A sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) deste dia 15 de setembro já é histórica. Nunca antes a falência das carcomidas instituições dovelho Estado burocrático-latifundiário brasileiro apareceu de forma tão aberta no próprio plenário da casta judiciária: dois ministros deixaram a votação, a relatoria foi contestada, integrantes da Corte chamaram uns aos outros de mentirosos, acusaram-se de manipular investigações e agir por interesses político-eleitorais e chegaram aos berros, enquanto discutiam quem poderia investigar, relatar e julgar seus próprios “ilibados” integrantes. Um verdadeiro circo, encerrado sem qualquer decisão sobre Moraes depois que Flávio Dino pediu vista e suspendeu o caso por até 90 dias – prazo que pode empurrar sua retomada para dezembro.
O estopim imediato é o caso Master, cuja teia de relações do banqueiro Daniel Vorcaro alcançou ministros, familiares e o entorno da própria cúpula do STF. Depois de seis horas, a Corte sequer chegara ao mérito sobre a investigação de Alexandre de Moraes; o próprio PGR precisara explicar suas relações com Vorcaro, enquanto Cármen Lúcia, integrante da mesma casta exposta pelo escândalo, admitia que o STF produzira “intranquilidade” e “mal-estar cívico”.
A crise atinge justamente a instituição que, após a desmoralização dos golpistas de alto coturno pelos preparativos para a tentativa de golpe de Estado em 2022, buscou apresentar-se como “a última fronteira”, “garantidora” e “mantenedora” do tão alardeado “Estado democrático de direito”. Agora, diante das câmeras, a liturgia dos “ilibados” desmorona: relações com o grande capital vêm à tona enquanto os próprios ministros se engalfinham pelo controle das investigações e da Corte. A cena põe a nu, como poucas vezes na história recente do País, a crise de legitimidade e a acelerada decomposição das velhas instituições do Estado. Confira abaixo como foi o plenário para o julgamento de Alexandre de Moraes.

5h30 (16/09) – Pedido de vista de Dino foi articulado para retirar crise do calendário eleitoral, diz UOL
O pedido de vista que encerrou sem decisão o julgamento de Alexandre de Moraes já vinha sendo articulado havia dias por Flávio Dino, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e pelo próprio Moraes, segundo ministros e auxiliares ouvidos pelo UOL. A manobra tinha dois objetivos: ganhar tempo para tentar reunir os processos de Moraes e André Mendonça e impedir que a crise continuasse sendo julgada às vésperas da eleição de 4 de outubro. O assunto chegou a ser discutido com Edson Fachin em reuniões e telefonemas. Agora, Dino dispõe de até 90 dias para devolver o processo e não deu qualquer indicação pública de quando o fará.
20h18 – Após campanha tentar abafar a crise, Luiz Inácio muda o tom e pede investigação de todos
Durante o dia, auxiliares da campanha de Luiz Inácio (PT) defendiam evitar que a crise das velhas instituições, concentrada de forma particularmente aguda no STF, dominasse sua comunicação e reconduzir a farsa eleitoral ao terreno mais cômodo do custo de vida, segurança, educação e das demais falsas promessas de campanha. A crise já havia levado o PT a convocar reunião de emergência e a recalibrar a campanha, que vinha sendo “atropelada pelo noticiário negativo”, segundo a CNN.
Depois do espetáculo no plenário, porém, o candidato oportunista mudou publicamente o tom: disse que “não tem trégua” e que é preciso “investigar todos”, perguntou por que Toffoli e Nunes Marques não haviam votado e afirmou que “Vorcaro é uma quadrilha que envolveu muita gente”. Horas depois, acusou André Mendonça de divulgar apenas aquilo que lhe interessava e defendeu a abertura das informações mantidas sob sigilo.
18h09 – Cármen Lúcia admite “intranquilidade” após circo no STF
Depois de horas de bate-boca, acusações de mentira, suspeições e disputa sobre quem poderia investigar quem, Cármen Lúcia afirmou estar em “profunda consternação e tristeza” e admitiu que o próprio STF provocou “um mal-estar cívico em todas as cidadãs e cidadãos brasileiros”. Disse ainda sentir-se “um pouco até envergonhada” e reconheceu: “O Poder Judiciário existe para tranquilizar, geramos intranquilidade”. As lágrimas de crocodilo procuravam colocá-la acima do espetáculo, mesmo que integrando a mesma casta judiciária cuja podridão aparecia diante das câmeras.
