Professor José Leite Lopes: A Ciência para a libertação de todas as mulheres e homens

Professor José Leite Lopes: A Ciência para a libertação de todas as mulheres e homens

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Matéria de Frank Calafate

A crise atual do capitalismo se apresenta em várias dimensões no Brasil qual sejam a econômica, a política, a social, a moral, a militar. Soma-se a essas a crise da ciência representada pelo seu caráter utilitarista em que a inovação é repetida como mantra na maioria esmagadora dos escassos editais de fomento abertos à comunidade de cientistas do país. De 2013 a 2021, os recursos destinados para o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTI) para despesas correntes, investimentos e inversões financeiras caíram de R$ 11,626 bilhões para R$ 1,875 bilhões, cortes da ordem de 84% [1]. A escalada dos ataques à ciência aumentou durante o governo fascista de Bolsonaro e generais, mas os investimentos em ciência e tecnologia (C&T), englobando projetos de pesquisa e desenvolvimento no país – inclusive durante as gerências petistas – nunca ultrapassaram os 1,66% do PIB brasileiro [2]. Países como Israel e Coreia do Sul chegam a investir quatro vezes mais do seu PIB em C&T do que o Brasil [3].

Nessa conjuntura é importante resgatar o papel desempenhado por cientistas brasileiros que defenderam a ciência a serviço da construção de uma verdadeira nação e da libertação das mulheres e dos homens. No hall desses grandes cientistas figura o Prof. José Leite Lopes.

Pernambucano do Recife, Leite Lopes nasceu em 1918. Se formou, em 1939, Bacharel em Química Industrial pela Escola de Engenharia de Pernambuco e em 1942 graduou-se em Física pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Já no discurso que proferiu na sua formatura deixou claro que para além de cálculos matemáticos de partículas subatômicas ou elementares e teoria quântica de campos, formou-se físico para pensar a política científica nacional, o papel da universidade na sociedade, bem como o valor cultural da Física [4].

Em 1943 se transferiu para a USP onde conheceu importantes nomes da Física brasileira como Gleb Wataghin, Mario Schenberg e César Lattes. Entre 1944 e 1945 obteve seu Ph.D. na Universidade de Princeton sob a orientação de Wolfgang Pauli, um dos maiores físicos do século XX. Em Princeton teve a oportunidade de assistir cursos ofertados por Albert Einstein, que se encontrava no USA desde 1933 escapando da perseguição da Alemanha nazista.

Uma das principais contribuições à Física do Prof. Leite Lopes foi à teoria quântica de campos que estuda as interações entre as partículas em sistemas físicos. Na Física existem quatro tipos de forças fundamentais que são chamadas de interações: (i) a gravitacional que age sobre toda matéria no universo. A Lei da Gravitação Universal foi descoberta por Isaac Newton em 1666 e aperfeiçoada por Albert Einstein em 1915; (ii) a eletromagnética que está relacionada à interação conjunta dos campos elétrico e magnético. O físico escocês James Clerk Maxwell foi o responsável pela unificação da eletricidade e do magnetismo por meio das equações diferenciais parciais que enunciou em 1861; (iii) interação fraca que é responsável pelo decaimento radioativo, processo pelo qual um nêutron em um núcleo atômico se transforma em um próton depois de “perder” um elétron. Essa interação desempenha um importante papel no fornecimento de energia às estrelas e formação de elementos químicos. Foi definida em 1933 pelo físico italiano Enrico Fermi; e (iv) interação forte que é responsável por manter a união dos núcleos atômicos apesar da grande força de repulsão elétrica entre os prótons. O pioneiro nos estudos da força forte foi o físico japonês Hideki Yukawa.

A contribuição original e fundamental de Leite Lopes foi para a unificação da interação eletromagnética com a interação fraca. Em 1958, fez a proposição de que duas partículas elementares os bósons vetoriais W+ e W- eram ligados ao fóton. Na mesma ocasião previu a existência do bóson vetorial neutro Zo que foi descoberto na década de 1980. Esses aportes do Prof. Leite Lopes foram fundamentais para que o físico paquistanês Abdus Salam e os físicos estadunidenses Sheldon Lee Glashow e Steven Weinberg ganhassem o Prêmio Nobel de Física em 1979.

Em 1949, Leite Lopes, juntamente com César Lattes [5], Elisa Frota Pessoa e Jayme Tiomno, fundou o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) que além de impulsionar a Física no Brasil representou uma vitória política da ciência brasileira sobre o utilitarismo politécnico e o bacharelismo profissionalizante em voga.

Após o golpe militar fascista de 1964, afastou-se do Brasil até 1967 ocasião em que assumiu a direção do Instituto de Física da UFRJ na Ilha do Fundão. Em 1968, juntamente com o físico Roberto Salmeron, envolveu-se no debate da questão nuclear e pronunciou-se fortemente contra a compra do que veio a ser o reator de Angra I da Westinghouse, condenando a escolha da linha do urânio enriquecido e a importação desta tecnologia do USA, devido à dependência que isso traria ao país [6]. Anos mais tarde a construção das usinas nucleares do Brasil se caracterizou como um dos maiores escândalos de corrupção da ditadura militar envolvendo construtoras como a Odebrecht e Camargo Correa.

