiciais, ele continua atuando praticamente sem qualquer obstáculo.

Em 2020, após denúncias ao Batalhão de Polícia Ambiental, de desmatamento ilegal em terras abrangidas pelo Parque Estadual do Mirador, em Fernando Falcão/MA, Evangelista surge novamente como personagem central dos conflitos fundiários na região. Dessa vez, o plano é criar no campo a “Fazenda Paulista”, com mais de 23 mil hectares, em um lugar onde ela jamais existiu, com documentos cheios de vícios. Onde se pretendia desenhar essa fazenda existiam camponeses, pequenas e médias propriedades, sendo um lugar conhecido como Baixão Fundo. A invasão dessa área foi marcada por expulsões, intimidações e um intenso processo de devastação ambiental.

Nessa operação na Fazenda Paulista, criada por Evangelista com base na expulsão de camponeses, a Polícia Militar Ambiental ao ir verificar o crime de desmatamento ilegal, se depara também, mais uma vez, com parte da milícia armada de Evangelista. Com eles foi apreendido um verdadeiro arsenal de armas de fogo. Entre as apreensões havia um detalhe que escancarava o grau de promiscuidade entre a organização criminosa e o Estado: uma pistola calibre .40 e um uniforme pertencente à Polícia Militar do Maranhão, sob responsabilidade do Sargento João Almir Pereira da Silva. Guardem o nome desse senhor, ele será bastante importante para se entender o grau de envolvimento da Polícia Militar do Maranhão com essa corja de bandidos. A pistola do sargento foi encontrada na cintura de um cupincha do Evangelista, que é o Angelino Santiago da Silva Filho.

Foto da pistola retirada do inquérito policial.

Junto a pistola da Polícia Militar do Maranhão, também foram encontrados diversos outros armamentos de grosso calibre: 

Constatado o flagrante, foi realizada a prisão de 4 pistoleiros, que confirmaram que realmente estavam ali contratados por Evangelista e que todo o armamento que eles estavam fazendo uso pertencia a ele. Porém, como em todos os outros casos, nesse também não houve qualquer responsabilização.

Enquanto comunidades e proprietários locais buscavam proteção junto ao judiciário e aos órgãos de segurança desse estado, Evangelista consolidava seus crimes. A cada nova invasão, repetia-se o mesmo modus operandi, chegava a milícia armada, surgiam documentos claramente repletos de ilegalidade destinados a dar aparência de legalidade às invasões; o cerrado era devastado e, por fim, as terras passavam a ser negociadas como se jamais tivessem sido roubadas. Esse é o esquema.

O MAIOR ATAQUE DA MILÍCIA DE EVANGELISTA NO MARANHÃO

Em 2023, o nome de Evangelista Araújo Costa volta ao centro dos conflitos agrários do Maranhão, desta vez em um dos ataques mais emblemáticos e absurdos já visto pelo Maranhão nos últimos anos. No dia 10 de novembro, ocorreu o ataque planejado e comandado por Evangelista, que mobilizou sua estrutura paramilitar para executar mais uma ofensiva destinada a expulsar camponeses da comunidade São Francisco, em Barra do Corda/MA.

A força mobilizada por Evangelista era composta por seu principal cupincha, que é o que em nome da amizade com seu chefe e por amor ao crime, a tudo está disposto, que é Angelino Santiago da Silva Filho, que em 2020 já havia sido preso por prestar serviços de pistolagem para Evangelista, mas que pelo visto, nada aprendeu. Também integrava a milícia os integrantes que nunca decepcionam Evangelista, um conjunto de 10 policiais, sendo 9 militares e 1 penal.

O massacre somente não se consumou por um acontecimento completamente inesperado. Durante o deslocamento até a comunidade, uma das caminhonetes usadas pela milícia perdeu o controle e colidiu contra uma árvore. Com o impacto, a gasolina que eles estavam levando para atear fogo nas benfeitorias da comunidade, fez com que a caminhonete explodisse.

Uma das 3 (três) camionetes utilizadas no ataque ao Povoado São Francisco explodiu após a colisão com uma árvore. A caçamba do veículo continhas galões de gasolina que seriam usados para atear fogo à casa dos camponeses.