Para dimensionar o fiasco, Cármen recuou até setembro de 2013 e evocou o “mal-estar cívico” produzido em torno do chamado “Mensalão”. Naquele escândalo, expressão da corrupção inseparável da administração do velho Estado, o STF ainda podia posar de saneador da podridão. Treze anos depois, o dedo já não apontava para fora: o “mal-estar cívico” saía do próprio plenário.
17h54 – Nova gritaria entre Gilmar e Mendonça leva Dino a pedir vista e interromper julgamento
A sessão voltou a descambar para o bate-boca quando o PGR Paulo Gonet, o “homem dos charutos”, tentava explicar sua relação com Vorcaro – afirmou ter se encontrado uma única vez com o magnata, em 2024, e classificou a conversa como “breve e banal”. André Mendonça interveio; Gilmar Mendes respondeu acusando o colega de “desfaçatez” e de agir com “sentimento policialesco”. Aos gritos, Mendonça exigiu: “Me respeite”. Gilmar retrucou: “Pode chorar, ministro André”, ao que Mendonça respondeu: “Aqui não tem choro”.
Diante da cena, Flávio Dino pediu vista e interrompeu o julgamento. “Eu tenho que interromper esta situação porque nós temos uma questão de ordem, nós não temos condições de deliberar. O clima é daí para pior”, afirmou. Dino ainda censurou Fachin pela condução: “Se Vossa Excelência vai assistir a isto, eu não vou”.
17h28 – Moraes adere à questão de ordem; disputa fica em 4 a 3 antes de Dino interromper sessão
Alexandre de Moraes votou pela reunião de seu caso com o procedimento contra André Mendonça e contra a permanência de Fachin na relatoria, acompanhando Dino, Zanin e a questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes. Moraes argumentou que julgamentos separados criariam “risco concreto de decisões contraditórias” e de “tumulto processual”.
Depois, Mendonça e Luiz Fux acompanharam Fachin pela manutenção dos processos separados e pela permanência do presidente como relator. No momento em que Dino pediu vista, a divisão era, portanto, 4 a 3 pela reunião dos casos, contando Gilmar, autor da questão de ordem: Gilmar, Dino, Zanin e Moraes de um lado; Fachin, Mendonça e Fux do outro.
17h03 – Encontro de “Kássio” teria ocorrido em triplex de R$ 50 milhões ligado a Vorcaro
Novas mensagens obtidas pelo UOL situam o encontro atribuído a um homem identificado como “Kássio” no triplex do Itaim Bibi onde Vorcaro morou por mais de dois anos. Em 28 de fevereiro de 2025, uma mulher perguntou ao banqueiro o endereço do encontro e avisou que “as meninas estão prontas”; o contato identificado como “DV” respondeu com o endereço do imóvel. Dias depois, a mesma interlocutora afirmou que uma amiga “ficou com o Kassio” e cobrou R$ 10 mil. Vorcaro respondeu pedindo “dados e valor”.
O triplex foi comprado em 2022 por R$ 38 milhões pela Super Empreendimentos e Participações e vendido, em outubro de 2025, por R$ 50 milhões. A holding é suspeita de ocultar patrimônio de Vorcaro, comprou ao menos 14 apartamentos de luxo em São Paulo por mais de R$ 300 milhões e era controlada pelo fundo Termópilas, investigado pela PF no caso Master. Mais uma cena de escárnio e da degenerescência moral das classes dominantes reacionárias: luxo obsceno, prostituição e relações promíscuas entre o grande capital e figurões do velho Estado.
16h54 – Moraes tenta restringir julgamento à nulidade e diz que plenário não pode decidir investigação que “não está no processo”
Alexandre de Moraes sustentou que a PET 16.662 não pede formalmente a abertura de investigação contra ele e que o plenário não poderia decidir, de ofício, algo que não consta do processo. Segundo o ministro, haveria apenas uma questão a ser julgada: a nulidade da apuração conduzida sob André Mendonça. A fala desloca novamente o julgamento antes que o STF chegue ao mérito sobre as relações de Moraes com Daniel Vorcaro.
