Dia 9 de setembro de 2026: completam-se 1.068 dias desde o Dilúvio de Al-Aqsa. Quando este boletim vai ao ar no Brasil, na manhã de 10 de setembro, no horário de Brasília (GMT-3), a Palestina já adentra a noite do mesmo dia, sob o fuso de Gaza e Al-Quds (GMT+3).
Esta edição do Plantão Palestina destaca que a ofensiva anunciada contra a Cisjordânia no fim da semana anterior ganhou forma já nos dois dias seguintes. Enquanto Smotrich reivindicava diretamente as áreas administradas pelos palestinos e previa uma operação para “desarmar todos os árabes”, tropas cercavam casas, impunham toques de recolher, prendiam dezenas de moradores e destruíam estruturas agrícolas. Em Gaza, por sua vez, a ocupação avançou para oeste da chamada “linha amarela” e intensificou ataques contra residências, tendas e veículos mesmo sob o cessar-fogo.
No confronto com o Irã, Teerã capturou um avançado veículo subaquático não tripulado ianque e, horas antes, derrubara um MQ-1 sobre Bandar Abbas; na madrugada seguinte, lançou mísseis contra uma base utilizada por caças do país Estados Unidos (EUA) na Jordânia e contra dois destróieres. Ao mesmo tempo, fontes militares e de inteligência ouvidas pela CNN revelaram que Washington já estuda reduzir tropas, deixar de reconstruir algumas bases danificadas e transferir outras instalações para o subsolo.
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Smotrich reivindica áreas A e B enquanto tropas cercam aldeias e matam combatente em Aqraba
“Oslo é nulo e sem efeito. As áreas A e B também são nossas”, declarou Bezalel Smotrich em fala repercutida em 8 de setembro. O ministro das Finanças sionista, que há anos concentra sua atuação sobre a expansão colonial na área C – cerca de 60% da Cisjordânia –, avançou sobre as duas zonas restantes, onde se encontram as principais cidades e concentrações populacionais palestinas. Também defendeu o desmantelamento da Autoridade Palestina e afirmou que “não haverá como evitar” uma guerra na qual a entidade pretende “desarmar todos os árabes” da Cisjordânia.
Enquanto Smotrich falava, o Exército já ampliava as operações. Em Aqraba, ao sul de Nablus, tropas cercaram durante horas uma residência onde estava Abdul Karim Bani Jaber, de 28 anos. Depois que sua família foi retirada, os sionistas ordenaram que ele se rendesse e ameaçaram explodir a casa; Bani Jaber recusou-se, respondeu com tiros e manteve o confronto até que o imóvel fosse atingido por projéteis e parcialmente destruído. Seu corpo foi levado pela ocupação.
Na mesma madrugada, mais de 25 palestinos foram detidos em Qabalan, ao passo que Anata e o campo de refugiados de Shuafat, em Al-Quds ocupada, ficaram sob toque de recolher. Bulldozers destruíram tubulações de água em Anata, ambulâncias tiveram a circulação impedida e uma residência foi transformada em centro de interrogatório. Em 9 de setembro, máquinas da ocupação voltaram-se para Arrana, a nordeste de Jenin, onde cerca de 16 lojas, estufas e instalações agrícolas haviam recebido ordens de demolição; naquele mesmo dia, cerca de 30 moradores de Beit Iksa completavam a segunda semana impedidos pelo Exército de regressar às próprias casas.
Somente em agosto, colonos realizaram 628 ataques na Cisjordânia: 157 na região de Ramallah e Al-Bireh, 137 em Nablus e 120 em Al-Khalil. Já o número de palestinos assassinados por tropas e colonos desde o início de 2026 chegou a 100 em 8 de setembro.

