Relatos de Juan Nadies (3): Malvinas: O Soldado Araujo não volta

Publicamos abaixo uma nova contribuição de André Queiroz, a terceira parte da sua série "Relatos de Juan Nadies"

Relatos de Juan Nadies (3): Malvinas: O Soldado Araujo não volta

Publicamos abaixo uma nova contribuição de André Queiroz, a terceira parte da sua série "Relatos de Juan Nadies"
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para Maria Fernanda

Ilhas Malvinas (Argentinas!), 27 de abril de 1982. Queridíssima e saudosa família como estão? Imagino que ótimos. Aqui tudo segue em absoluta calmaria, com nervos e tensão (o que é de se esperar), porém com o companheirismo que há tudo se leva adiante. (…) Continuo acreditando que não vai acontecer nada, pois o assunto se esfriou um pouco, suponho que será resolvido em negociações diplomáticas. (…) Mãe, não vejo a hora de chegar e abraçar a todos, de tomar banho, comer e Estudar1

São palavras do Soldado Araujo em carta enviada a sua família direto do campo de batalha nas Ilhas Malvinas. Àquele dia 27 de abril, ao menos no que tange às informações disponíveis a estes setores de tropas mobilizadas, ainda não havia sinais de que as forças de guerra do inimigo usurpador se aproximavam das águas do Atlântico Sul suplantando os 13 mil kms que separam a potência imperialista das ilhas situadas no espaço marítimo argentino. Talvez ainda se pensasse desde o alto comando militar que a ocupação das Ilhas pelas tropas argentinas correspondesse a um movimento estratégico no tabuleiro do xadrez geopolítico e que o governo de Margareth Thatcher se veria como que em uma sinuca de bico – agarrada ao impasse entre o se lançar a empreitada bélica, correndo sérios riscos de desgastes junto à comunidade internacional de países não afiliados a OTAN, ou testar a mobilização e virtual coesão popular interna evocando a defesa de um território insular longínquo mesmo que ao custo de uma intervenção no conflito em tintas neocoloniais. 

Àqueles dias de abril, ao menos desde os escalões rasos da tropa argentina, não se tinha ideia de que grande parte do contingente britânico era de militares profissionais altamente qualificados por anos de treinamento à diferença dos colimbas [conscritos] com um ano de serviço militar mal ajambrado às costas; tampouco se tinha conhecimento de que o investimento inglês em arsenal estratégico e bélico representaria dez vezes mais do que a inversão argentina. 

A despeito disto, a cobertura de imprensa dos principais veículos de comunicação, dentre os quais se destacava a televisão pública (ATC) e seu noticiário 60 minutos, apostava no tom triunfalista incrementado por palavras de ordem (Estamos ganhando! Que venham os ingleses!) e por convocatórias histriônicas que propagandeavam a audácia da conquista, a dimensão titânica da tropa e a liderança viril e destemida da Junta Militar, os artífices impávidos da façanha a encarnar o sentimento nacional. O locutor de 60 minutos, por exemplo, quando da visita de Galtieri às Ilhas, descreve a aproximação do avião ao solo de Malvinas como se narrasse os avanços de um regimento por aproximações sucessivas. A esta mesma edição de 21 de abril de 1982, o presidente de fato, Gal. Leopoldo Galtieri, durante o voo a Comodoro Rivadavia (e daí até Puerto Argentino), em entrevista ao jornalista José Gómez Fuentes, afirmará de forma peremptória a confiança na vitória – ainda que mencionasse as inúmeras tratativas diplomáticas das que sempre a Grã Bretanha se evadira:

Estou convencido de que a [bandeira] celeste e branca, em Malvinas, não vai ser arriada. É esta a convicção de todos os argentinos. Podemos conversar, estamos dispostos a seguir o diálogo, a buscar aproximações, a satisfazer os interesses de Grã Bretanha e dos moradores das Ilhas Malvinas. Satisfazer economicamente todas as circunstâncias que se apresentem dentro da lógica e da normalidade, enfim, persiste a melhor disposição por parte do governo argentino para buscar uma solução pacífica, mas a [bandeira] celeste e branca, nas Ilhas Malvinas, não será arriada por nenhum argentino. E se tiver que ser arriada é porque evidentemente não restará nenhum argentino com vida nas Ilhas2.

