O ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF) retirou neste dia 1° de setembro o sigilo das mensagens trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, com o ministro Alexandre de Moraes. Durante as mensagens, são reveladas uma rotina de correspondências mútuas, reuniões, contratos e troca de favores prestados até as vésperas da primeira condenação de Vorcaro, em novembro de 2025.
O relatório foi produzido sob a instrução direta de Mendonça, que solicitou a sistematização de todas as citações a Alexandre de Moraes, Gonet e ao diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, que acusou o relator do caso de “promover investigações pré-processuais”, isto é, sem abertura de processo formal, e “abuso de autoridade”.
A divulgação do relatório agravou a pugna no interior do STF e entre as instituições do velho Estado, chegando a demonstrar também as relações diretas entre o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, e o ex-banqueiro.
Mendonça assumiu a relatoria do caso após ser revelado que o ministro Dias Toffoli, relator anterior do caso, possuía uma rotina de conversações e reuniões com Vorcaro, aprofundadas com repasses financeiros do ex-banqueiro à Maridt, empresa no qual Toffoli é sócio.

Contratos milionários e “gratidão de vida” ligam Vorcaro a Moraes
No relatório constam apenas mensagens enviadas por Daniel Vorcaro, todas no formato de “visualização única” e escritas através do aplicativo de “notas” do celular e enviadas para o contato “Alexandre moraes BRASILIA”. A precaução talvez estivesse na vã esperança de não serem interceptadas em uma eventual investigação.
No relatório divulgado pela Polícia Federal (PF) após a quebra de sigilo mostram mensagens recuperadas desde janeiro de 2024, quando Vorcaro assinou um contrato multimilionário, no valor de R$ 131 milhões junto ao escritório da esposa de Alexandre de Moraes, Viviane Barci, para a realização de “consultorias jurídicas”. Segundo registros digitais e metadados obtidos durante a investigação da PF, foi identificado que Moraes atuou na edição do contrato..

O escritório de Viviane Barci chegou a assinar outro acordo, desta vez com a “Viking Participações”, uma empresa financista de Vorcaro, no valor de R$ 50 milhões, dos quais R$ 40 milhões seriam pagos mediante a entrega de duas aeronaves particulares, um helicóptero e um jatinho, e os outros R$ 10 milhões através da quitação de eventuais despesas causadas pelo uso das aeronaves.
O próprio Daniel Vorcaro chegou a cobrar de seu sócio, Ângelo Silva, para não atrasarem no pagamento ao escritório de Viviane, indicando que era “o mais importante” de todos. Vorcaro chegou a alertar para o caso de não pagamento do valor contratual: “Vamos ter problemas”.

Já em 14 novembro, Vorcaro chegou a agradecer à Moraes por seus serviços prestados, indicando que ele, sua família, funcionários e parceiros tinham “uma dívida de vida” com ele e sua família, indicando que iria seguir o modus operandi indicado “até a conclusão”. Três dias depois, Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, horas após concluir a venda do Banco Master para o grupo financista Fictor Holding Financeira.

Moraes e Mendonça discutem no STF e expõem pugnas internas
A reação de Alexandre de Moraes teria provocado uma discussão acalorada junto ao ministro André Mendonça, relator do caso. O “bate boca” entre os colegas de toga chegou a contar com a intervenção dos seguranças.
Contudo, o jornalista Paulo Motoryn revelou a “rede social” substack que o próprio ministro André Mendonça chegou a ter relações com Vorcaro, aproximadamente um ano antes de assumir a relatoria do caso, indicando a capacidade deste banqueiro de segunda categoria de mobilizar diferentes ministros dentro do STF.
Em nota oficial, Mendonça confirma que manteve contato com Daniel Vorcaro e seu advogado, Ciro Rocha Soares, até realizarem uma reunião pessoalmente em março de 2025, onde foi discutida a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, à época em discussão no STF. A medida discutia a quitação de dívidas de bancos, o que interessava ao ex-banqueiro.
A nota afirmou que Vorcaro teve reuniões semelhantes agendadas com outros ministros durante o mesmo período e que a posição de Mendonça sobre o caso foi contrária aos interesses apresentados pelo Banco Master.