16h29 – Zanin acompanha Dino; Fachin fica em minoria nas questões sobre adiamento e relatoria
Cristiano Zanin acompanhou Flávio Dino e votou para reunir os casos de Alexandre de Moraes e André Mendonça em 23 de setembro e retirar Edson Fachin da relatoria. Fachin havia votado pela continuidade do julgamento nesta terça-feira, pela separação dos processos e por permanecer relator. Assim, entre os votos formalmente proferidos, Dino e Zanin fazem 2 a 1 contra Fachin nos dois pontos; contando Gilmar Mendes, autor da questão de ordem e defensor da mesma solução, a ala favorável ao adiamento reúne três ministros. Ao votar, Dino afirmou que a sucessão de “gravíssimos vícios” pode conduzir o STF a um “caminho de dissolução irreparável” e advertiu que, mantido o rito, haverá “uma crise por semana”.
15h44 – Dino leva ameaça de novas sanções ianques ao próprio plenário
Flávio Dino exibiu durante a sessão a notícia de que “autoridades” do país Estados Unidos (EUA) avaliam novas sanções contra Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e o próprio Dino, classificando a ameaça como “pressão ilegítima”. Segundo o UOL, o resultado do julgamento pesará na decisão do Departamento de Estado ianque sobre reativar a Lei Magnitsky contra Moraes e eventualmente estendê-la aos outros dois ministros; o processo anterior contra Moraes segue considerado válido pelo Tesouro ianque e dependeria essencialmente de autorização política do secretário de Estado Marco Rubio para que as punições fossem retomadas. A chantagem ianque, até então operando nos bastidores, entrou assim diretamente no plenário.
Enquanto Washington aguarda o resultado, o governo oportunista de Luiz Inácio (PT) avalia que uma investigação contra Moraes seria a “melhor resposta” do STF. Segundo relatos de governistas à Folha de S.Paulo, a Corte mostraria estar “cortando na própria carne” e um eventual afastamento do ministro reduziria consideravelmente a margem para uma nova ingerência ianque.
15h35 – Fachin rejeita adiamento e vota por continuar julgamento de Moraes nesta terça-feira
Após a retomada da sessão às 15h31, Edson Fachin abriu a votação das questões de ordem e votou pela continuidade, ainda nesta terça-feira, do julgamento que decidirá se Alexandre de Moraes será investigado no caso Master. O presidente do STF também rejeitou a proposta de reunir o processo ao caso André Mendonça em 23 de setembro e defendeu que os dois permaneçam separados, sustentando que cabe à Presidência da Corte relatar o procedimento envolvendo Moraes.
13h27 – Julgamento é suspenso sem chegar a Moraes; STF precisa primeiro decidir quem pode julgar quem
Fachin suspendeu a sessão para o horário eleitoral gratuito e marcou a retomada para as 14h. Depois de mais de duas horas de sessão, o plenário ainda não havia chegado ao voto sobre a abertura de investigação contra Moraes. Ao retornar, deverá decidir primeiro quatro questões: se suspende o julgamento; se o transfere para 23 de setembro para analisá-lo junto com o caso Mendonça; se inclui no processo todos os magistrados mencionados nos documentos do Master; e se sorteia um novo relator.
A primeira metade da sessão destinada a esclarecer as relações entre um ministro e Daniel Vorcaro terminou, portanto, sem esclarecer essas relações. Dois ministros deixaram a votação, a Presidência teve sua própria relatoria contestada, três integrantes trocaram acusações sobre manipulação política das investigações e o STF passou a discutir se precisa ampliar o caso para alcançar seus outros membros. A sessão histórica da casta judiciária chegou ao intervalo tentando decidir, antes de tudo, quem ainda pode julgar quem.
13h03 – Gilmar chama Mendonça de “pixuleco” e “boneco eleitoral” e acusa seleção dos alvos
Gilmar prosseguiu acusando Mendonça de produzir um recorte destinado a atingir Moraes e ignorar os documentos que alcançavam outros gabinetes. Chamou o colega de “pixuleco, boneco eleitoral”, numa referência ao apoio recebido por Mendonça no ato bolsonarista de 7 de setembro. O decano sustentou que a escolha do que investigar já constituía um julgamento prévio sobre quem deveria ou não ser atingido.