Três ameaças em uma hora: ocupação bombardeia Al-Shati, Nuseirat e Khan Younis
Em Gaza, a escalada tornou-se particularmente concentrada durante a quarta-feira, dia 9. Em apenas uma hora, o Exército emitiu ao menos três ameaças de bombardeio e atacou diferentes partes da Faixa: um edifício residencial no campo de Al-Shati, no oeste da Cidade de Gaza; um quarteirão de residências em Nuseirat, no centro; e uma casa em Khan Younis, no Sul. Moradores deixaram às pressas os imóveis após os avisos, enquanto vídeos mostraram grandes explosões e edifícios em chamas.
Durante a mesma sequência, um drone atingiu uma motocicleta na Rua Al-Rashid, nas proximidades de Sheikh Ajlin. O ataque matou o ex-prisioneiro palestino Farah Ahmad Hamed, que havia sido condenado a sete prisões perpétuas, libertado na troca de prisioneiros de 2011 e deportado pela ocupação para Gaza. Em outro ataque, uma residência no mercado de Nuseirat foi bombardeada e ao menos seis palestinos ficaram feridos.
Os golpes sucederam uma terça-feira em que um palestino morreu e outros 15 ficaram feridos; 11 das vítimas foram atingidas quando um drone atacou uma tenda de deslocados em Nuseirat. Ao mesmo tempo, veículos militares e um bulldozer atravessaram dezenas de metros para oeste da chamada “linha amarela”, a leste de Deir al-Balah, abrindo fogo, disparando artilharia e revolvendo o terreno.
A entrada de alimentos seguia submetida ao mesmo cerco. Segundo o Escritório de Imprensa do Governo em Gaza, em 330 dias de cessar-fogo deveriam ter entrado 198 mil caminhões de alimentos e ajuda; entraram 69.387 – cerca de 35% do previsto. Mais de 95% da população dependia de ajuda e mais de 90% já havia perdido poder aquisitivo suficiente para comprar os alimentos necessários.
Até o fim do dia 9, o Ministério da Saúde contabilizava 73.669 palestinos assassinados e 174.652 feridos desde 7 de outubro de 2023. Destes, 1.358 foram mortos já depois da entrada em vigor do cessar-fogo. Na véspera, o Ministério havia anunciado ainda 5 mil amputações, 300 lesões neurológicas ou de coluna e cerca de 10 mil pessoas necessitando de reabilitação intensiva e prolongada.

Irã captura drone submarino ianque; EUA estuda reduzir tropas e abandonar bases atingidas
Na entrada do Estreito de Ormuz, a Marinha do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (CGRI) anunciou ter capturado, durante uma operação de inteligência realizada na madrugada de 8 de setembro, um avançado veículo subaquático não tripulado do EUA. A plataforma foi identificada pela imprensa iraniana como um Dive-LD, fabricado pela empresa ianque Anduril Industries: mede cerca de 5,8 metros, pesa quase três toneladas, pode operar autonomamente durante dez dias e alcançar profundidades próximas de seis mil metros. Entre suas possíveis funções estão reconhecimento, inteligência, mapeamento submarino e guerra de minas.
Horas antes, o Exército iraniano havia anunciado a derrubada de outro drone ianque, um MQ-1, sobre Bandar Abbas. Já na madrugada seguinte, os Guardas lançaram mísseis balísticos contra a base aérea de Al-Azraq, na Jordânia, mirando hangares e instalações utilizados na manutenção e preparação de caças F-35, F-16 e F-15. A Jordânia confirmou que 20 mísseis foram disparados contra seu território e afirmou ter interceptado a maioria. Teerã anunciou separadamente ataques contra os destróieres ianques DDG-119 e DDG-53; Washington não confirmou os danos reivindicados pelos iranianos.
Enquanto esses ataques se sucediam, fontes militares e de inteligência estadunidenses relataram à CNN que o Pentágono já discute reduzir tropas e instalações permanentes no Oeste da Ásia quando a guerra terminar. Segundo seis fontes ouvidas pela emissora, ataques iranianos produziram danos importantes em instalações do EUA no Bahrein, Catar, Arábia Saudita e Kuwait; um posto da CIA em Riad foi descrito por um funcionário estadunidense como “efetivamente destruído”.