A notícia chegou a repercutir na grande imprensa internacional. O monopólio de imprensa espanhol El País chegou a afirmar que as desavenças no interior do STF eram antigas e classificou o processo que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por planejar uma tentativa de golpe de Estado, cujo relator foi Alexandre de Moraes, como um divisor de águas.
O ministro André Mendonça, por sua vez, chegou ao cargo de ministro do STF por indicação direta de Jair Bolsonaro e teve suas primeiras contendas com Alexandre de Moraes já em 2023, durante o julgamento que levou à condenação dos Galinhas Verdes envolvidos na invasão bolsonarista de 8 de janeiro.
Na ocasião, Mendonça tentou imputar a culpa do vandalismo bolsonarista exclusivamente ao governo federal de turno, encabeçado por Luiz Inácio (PT), por não impedir a invasão da Praça dos Três Poderes. Em resposta à época, Moraes chegou a apontar que “cinco comandantes da PM do DF estão presos” por estabelecer comunicações com lideranças bolsonaristas desde o fim das eleições de 2022, prometendo não intervir em caso de invasão reacionária.
Posteriormente, em março de 2025, Mendonça chegou a votar contra a participação dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino no processo que condenou Jair Bolsonaro. Na ocasião, Mendonça não participou das votações.

Gonet tem relações com Vorcaro divulgadas e exige anulação do processo
O Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, também teve seu nome citado no relatório da PF como alguém próximo ao advogado Ciro Rocha Soares.
Segundo as mensagens, Ciro Soares seria responsável por realizar o contato entre Gonet e Vorcaro. No dia 14 de março de 2025, Soares chegou a enviar uma foto junto do PGR, chegando a promover chamadas de voz.

Já no dia 28 de março, Soares intermediou uma série de mensagens e trocas de afeto entre Vorcaro e Gonet, indicando que o atual PGR estaria “na torcida” pelo ex-banqueiro. As mensagens tiveram fim com a confirmação de um encontro entre os três em Londres.
O próprio Gonet chegou a exigir de forma dissimulada pela presença de “charutos” e uísque Macallan, sendo respondido com a promessa de uma “plantação de charuto” e um barril da bebida requisitada.
Outra exigência de Gonet foi que Vorcaro pagasse também a ida de seu filho Pedro para a capital inglesa: “Pedrinho filho do PG pode ir também?”. A mensagem foi respondida positivamente: “Óbvio né?!”
Em resposta à divulgação, Gonet chegou a realizar neste dia 2 de setembro um pedido para a anulação completa das investigações envolvendo Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, acusando o relator do caso, André Mendonça.
“Ao juiz não cabe acusar, menos ainda cabe ao juiz realizar investigações pré-processuais. Não lhes é dado valer-se da polícia judiciária como sua própria manus para atividades que não lhes foram assinadas”, respondeu Gonet.

O caso, ainda pouco investigado, aponta a debilidade atualmente apresentada pelo velho Estado brasileiro e suas “ilibadas” instituições ditas “democráticas” e “de direito” ao demonstrar a capacidade de Daniel Vorcaro, um banqueiro de última categoria, de ingerir exercer influência sobre diferentes esferas e agentes do velho Estado.
A divulgação, embora atice a base bolsonarista, ofusca, mas não apaga o pedido de R$ 134 milhões feito por Flávio Bolsonaro a Vorcaro para a produção do filme autobiográfico de Jair Bolsonaro, “O Fraco”. O próprio Flávio “Rachadinha”, hoje candidato à Presidência, afirmou que Alexandre de Moraes deveria renunciar ao cargo, enquanto defendeu Mendonça após a revelação de seus encontros com Vorcaro, afirmando se tratar de um “encontro profissional”.
O banqueiro, contudo, chegou a repassar R$ 61 milhões entre fevereiro e maio de 2025, sob pedido direto de Flávio Bolsonaro. Não bastasse, uma divulgação feita pelo jornalista Bruno Pires para a Revista Piauí afirmou que outros repasses de mais de R$ 14 milhões foram realizados até setembro, ampliando a revelação das relações e compromissos íntimos entre Vorcaro e Bolsonaro.