Dentro do veículo estava o Sargento Almir Pereira da Silva, o mesmo policial militar responsável pela pistola pertencente à Polícia Militar do Maranhão, que havia sido encontrada em 2020 na cintura do pistoleiro Angelino Santiago da Silva Filho, durante a operação realizada na Fazenda Paulista, em Fernando Falcão/MA. Preso às ferragens, o pistoleiro Sargento da PM João Almir morreu carbonizado pelo próprio combustível que seria utilizado para destruir as casas dos camponeses.

Era de se esperar que a descoberta de uma milícia integrada por policiais militares planejando incendiar casas de camponeses provocasse uma ampla investigação sobre a atuação da organização criminosa comandada por Evangelista. Mas o que ocorreu foi exatamente o contrário. 

A morte do sargento Almir, que ocorreu enquanto participava de uma tentativa de ataque contra a comunidade, transformou-se, dentro da própria corporação, em motivo para uma violenta criminalização da comunidade.

A segunda camionete utilizada no frustrado ataque à comunidade também falhou. Na terceira se encontravam Evangelista e Angelino, os quais conseguiram evadir-se do local.

Embora todas as provas demonstrassem que o policial morreu durante a prática de milícia armada, transportando a gasolina que seria utilizada para incendiar as casas da comunidade, a reação do aparato estatal voltou-se não contra os criminosos, mas contra as vítimas da tentativa de massacre.

Nos dias seguintes, a comunidade São Francisco passou a sofrer uma intensa repressão policial. Helicópteros sobrevoavam constantemente a região, enquanto equipes da Polícia Militar realizavam incursões armadas na comunidade, fazendo perseguições, dando tiros de fuzil em qualquer um que estivesse pelo caminho.

O ápice dessa perseguição foi o dia 7 de dezembro de 2023. Nesse dia, policiais militares e civis assassinaram dois camponeses, Adonias Fernandes da Silva e Francisco Pereira da Silva Filho, que retornavam de motocicleta de suas roças. 

Logo após a ação, policiais civis e militares passaram a comemorar a operação nas redes sociais. Os corpos dos camponeses foram exibidos publicamente como se representassem troféus de guerra. Ao lado dos camponeses mortos, aparecem os policiais sorrindo. 

As imagens divulgadas pelo investigador da Polícia Civil Oziel Pereira Sales, exibindo os corpos dos camponeses, tornaram-se um dos retratos mais brutais da criminalização dos camponeses. Enquanto o chefe da milícia armada permanecia livre, protegido pela impunidade, eram justamente os camponeses que passavam a ser tratados como inimigos.

Depois do fracasso da operação que terminou com a morte do pistoleiro Sargento Almir e da prisão em flagrante dos 9 policiais que integravam a milícia, as investigações chegaram ao homem apontado como comandante de toda a estrutura criminosa. No dia do frustrado ataque contra o Povoado São Francisco, Angelino e Evangelista fugiram, não sendo, então, presos em flagrante.

Em 27 de novembro de 2023, o judiciário decretou a prisão preventiva de Evangelista e seu cupincha. Angelino foi preso em Gurupi/TO, ao tentar passar pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). Já em abril de 2024, a prisão preventiva foi revogada e ele voltou à liberdade, mediante decisão judicial.

Evangelista sequer chegou a ser preso. Permaneceu foragido por vários meses, até setembro de 2024, quando apareceu no processo alegando problemas de saúde, de tal gravidade inquestionável como: hipertensão, diabetes, náuseas, vômitos e insônia. Foi justamente com base nesse suposto quadro clínico que mais uma vez a impunidade reinou: o judiciário substituiu a prisão preventiva, que ele nunca cumpriu, por prisão domiciliar – a qual também não será cumprida.

Na prática, a decisão acabou funcionando como um verdadeiro salvo-conduto. Em vez de interromper a atuação daquele que as próprias investigações apontavam como o comandante da estrutura criminosa, permitiu que Evangelista permanecesse fora do sistema prisional, dando continuidade aos seus inúmeros crimes contra o povo.

A decisão judicial determina que Evangelista só pode sair de casa, se apresentar necessidade médica. Nunca houve no processo, desde a decisão, nenhuma comunicação de saída, muito menos solicitação de autorização.

Trecho da decisão judicial que concedeu a prisão domiciliar.

Não há nenhuma comunicação por parte da Unidade Prisional que confirme que em algum momento Evangelista tenha feito o uso da tornozeleira eletrônica.