Algumas bases severamente danificadas podem não ser reconstruídas, ao passo que planejadores analisam transferir instalações para estruturas subterrâneas. Washington mantém cerca de 50 mil militares, dois porta-aviões e mais de uma dezena de destróieres na região. Até a sede tradicional da Quinta Frota, no Bahrein, foi atingida pela mudança: o almirante Daryl Caudle afirmou que o pessoal estadunidense retirado de lá não voltará tão cedo. “Não vamos voltar para lá tão cedo”, declarou.

‘Se não sair com um rim arrebentado, não entra’: mensagens de carcereiros registram tortura até a morte
Uma investigação do jornal sionista Haaretz, publicada em 8 de setembro, abriu os telefones dos próprios carcereiros de Ketziot. Em novembro de 2023, o prisioneiro palestino Thaer Abu Asab perguntou a um guarda se havia um cessar-fogo; integrantes da unidade repressiva Keter entraram então em sua cela gritando “sem cessar-fogo” e espancaram os presos. Abu Asab recebeu os golpes mais violentos, perdeu a consciência e morreu naquela noite, depois de sofrer uma lesão cardíaca provocada pelo espancamento.
Enquanto médicos tentavam reanimá-lo, uma carcereira escreveu ao companheiro que esperava que ele morresse. Outra mensagem dizia: “Boom, prisioneiro morto.” Nas conversas recolhidas pelos investigadores, Oshrit Eliga descreveu os espancamentos como rotina e estabeleceu seu próprio critério para a chegada de novos palestinos: se o preso não terminasse “com um rim arrebentado”, ela não o deixaria entrar na ala. Em outra ocasião, contou que os guardas ficaram tão cansados de bater que o comandante retirou o cinto e continuou as agressões.
Mais de 20 carcereiros foram interrogados. Nenhum havia comunicado irregularidade naquela noite. Segundo a organização sionista Breaking the Silence, mais de cem palestinos entraram vivos em custódia da entidade desde outubro de 2023 e saíram em sacos para cadáveres.

Outras frentes
Iêmen: Forças de Sanaa entraram em Mocha, importante cidade portuária do Mar Vermelho, depois de tomar Al-Wazi’iyah, Al-Khokha, Hays, a Base Khalid e Jabal al-Nar – sede do comando das tropas adversárias na costa ocidental. A AFP, a AP e a Reuters noticiaram a tomada da cidade; a Al Mayadeen registrava, naquele momento, que Sanaa ainda não havia emitido um comunicado oficial confirmando o controle integral.
Testemunhas disseram à AFP ter visto os combatentes entrarem na cidade entoando “morte à América, morte a Israel”. Mocha fica a cerca de 75 quilômetros de Bab el-Mandeb e a poucos quilômetros das rotas internacionais que seguem pelo Mar Vermelho em direção ao Canal de Suez. O mando das forças apoiadas pela Arábia Saudita anunciou sua retirada para o sul da cidade e a criação de um centro de comando alternativo.
Reino Unido: Londres anunciou em 8 de setembro que proibirá a importação de mercadorias produzidas nas colônias da Cisjordânia, ampliará sanções contra colonos, empresas e financiadores da expansão e recusará novas licenças de exportação que contribuam materialmente para a ocupação. A legislação, contudo, deve levar de seis a nove meses para entrar em vigor; Miliband fez questão de separar as colônias da entidade sionista e manteve sua oposição ao boicote geral promovido pelo movimento BDS.
Nos bastidores, diplomatas britânicos asseguraram à administração Trump que a medida era “simbólica” e não alteraria as relações comerciais e militares mais amplas com a entidade. No dia 9, fontes ianques confirmaram que Trump havia sido avisado antecipadamente pelo primeiro-ministro Andy Burnham e não tentara impedir o anúncio.