12h54 – Gilmar acusa Mendonça de interferência eleitoral e compara condução do caso a “jogo de máfia”
Gilmar Mendes acusou André Mendonça de conduzir seletivamente a investigação e de escolher o momento de divulgação do material para interferir nas eleições. Apontou que documentos envolvendo outros integrantes da Corte não haviam recebido o mesmo tratamento e classificou o procedimento como “jogo de máfia”. Em seguida disparou: “Até a máfia tem ética”. Mendonça respondeu: “Não seja leviano”.
12h41 – “Você mente”: Moraes e Mendonça transformam plenário em troca direta de acusações
Alexandre de Moraes afirmou possuir testemunhas de que André Mendonça teria pedido, em reunião com integrantes da PF, que seu nome fosse incluído nas investigações. Acusou o colega de estar “a serviço de um grupo político” ligado ao golpismo. Mendonça interrompeu: “mentira, mentira, mentira” e “você mente”. Quando Moraes afirmou possuir testemunhas, ouviu de volta: “Pode chamar, eles vão mentir”.
O STF deixou, nesse momento, de discutir apenas a validade de um relatório policial. Dois de seus ministros passaram a acusar-se mutuamente, em público, de direcionar investigações e mentir sobre elas; um deles é o investigado, o outro comandava a apuração.
12h41 – Fux acusa PF de criar “agência própria” contra ministros; crise expõe engrenagem entre Moraes e cúpula policial
Luiz Fux afirmou nunca ter visto, em 16 anos de Supremo, a Polícia Federal “peitar” ministros da Corte e acusou a corporação de criar uma “agência própria” de “arapongagem contra ministro”. André Mendonça completou: “Temos hoje uma PF paralela. Uma PF paralela com monitoramento de ministros”. A acusação atinge justamente a relação estreitada entre STF e PF sob o Inquérito 4.781, das fake news, em que diligências e relatórios policiais passaram a subsidiar sucessivas decisões monocráticas de Alexandre de Moraes.
Foi por determinação do próprio Moraes, dentro desse inquérito, que a PF produziu o relatório posteriormente usado pelo ministro para pedir providências contra Mendonça. Ao mesmo tempo, a corporação mantinha desde novembro de 2025 o celular de Daniel Vorcaro, que continha as mensagens atribuídas a Moraes; somente após ordem de Mendonça, em agosto, recebeu 72 horas para cruzar os dados e identificar os interlocutores. Meses antes, a PF recusara propostas de delação de Vorcaro alegando que traziam informações já conhecidas ou parcialmente conhecidas e poucos elementos novos.
12h40 – Toffoli também sai da votação; dois ministros já não podem julgar os próprios pares
Pouco depois de Nunes Marques deixar o julgamento, Dias Toffoli anunciou suspeição por “foro íntimo”. Toffoli já havia deixado a relatoria do caso Master em fevereiro, depois de virem a público relações envolvendo seu entorno e o banco. Disse agora que se afastava para preservar o “bom andamento” dos trabalhos, embora sustentasse que não estivesse juridicamente impedido. Com isso, dois integrantes da Corte deixaram de votar na sessão destinada a decidir se um terceiro integrante seria investigado.
12h36 – Gilmar diz que afastar chefe da PF é como destituir comandante do Exército; Fux recorda sua própria defesa de afastamento
Gilmar Mendes atacou a decisão de André Mendonça que retirou Andrei Rodrigues da direção da PF. Disse que não se pode afastar dessa maneira o chefe de uma corporação armada e hierarquizada e comparou a medida à destituição do comandante do Exército reacionário ou do “presidente da NASA” (referindo-se à agência aeroespacial ianque). Segundo Gilmar, o afastamento submetera a Polícia Federal a um “vexame”.
Fux respondeu recordando um episódio pouco conveniente à indignação do decano. Em 2008, quando uma conversa de Gilmar com o então senador Demóstenes Torres foi grampeada e vazou à imprensa, o próprio ministro pediu a saída de Paulo Lacerda, então diretor-geral da Abin, embora fosse delegado e ex-diretor-geral da própria PF.
