Quintino Lira e a ‘Guerra da CIDAPAR’: O lado de lá já decretou

Até hoje, em meio à contínua pressão da grilagem sobre as terras da Amazônia, em toda região do Gurupi, Quintino segue vivo nas mentes e corações dos camponeses que resistem ao latifúndio.

Quintino Lira e a ‘Guerra da CIDAPAR’: O lado de lá já decretou

Até hoje, em meio à contínua pressão da grilagem sobre as terras da Amazônia, em toda região do Gurupi, Quintino segue vivo nas mentes e corações dos camponeses que resistem ao latifúndio.
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“Nós estamos em guerra,
O lado de lá já decretou,
Pois já pagou pistoleiro
Para matar lavrador”
(Luiz Vila Nova, O Risco)

No final da década de 1970 e início da de 1980, um consórcio de grileiros intimamente ligados aos militares montou na divisa do Pará com o Maranhão uma fraude baseada em 5 Cartas de Sesmarias. Com o apoio das “autoridades” os documentos de cinco fazendas, supostamente pertencentes a um grupo canadense que os devia, cujas áreas somavam inicialmente 54 mil hectares, foram transformados “alquimicamente” em 387 mil hectares de terras! O escandaloso caso de grilagem ocorreu em Viseu, região nordeste do Pará. A manobra cartorária foi seguida de um grande conflito, até hoje conhecido na região como “Guerra da CIDAPAR”, pois todas essas terras pertenciam a mais de 40 mil posseiros, lavradores e garimpeiros, espalhados por 36 povoados, que tinham ali sua fonte de subsistência. Contra a ofensiva militar lançada pelos latifundiários visando efetivar a grilagem das terras, os camponeses do Vale do Rio Gurupi opuseram uma dura resistência.

Com um grupo paramilitar a de 102 pistoleiros, armados com fuzis, helicópteros e o mais moderno arsenal de guerra à época, sob o mando do capitão James Vita Lopes, o consórcio das empresas Própara, Josapar, Denasa, dentre outras, passou a expulsar e assassinar os camponeses da área da “Gleba CIDAPAR” oriunda de documentos fraudados em total conivência com o governo do estado do Pará e os militares que governavam o Brasil à época.

O primeiro camponês assassinado nessa guerra contra o povo foi Sebastião Mearim, do povoado Alegre. A partir desse assassinato os homens do povoado se reuniram para discutir sua defesa. Daí é que, a partir desse grupo, surge uma figura ainda pouco conhecida fora da região, mas que sem dúvidas se destaca entre as grandes lideranças camponesas do nosso país: Quintino Lira, o Quintino Gatilheiro, “matador de cabra safado”, como ele mesmo se dizia e provava. A alcunha de “gatilheiro” era em oposição direta à dos pistoleiros, pois segundo ele, pistoleiro era quem matava em nome do latifúndio ladrão de terras e gatilheiro era quem matava pelo povo. Sob o comando de Quintino, os camponeses organizaram uma autodefesa de mais de 50 homens regulares, chegando à 200 em alguns momentos. Conhecedores profundos das matas, os camponeses respondiam com guerra de guerrilhas à guerra reacionária. E durante sua luta estima-se que tenham sido justiçados mais de 50 pistoleiros e grileiros.

Os combates eram, em sua maioria, travados nas matas, onde os camponeses conseguiam mudar a correlação  de forças das poderosas armas do grileiros, os emboscando em menores números, os fustigando quando corriam e se escondendo quando eles eram maioria. Em combate, apenas 3 camponeses foram assassinados, enquanto que do lado de lá, como já dito, mais de 50. As munições, ou eram conquistadas em combate ou fornecidas pelo povo. A alimentação também vinha do trabalho do povo camponês.

Derrotado pelo povo, o consórcio então apela ao aparelho repressivo do velho Estado usando do pavor dos militares ao povo organizado: 300 policiais militares mandados pelo então governador, Jader Barbalho, vão ao campo de batalha para “pacificar” a região, ou seja, garantir os “direitos” dos grileiros. Agora com o apoio  de Brasília e do governo estadual, a PM e os pistoleiros desatam uma brutal repressão sobre os camponeses e sua principal liderança, Quintino Gatilheiro. Dezenas são torturados, vários assassinados, mulheres são violentadas e todo tipo de crime de guerra é cometido. Numa das operações repressivas das quais Quintino logra escapar, a PM mata sua esposa e companheira, Antônia.

Apesar da escalada da violência, a autodefesa camponesa permanece ativa, demonstrando contar com amplo apoio popular mesmo depois de lançada a caçada contra ao “bandido” Quintino. Exemplo marcante disso se dá quando Quintino incursiona com seus homens na sede do município de Viseu e é recebido com festa pela população. A repercussão do caso a nível nacional mobiliza o campo democrático a favor dos posseiros, capitaneado pelo apoio ativo do Advogado e Deputado Comunista Paulo Fonteles. Manifestações populares em defesa do possoeiros ocorrem nas cidades de Belém e Viseu.

Depois de ser caçado durante meses pela Polícia Militar do Estado do Pará e pistoleiros, Quintino é morto por tiros de fuzil em 4 de Janeiro de 1985 (notícias dão conta de cerca de 70 policiais envolvidos na emboscada). Porém a luta não parou, Quintino passou imediatamente de homem a mito. Os camponeses diziam que ele se transformava em cachorro e logo aparecia para atacar os algozes! Os próprios pistoleiros e policiais, com medo, matavam todos os cachorros que viam por perto. O povo seguiu resistindo e cada vez mais a opinião pública foi tornando-se favorável à luta, obrigando o governo de José Sarney e o então já ministro da Reforma Agrária Jader Barbalho, a desapropriar as terras em favor dos posseiros!

Um ano depois da morte de Quintino é publicado Decreto Nº 92.623 que deu início à desapropriação de toda a área, incluindo as fazendas da família do próprio ministro. Desde então, até hoje, em meio à contínua pressão da grilagem sobre as terras da Amazônia, em toda região do Gurupi, Quintino segue vivo nas mentes e corações dos camponeses que resistem ao latifúndio. O Gatilheiro “matador de cabra safado” segue combatendo além da morte!

Ao longo das últimas duas décadas, o jornal A Nova Democracia tem se sustentado nos leitores operários, camponeses, estudantes e na intelectualidade progressista. Assim tem mantido inalterada sua linha editorial radicalmente antagônica à imprensa reacionária e vendida aos interesses das classes dominantes e do imperialismo.
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