A decisão oficiou o Delegado de Polícia Civil de Barra do Corda/MA, a Polícia Militar e a Unidade Prisional Regional de Barra do Corda/MA para que estes, certificados da decisão, garantissem o efetivo cumprimento.

Trecho da decisão judicial que concedeu a prisão domiciliar.

Logo em seguida, Evangelista compareceu ao Fórum para então apresentar o endereço em que cumpriria a prisão domiciliar. Nisso, ele apresenta um endereço em Palmas/TO.

Mesmo após a juntada do endereço aos autos, o juiz da comarca de Barra do Corda não tomou absolutamente nenhuma medida para que fosse assegurado o cumprimento da prisão domiciliar. Não expediu carta precatória, não oficiou às polícias civis e militares de Palmas/TO, tampouco a UPR. 

O fato é: Evangelista está em completa liberdade. Retornou novamente para o Maranhão, especialmente para a cidade de Fernando Falcão, estando a maior parte do tempo dividido entre ficar na sua fazenda, que é a Fazenda Paulista – fruto máximo de seus crimes nunca punidos e ficar na casa de sua namorada, que é uma adolescente, com a qual comemorou o seu aniversário de 15 anos, ao tempo que também comemorava o aniversário de namoro de 2 anos, ou seja, começaram a se relacionar quando ela ainda tinha 13 anos. Evangelista também tem estado frequentemente em reunião com outros fazendeiros e pistoleiros em Fernando Falcão/MA, em meio a um contexto de dezenas de conflitos fundiários. 

Enquanto o processo judicial registrava que o chefe de milícia estaria recolhido em uma casa em Palmas/TO, as comunidades camponeses, quilombolas e indígenas de Fernando Falcão continuavam relatando sua presença constante exatamente na região onde se concentram alguns dos conflitos fundiários mais explosivos do Maranhão. 

Durante esses dois anos em que ele supostamente estava em prisão domiciliar, Evangelista foi visto circulando pela região em comboio de caminhonetes com homens armados até mesmo de fuzis, realizando rondas nas áreas de conflito. Esses relatos, inclusive, não ficaram restritos às comunidades, foram levados ao conhecimento do judiciário, da Polícia Civil e do Ministério Público, justamente em razão do temor de que a reorganização do grupo antecedesse uma nova ofensiva contra os camponeses, indígenas e quilombolas da região.

Foi nesse cenário que, em julho de 2026, Evangelista requereu a revogação da prisão domiciliar. Esse pedido é um prenúncio de seus planos malignos contra as comunidades. Se a prisão domiciliar já não estava produzindo qualquer efeito concreto que o impedisse de estar em liberdade, retirar as últimas restrições representa um sinal verde para a retomada integral das atividades de sua milícia armada.

Nesse contexto, a Associação Brasileira dos Advogados do Povo (ABRAPO) atuará no próprio processo judicial para buscar impedir que Evangelista seja colocado ainda mais em liberdade, requerendo também sua prisão preventiva. A entidade apresentou pede para que a prisão domiciliar não seja revogada e juntará aos autos elementos e provas que demonstram os riscos concretos de sua soltura, especialmente diante de seu histórico de violência, da atuação de sua milícia armada e das denúncias de que, mesmo sob a suposta prisão domiciliar, ele continua circulando pela região de conflitos fundiários. A iniciativa busca fazer com que o Judiciário considere o perigo que esse chefe de milícia representa e impeça que a liberdade de Evangelista se transforme, mais uma vez, em salvo-conduto para a continuidade da violência contra as comunidades. 

Ao longo de 20 anos, os nomes das vítimas mudam, os municípios mudam e os processos acumulam. O modus operandi, porém, permanece intacto. E enquanto essa estrutura continua funcionando, também continuam sendo produzidos novos conflitos, novas expulsões e novas mortes no cerrado brasileiro. Diante dessa realidade, cabe às organizações camponesas, indígenas e quilombolas, aos movimentos populares, entidades democráticas, estudantes, sindicatos, organizações de direitos humanos, jornalistas independentes e a todos que não aceitam a barbárie denunciar amplamente a atuação dessa estrutura criminosa, romper o silêncio que protege os latifundiários e/ou grileiros, com seus pistoleiros, e fortalecer a solidariedade às comunidades que seguem resistindo. A denúncia é parte da luta contra a impunidade que, há mais de vinte anos, alimenta a violência do latifúndio no MATOPIBA.

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