12h15 – Dino admite “momento mais corrupto da história do Judiciário” e acusa Fachin de abrir caminho para tirania nos tribunais
Ao contestar a decisão de Edson Fachin de retirar de André Mendonça e assumir para si a relatoria dos processos, Flávio Dino afirmou que aceitar a chamada avocatória abriria uma “avenida de autoritarismo, de despotismo, de tirania nos tribunais”. Foi então que o próprio ministro admitiu: “É o momento mais corrupto da história do Poder Judiciário no Brasil”. E completou: “Por que se fala tanto de corrupção no Brasil e a corrupção só aumenta? […] Na política também”. Gilmar Mendes, por sua vez, também contestou Fachin e defendeu que a relatoria fosse novamente sorteada.
A admissão é reveladora, embora Dino trate a corrupção como um vício a ser corrigido pelo colegiado e pela lei. O caso Master mostra coisa mais profunda: Vorcaro encontrou trânsito entre ministros, parlamentares e órgãos do velho Estado porque os crimes e a corrupção do mundo político são também meios pelos quais banqueiros e o grande capital exercem seu poder sobre as velhas instituições.
11h53 – Fachin repreende Dino sobre regimento e, minutos depois, recua diante do próprio regimento
Em meio à discussão, Fachin repreendeu Flávio Dino por pedir um aparte diretamente a Dias Toffoli. “O senhor precisa pedir a palavra à Presidência”, afirmou. Dino respondeu que o pedido era dirigido ao ministro que estava com a palavra e lembrou ao presidente seu próprio apelo por “ponderação” e “equilíbrio”. Fachin insistiu, mas, após ler em plenário o artigo 133 do Regimento Interno, reconheceu que o aparte pode ser autorizado pelo presidente ou pelo ministro que está falando. “É o entendimento que sempre houve nessa Corte”, encerrou Dino.
11h31 – Presidente do TSE abandona julgamento porque caso pode atingir a própria eleição
Kassio Nunes Marques declarou-se impedido de votar. O ministro negou relação irregular com Vorcaro e disse que seu filho jamais trabalhou para o Master, mas afirmou que, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não se sentia confortável em participar de um julgamento que “pode também impactar no cenário político eleitoral”. Nos bastidores, técnicos do TSE haviam advertido Nunes Marques de que votar no STF poderia abrir margem para seu impedimento posterior em processos eleitorais relacionados aos desdobramentos do caso.
O episódio expõe a própria farsa eleitoral: o presidente do tribunal encarregado de garantir sua proclamada “lisura” abandona uma votação porque a crise do STF pode contaminar a disputa que ele próprio dirige. A 19 dias do primeiro turno, a engrenagem destinada a legitimar perante o povo as decisões das classes dominantes aparece atravessada pela mesma crise e pelos mesmos interesses do grande capital que o caso Master trouxe à superfície.
10h – Fachin admite “período difícil” da história do STF e pede preservação da Corte
Edson Fachin abriu a sessão afirmando que aquele “não é um dia comum” e reconhecendo que o Supremo atravessa um “período difícil de sua história” e um “momento de tensão institucional”. Pediu aos ministros “sensatez, decoro e serenidade” e afirmou que a tarefa do colegiado era preservar “a independência, a colegialidade, a autoridade e a fidelidade à Constituição” da Corte. Um “período difícil”, de fato, sobretudo para as classes dominantes reacionárias e para os “mantenedores” da velha ordem de exploração e opressão.
Antes das 10h – STF fecha Praça, mobiliza aparato policial e restringe manifestações antes do julgamento
O entorno do Supremo amanheceu sob forte aparato policial. A Praça dos Três Poderes foi fechada, manifestações foram impedidas de chegar à frente da Corte e linhas de contenção com gradis e policiais foram montadas. A PM empregou cavalaria e drones com câmeras térmicas; equipamentos particulares sem autorização foram proibidos e poderiam ser abatidos. O esquema, preparado desde a noite anterior, mobilizou estruturas de segurança e inteligência do Distrito Federal, do STF e dos demais “Poderes”.
