Dia 23 de setembro de 2026: completam-se 1.082 dias desde o Dilúvio de Al-Aqsa. Quando este boletim vai ao ar no Brasil, na manhã de 25 de setembro, no horário de Brasília (GMT-3), a Palestina já adentra a noite do mesmo dia, sob o fuso de Gaza e Al-Quds (GMT+3).
Esta edição do Plantão Palestina destaca que, ao longo desses 12 dias, a frente iemenita passou por uma nova escalada. As forças de Sanaa ampliaram o território sob seu controle na costa do Mar Vermelho, enquanto a Arábia Saudita intensificou os bombardeios e passou a buscar maior apoio militar externo. Depois dos combates por Mocha e Bab el-Mandeb, o Ansarallah tomou as ilhas Hanish; dias mais tarde, reivindicou a derrubada de um caça F-15 saudita sobre Marib e ataques de grande escala contra instalações militares dentro da própria Arábia Saudita. A ONU registrava mais de 100 mil deslocados pela nova escalada até meados do mês.
Na guerra contra o Irã, os números divulgados dentro do próprio aparato militar ianque também se acumularam. Um relatório do inspetor-geral do Pentágono reconheceu que o consumo de armamentos criou “escassez estratégica” nos estoques e gargalos nas cadeias de produção. Poucos dias depois, funcionários do EUA informaram que ao menos 22 militares haviam morrido durante o conflito – quatro a mais que o número então divulgado oficialmente – e mais de 820 haviam sido feridos. No início de setembro, o custo estimado pelo Comando Central já alcançava 43,6 bilhões dólares.
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Ansarallah amplia posições no Mar Vermelho e reivindica ataques contra Riad
Nos primeiros dias do período, as forças ligadas ao Ansarallah consolidaram o avanço iniciado anteriormente ao longo da costa ocidental do Iêmen. Depois de Mocha e Mayyun, chegaram às ilhas Hanish, outro conjunto estratégico no Mar Vermelho. Ao mesmo tempo, os ataques sauditas prosseguiram sobre Taiz, Hajjah e outras regiões; o levantamento registrava mais de 500 mortos e quase 78 mil deslocados durante uma semana de escalada.
Em 14 de setembro, o Ansarallah anunciou uma de suas maiores operações daquela etapa da guerra: dezenas de mísseis balísticos e drones foram lançados contra a Base Aérea King Khalid, em Khamis Mushait, no Sul saudita. Segundo o porta-voz militar Yahya Saree, hangares, radares, pistas e depósitos de munição estavam entre os alvos. O movimento disse que a operação respondia a mais de 300 ataques aéreos sauditas realizados nos cinco dias anteriores.
Nos dias seguintes, as forças de Sanaa anunciaram ter abatido um caça F-15 saudita sobre Marib. A Arábia Saudita, por sua vez, acusou o Iêmen de tentar atacar Meca com drones. O Ansarallah rejeitou a denúncia; Abdul-Malik al-Houthi chamou-a de “mentira do século” e afirmou que as forças iemenitas não atacariam os locais sagrados islâmicos. Na mesma jornada, Saree informou que caças F-15 sauditas haviam realizado 37 ataques em 24 horas contra Taiz e Hajjah.
A confrontação chegou depois à capital saudita. Entre 19 e 20 de setembro, sirenes soaram em Riad e em outras cidades, e o Ansarallah reivindicou ataques com mísseis contra a capital. Os mercados do Golfo recuaram após a ofensiva. Nesse momento, estimativas da ONU já colocavam em cerca de 130 mil o número de deslocados pela escalada no Iêmen.
A escalada levou Riad a ampliar a busca por apoio externo. O governo saudita procurou primeiro Washington e, depois, Londres. Em 21 de setembro, circulou a informação de que Donald Trump havia cancelado de última hora ataques planejados diretamente contra posições do Ansarallah. Dois dias depois, o material reunido registra que o Reino Unido confirmou fornecer reabastecimento aéreo a caças sauditas empregados na campanha. As forças iemenitas anunciaram ainda a tomada do Monte Qarfan, em Taiz, posição elevada sobre a região de Bab el-Mandeb.
Os bombardeios sauditas continuaram. Em 22 de setembro, ataques contra Mocha mataram ao menos seis pessoas e deixaram outras feridas, entre mulheres e crianças; outro ataque contra uma prisão em Al-Hazm matou nove detentos, segundo autoridades iemenitas citadas no levantamento.