Em 13 de dezembro de 1968 foi decretado o famigerado Ato Institucional No 5 que atingiu o Prof. José Leite Lopes com sua aposentadoria compulsória e a proibição do exercício da pesquisa científica em instituições com fundos públicos. As perseguições e o terrorismo da ditadura militar fascista fizeram Leite Lopes ir num primeiro momento para a Universidade Carnegie Mellon no USA. Depois foi para Strasbourg, onde ficou até 1986, sendo nomeado pelo governo francês para o cargo de professor permanente. No retorno ao Brasil foi diretor do CBPF até 1989.

Logo depois da Segunda Guerra Mundial a Física sofreu profundas mudanças institucionais. O surgimento da Big Science e da tecnociência pôs fim ao clima intelectual e cultural dos chamados físicos filósofos [4]. Apesar de Leite Lopes não pertencer à geração de Einstein, Bohr, Heisenberg, Rosenfeld e Pauli, o pensamento do cientista brasileiro era marcado por importantes reflexões epistemológicas sobre o papel da ciência no contexto histórico e cultural o que o poderia caracterizá-lo como um físico filósofo tardio.

Em suas conferências e palestras sempre condenava a subjugação dos muito pobres pelos poucos ricos. Durante Seminário Internacional, patrocinado pela UNESCO e pela Universidade de São Paulo, ocorrido em novembro de 1997 para fundar a Rede das Américas para a Tolerância e a Solidariedade propôs uma moção condenando o bloqueio econômico do USA ao povo de Cuba. Acusava a permissividade da comunidade mundial de governos com a agressão do USA contra o povo cubano como uma covardia intolerável. Nesta ocasião questionou se a pretensão dos ianques com tal medida seria implantar no país caribenho uma democracia como a existente no Brasil em que milhões de crianças não tem acesso à educação básica de qualidade, estando muitas delas abandonadas nas ruas ou obrigadas a trabalhar e os hospitais públicos são incapazes de atender à maioria da população [7].

Tinha uma preocupação especial com a educação da juventude. Acreditava que a educação científica era fundamental para que os jovens pudessem acessar a beleza intrínseca da natureza, a precisão das leis científicas que regem o universo e se fortalecerem para enfrentar o desafio do controle político das tecnologias pela ideologia instrumentalista do capitalismo moderno [4,8].

Do quadro negro aos quatro cantos da sala de aula, gesticulando e proferindo frases de efeito, o Prof. Leite Lopes tornava o difícil e o complexo em aparentemente fácil e simples [6]. Fazia muitas perguntas também, como por exemplo:

(i) A ciência e a tecnologia são, na verdade, tão poderosas a ponto de serem capazes de mandar homens ao espaço cósmico. Não estão elas, contudo, impedidas de melhorar as condições de vida das massas pobres e exploradas na África, na Ásia, na América Latina?

(ii) Qual ciência, em qual cultura, para qual projeto de sociedade e em que mundo?

(iii) O objetivo da ciência e da tecnologia é liberar o homem ou estabelecer um mundo regido pela repressão dos muito pobres pelos poucos ricos?

Ele mesmo respondia: “Para mim não pode haver outra resposta: a ciência deve liberar o homem; e com isso eu não quero dizer liberar somente os homens e mulheres das sociedades avançadas – devemos trabalhar para a liberação de todos os homens e mulheres em todos os lugares, de modo que a ciência cumpra a sua vocação de universalidade e se torne um patrimônio de toda a humanidade.” [9]

O Prof. Leite Lopes faleceu no dia 12 de junho de 2006. Nesses tempos de “desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada” [10], devemos lembrar do seu legado com vistas a iluminar o caminho das novas gerações de cientistas brasileiros, latino americanos, africanos e asiáticos para o irmanamento com o povo, os milhões de camponeses e operários que diuturnamente são subjugados e reprimidos pelas classes dominantes de seus países e pelo imperialismo.

Imagem de destaque: Reprodução


Este texto expressa a opinião do seu autor.

Notas:

1- Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/a-diaspora-de-cerebros/

2- Disponível em: https://biominas.org.br/blog/aumenta-o-investimento-em-ct-no-brasil/. Esses dados englobam os investimentos realizados pelos governos estaduais e bancos estatais como o BNDES.

3- Disponível em: https://valor.globo.com/patrocinado/dino/noticia/2022/09/26/brasil-investe-em-media-1-do-pib-em-ciencia-e-tecnologia.ghtml. Esses dados englobam os investimentos realizados pelos governos estaduais e bancos estatais como o BNDES.

4- SILVA, V. C.. Um ideal de ciência: José Leite Lopes e a história da física no Brasil (on line). CIÊNCIA E SOCIEDADE, v. 6, p. 35-47, 2019.

5- A Física no Brasil: A contribuição de César Lattes. Disponível em: https://anovademocracia.com.br/no-206/8420-a-fisica-no-brasil-a-contribuicao-de-cesar-lattes 

6- ROSA, L. P. O Ensino e a Pesquisa da Física Teórica, a Liderança Científica e Acadêmica e a Política na Obra de José Leite Lopes. In: CARUSO, F., TROPER, A. Ciência & Sociedade – Perfis. CBPF/CNPq. Rio de Janeiro, 1997.

7- LEITE LOPES, J. A Ciência e a Intolerância. Cadernos Ciência e Sociedade. Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Janeiro de 1998.

8- LEITE LOPES, J. O Valor da Ciência. Cadernos Ciência e Sociedade. Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Setembro de 1995.

9- LEITE LOPES, J. Ciência e Subdesenvolvimento na América Latina. Cadernos Ciência e Sociedade. Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF). Janeiro de 1998.

10- BRECHT, B. Nada é impossível de mudar. Disponível em: https://www.recantodasletras.com.br/poesias-patrioticas/3277224

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