9h57 – Mensagens citam encontro com “Kassio” e operador pergunta se viagem seria faturada a Vorcaro
Outra conversa extraída do celular de Vorcaro mostra uma mulher avisando ao banqueiro que “as meninas estão prontas”. Uma semana depois, ela disse que uma amiga “ficou com o kassio”, cobrou R$ 10 mil pelo encontro e recebeu de Vorcaro o pedido dos dados para pagamento. O contexto das mensagens aponta para Nunes Marques, que negou ter participado do encontro. Nada edificante para o ministro que, em sua sabatina ao Senado, invocou a Bíblia e prometeu defender “a família” e os “valores morais e cívicos brasileiros”.
Em outra sequência, um operador de viagens encaminhou a Vorcaro um pedido atribuído ao contato “Ministro Kassio” para organizar dez dias de viagem para cinco pessoas e perguntou ao banqueiro se deveria cobrar o ministro ou “faturar pra vc”. Os registros divulgados não comprovam que Vorcaro tenha pago a viagem, mas completam o retrato nada santo da intimidade entre o banqueiro e o entorno de um dos “ilibados” senhores de toga.
9h48 – Novas mensagens levam Vorcaro ao entorno de Fux, Nunes Marques e Mendonça
O material distribuído aos gabinetes mostrou que a teia do banqueiro não terminava em Moraes. Mensagens registram contatos e encontros entre Vorcaro e Rodrigo Fux, filho de Luiz Fux; referências a pagamentos e viagens no entorno de Nunes Marques; e a atuação de Ciro Soares, advogado que trabalhou pela indicação de André Mendonça ao STF e posteriormente levou Vorcaro ao escritório do ministro. Depois de Mendonça conceder habeas corpus ao então governador Cláudio Castro, Soares escreveu ao banqueiro: “Ganhamos”.
Os registros são fragmentários e não demonstram, sozinhos, interferência em julgamentos ou pagamentos aos familiares dos ministros. Demonstram algo menos especulativo e bastante eloquente: enquanto a Corte se preparava para decidir se um de seus membros deveria ser investigado por suas relações com Vorcaro, o celular do banqueiro seguia abrindo portas para o círculo de outros integrantes do mesmo tribunal.
9h01 – Celular de Vorcaro cita R$ 500 mil mensais junto ao nome do filho de Nunes Marques
Conversas extraídas do telefone de Daniel Vorcaro mostram o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, enviando ao banqueiro um arquivo com o nome e o telefone de Kevin Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques, acompanhado da pergunta: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?”. Em outra troca, Rennó voltou a enviar a planilha e escreveu que o valor “foi pago”. Kevin nega ter trabalhado para o Master ou recebido dinheiro de Vorcaro; reconhece ter recebido R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária, empresa que, por sua vez, recebeu R$ 6,6 milhões do banco.
As mesmas mensagens registram a comemoração de uma vitória judicial da destilaria Alcídia, causa com repercussão bilionária para uma carteira de precatórios do Master. Nunes Marques participara do julgamento e pedira vista antes de sua conclusão.
7h32 – Moraes pede fim da investigação e apresenta caso Master como nova fase dos preparativos golpistas
Horas antes da sessão, Alexandre de Moraes pediu que o STF acolhesse a tese da Procuradoria-Geral da República, declarasse nula a investigação conduzida por André Mendonça e extinguisse a Petição 16.662. Em manifestação de 44 páginas, chamou a apuração de “farsa” e “vingança” político-eleitoral. Moraes afirmou ainda que a tentativa de golpe “não se encerrou em 8/1/2023, simplesmente mudou seu modus operandi”, atribuindo a investigação que o alcança a aliados dos condenados pelos preparativos para a tentativa de golpe de Estado em 2022.
Há verdade na afirmação de que o processo golpista não terminou em 8 de janeiro, mas não na conclusão interessada que Moraes extrai dela para transformar a investigação sobre suas próprias relações com Vorcaro em continuação desse processo. O 8 de janeiro marcou, isto sim, o esgotamento da via de intervenção militar passo a passo da ofensiva contrarrevolucionária preventiva desatada anos antes pelo Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) e que passou a um período de baixa latência. Desmoralizado, o ACFA promove agora seu ajuste tático, buscando limpar sua imagem, manter latente a tutela sobre as instituições e recuperar protagonismo pela militarização da segurança pública e pela guerra ao “narcoterrorismo”.