Pentágono admite ‘escassez estratégica’ de munições; custo da guerra chega a 43,6 bilhões de dólares
Em 15 de setembro, o inspetor-geral do Pentágono divulgou sua primeira avaliação oficial sobre os efeitos da guerra contra o Irã nos estoques militares ianque. O documento reconheceu escassez de munições e gargalos nas cadeias de produção e reposição, contradizendo declarações anteriores de Trump e do secretário de Defesa, Pete Hegseth, de que os estoques permaneceriam abundantes.
Somente até 30 de junho, o relatório calculou gastos de 33,4 bilhões de dólares: 22,3 bilhões em munições disparadas, 3,7 bilhões em equipamentos perdidos e 7,4 bilhões em outras despesas. O documento confirmou ainda quatro caças F-15E destruídos ou gravemente danificados, um F-35A, um A-10, 12 aviões-tanque KC-135, outras nove aeronaves e mais de 30 drones MQ-9 perdidos até junho. Também confirmou que o Irã havia atacado o principal centro logístico regional da Marinha do EUA, no Bahrein.
A conta continuou crescendo. Em 19 de setembro, dados internos citados pelo Washington Post elevaram o custo da guerra para 43,6 bilhões até o início do mês de dólares, dos quais aproximadamente 28 bilhões de dólares correspondiam a munições empregadas. O cálculo ainda não incluía a reconstrução das bases atingidas. Mais de 820 militares ianques haviam sido feridos. Cinco funcionários disseram que ao menos 22 militares morreram desde 28 de fevereiro; um sexto elevou o balanço a 23, enquanto o registro público do Pentágono ainda mostrava 18.
Em 17 de setembro, uma missão independente de apuração da ONU afirmou haver “motivos razoáveis” para acreditar que o EUA cometeu crimes de guerra durante ataques ao Irã. Washington rejeitou a conclusão e, nos dias seguintes, anunciou sua saída do Conselho de Direitos Humanos da ONU.
Ao mesmo tempo, a confrontação continuou alternando ameaças militares e negociações. Trump falou em uma “grande decisão” sobre novos ataques de grande escala; Teerã afirmou ter recebido sinais de que Washington preparava outra ofensiva e prometeu responder sem limitações. Já durante a Assembleia Geral da ONU, o governo iraniano apresentou uma via para reabrir Ormuz: retirada do bloqueio naval sobre seus portos, liberação imediata de recursos iranianos congelados e encerramento da guerra nas demais frentes regionais. Abbas Araghchi reuniu-se por cerca de três horas com Steve Witkoff e Jared Kushner, sob mediação do Catar.
Gaza: 21 morrem em prédio bombardeado que desaba; hospitais suspendem serviços por falta de combustível
Em Gaza, o cessar-fogo não interrompeu os ataques nem as mortes. Em 15 de setembro, ataques israelenses mataram cinco palestinos; nos dias seguintes, disparos, drones e artilharia continuaram atingindo diferentes áreas da Faixa. Até 22 de setembro, o Ministério da Saúde registrava 1.394 palestinos mortos e 4.839 feridos desde a entrada em vigor do cessar-fogo, em outubro de 2025.
Uma das consequências mais graves dos bombardeios anteriores apareceu em 16 de setembro, quando o edifício Al-Saada, que abrigava famílias deslocadas, desabou na Cidade de Gaza. O balanço chegou a 21 mortos, entre eles 12 crianças, cinco mulheres e dois idosos; mais de cem pessoas chegaram a ser dadas como desaparecidas sob os escombros. Equipes de resgate advertiram depois que mais de 2 mil edifícios gravemente danificados continuavam sendo usados como abrigo e poderiam desabar.
O problema persistiu até o fim do período. Em 23 de setembro, o Comitê de Reconstrução alertou que famílias permaneciam dentro de 255 edifícios parcialmente destruídos, rachados ou inclinados, com risco de colapso. Mais de 60% das tendas utilizadas por deslocados também estavam deterioradas às vésperas do inverno.
A infraestrutura hospitalar entrou novamente em colapso por falta de combustível. Unidades suspenderam serviços, enquanto restrições continuavam impedindo a entrada regular de medicamentos, combustível, peças e equipamentos pesados necessários para retirar corpos dos escombros e reparar os sistemas de água. A Defesa Civil estimava cerca de 8 mil corpos ainda soterrados, cuja recuperação poderia levar anos com os meios disponíveis.
No dia 19, um ataque de drone matou Basir al-Bursh, filho mais velho do diretor-geral do Ministério da Saúde de Gaza, Munir al-Bursh, nas proximidades de Jabaliya. Basir ajudava deslocados a encher recipientes de água quando foi atingido. A mesma família já havia perdido Jinan al-Bursh, de 13 anos, morta num ataque em dezembro de 2023.
B’Tselem: 75 comunidades expulsas e postos coloniais controlam 18% da Cisjordânia
Na Cisjordânia, um levantamento divulgado pela organização israelense B’Tselem em 14 de setembro reuniu numa única série de dados a expansão dos assentamentos, a violência de colonos, as operações militares e o deslocamento de comunidades palestinas.
Segundo a organização, 75 comunidades palestinas haviam sido expulsas, enquanto postos e fazendas de colonos passaram a controlar cerca de 1,07 milhão de dunams – 1.070 km², equivalentes a 18% da Cisjordânia. Cerca de 33 mil palestinos também haviam sido deslocados dos campos de refugiados do Norte. Desde a formação do atual governo Netanyahu, no fim de 2022, foram aprovados 104 novos assentamentos.
A violência dos colonos acompanhou a expansão territorial. Entre janeiro e agosto de 2026, foram documentados 4.914 ataques, dos quais 628 somente em agosto. Nesse último mês, 164 palestinos foram feridos e 21.508 árvores foram danificadas ou arrancadas, incluindo 19.375 oliveiras.
Em 21 de setembro, o governo israelense avançou ainda com 3.401 novas unidades do projeto E1, que conecta assentamentos a leste de Al-Quds e aprofunda a fragmentação territorial da Cisjordânia. No mesmo período, Netanyahu e Itamar Ben-Gvir participaram de incursões no complexo de Al-Aqsa durante o Yom Kippur, enquanto o Exército intensificava prisões, interrogatórios de campo e a instalação de portões de ferro em acessos a cidades e aldeias palestinas.
A atividade armada palestina também prosseguiu. Em 19 de setembro, um ataque a tiros próximo ao assentamento de Halamish matou um colono. Já no dia 23, uma nova ação armada no posto de Beit Ur, a oeste de Ramallah, foi reivindicada e saudada por organizações palestinas.
Ocupação incendeia hospital no Sul do Líbano; explosivo fere militares israelenses
No Sul do Líbano, ataques, incursões e demolições prosseguiram apesar do acordo firmado em junho. Em 18 de setembro, tropas israelenses incendiaram o hospital público de Mays al-Jabal. No mesmo dia, artilharia atingiu diferentes localidades e dois civis foram feridos em Shaqra. Tropas também entraram em Deir Mimas, revistaram casas e lançaram granadas de efeito moral.
No dia seguinte, aviões atacaram Nabatieh al-Fawqa e chegaram a atingir a rota de equipes de ambulância que se aproximavam do local. Houve bombardeios, incêndios de casas e explosões provocadas deliberadamente em diferentes cidades do Sul. Em Wadi al-Salouqi, dois reservistas israelenses ficaram feridos quando um veículo de engenharia atingiu um explosivo dentro da área ocupada pelas tropas israelenses, onde os sionistas afirmam ser um trabalho do Hezbollah.
Os ataques seguiram até os dias 22 e 23, com artilharia, demolições e operações de bulldozers em Zibqine, Haddatha, Baraachit, Haris, Al-Mansouri e outras localidades. O acordo que previa retirada gradual das forças israelenses não impediu a manutenção de posições militares nem a continuidade dos ataques.
Outras frentes
Boicote cultural: a retirada de Macklemore da turnê de Ed Sheeran, depois de pressões de proprietários de estádios e grupos pró-Israel, produziu novos cancelamentos e manifestações de solidariedade. A Irlanda anunciou ainda que não participará da Eurovisão de 2027 caso Israel permaneça na competição.
Síria: incursões israelenses prosseguiram em Quneitra e Daraa. Um centro sírio contabilizou 64 violações entre 15 e 21 de setembro somente em Quneitra, Daraa e Rif Dimashq. No dia 21, uma força com dez veículos entrou no interior de Quneitra e instalou um posto de controle temporário.
ONU: a Assembleia Geral tornou-se outro espaço de disputa entre Washington e Teerã. Trump ameaçou “aniquilar” o Irã caso não houvesse um acordo, ao mesmo tempo em que manteve aberto o canal de negociação; Masoud Pezeshkian respondeu no plenário que o país não se curvaria e reafirmou disposição para negociar sem abandonar a defesa militar.