Todavia os britânicos ainda não haviam desembarcado no campo de batalha. E Araujo e seus companheiros estavam afincados em meio a esta ausência, sob a tutela de tais proclamas. Mas não apenas. Tampouco podiam supor aqueles recrutas que destacamentos especializados como o Esquadrão Alacrán, composto por quarenta membros do Grupo de Comandos Especiais da Gendarmaria Nacional preparados para atuação em situações conflitivas e inóspitas, estariam embarcando em um Hércules C 130 para Comodoro Rivadavia apenas e tão somente no dia 27 de maio quando os britânicos já ocupavam pontos avançados no teatro de operações de uma guerra consumada. Importante lembrar que os ataques britânicos tiveram início no dia 1º de maio de 1982. Talvez se a reposição das tropas, e mesmo o câmbio do operativo humano conforme avançasse o número de baixas, acenasse a outro desfecho… 

O soldado Elbio Eduardo Araujo, certamente, não dispunha destes dados. Tampouco que a ele lhe caberia funções como as do organograma estratégico de inteligência e contrainformação. A Araujo, como aos seus companheiros de Colimba, cabia assegurar a preparação do pozo de zorro [trincheira], a fiscalização da área, defesa e combate, executando as ordens transmitidas pelos suboficiais ao trato direto com cada destacamento avançado. Ele mesmo descreve a calmaria de jornadas intermináveis de trabalho e espera. Mas não só Araujo. Aos relatos de diversos colimbras ex combatentes é comum ouvir deles que, inclusive, ansiavam pelo início dos combates. Afinal, estavam ali para isto, e além de tudo o que haviam deixado para trás, lhes aguçava a curiosidade em participar de algo que apenas conheciam através das imagens e relatos de filmes vistos em sessões de cinema ou na televisão. Tal como no relato do conscrito Guillermo:

E assim, entre uma coisa e outra, chegou o dia 1º de maio. Nessa noite, a primeira coisa que vi foram os disparos de nossa bateria antiaérea, e mais tarde, pela manhã, consegui ver os aviões Harrier passando. Vi como abatemos dois deles, como se afastavam deixando um rastro de fumaça. A um deles vi cair no mar, e ao outro, mais distante, atrás de um morro. Até então, eu era um espectador sentado na primeira fila do cinema. E não vou negar que estava encantado. Era como um filme que eu estivesse vendo. Era como se o filme se tivesse tornado real3

Àquele dia 27 de abril, quando das linhas de sua missiva, estar às Ilhas Malvinas era um misto de apreensão e tédio. É no bojo desta dubiedade de sentimentos que Araujo reivindica a vivência com os companheiros em seus efeitos alentadores. Afinal, entre os companheiros, era possível superar as agruras e seguir adiante. Com eles se dividia memórias e perspectivas futuras. Recordações e projetos. Na certa que seu gênio brincalhão deve ter amenizado o cansaço que prenuncia tristeza e desassossego. Araujo era alegre, de fácil trato, sempre rodeado de amigos. Talvez que os companheiros já o chamassem por seu apodo de infância, Cabeção, e Araujo reagisse a isto soltando uma gargalhada que lhe mostrasse os dentes em simpatia. Houvesse um violão, Araujo arrancaria milongas que aprendera no campo, onde crescera e se tornara adolescente, depois que a família deixara Buenos Aires e fora viver na província de Entre Ríos. Todavia, àquela hora morta, feita de dias curtos e de noites intermináveis, era perpassada por incertezas e de angústias; horas/ dias/ quase mês no que o soldado Eduardo Araujo e seus companheiros de trincheira – todos do Regimento 7 de infantaria de La Plata: cabo Martínez, soldado González, soldado Sandoval, soldado Arrascaeta repartiam camaradagens e confissões, fadiga e reclamos. 

 Difícil não compreender que todos eles se deixassem, por um lado, tomar de assalto pela dúvida impactante: haveria a guerra? Ou será que depois de tantas resoluções tiradas nas assembleias gerais da ONU4, a Grã Bretanha iria alinhar sua esquadra e lançar-se ao arbítrio de uma guerra colonial e imperialista?  Em contra a tais resoluções, haveria a guerra, expressão do saqueio e do conluio entre potências imperiais? E em havendo tal sanha, de que forma se faria esta guerra? Seria como nas telas de cinema – um conflito com hora marcada para começar e terminar? Como seria estar na guerra? A guerra seria muito diferente do que diziam os insípidos manuais de que tiveram acesso em instruções bissextas em meio às tarefas ordinárias à caserna?5 Por outro lado, e ao reverso disso, como se fora uma estaca afincada na terra, a certeza íntima e profunda a justificar a si e a todos àquela entrega irrestrita num jogo de vida e morte; afinal se tratava de uma gesta anticolonialista em defesa dos interesses da nação argentina, e porque não dizer, da Pátria Grande na que nossos países irmãos se conformassem na continental nação latino-americana. Talvez que todos se sentissem partícipes, protagonistas, desta hora grave da história de seu país. Ainda que àquele dia 27 de abril lhes fosse largo, insosso, cinzento.

No caso do soldado Eduardo Araujo, mais além do amor pela Argentina e seu povo, havia também o eco da palavra e do exemplo austero de seu pai – que desde a remota infância lhe ensinara que a palavra de um homem é como um distintivo de bronze, algo que não se verga às intempéries, espécie de superfície tão rígida quanto fértil, na que aquele que planta, poderá ver crescer uma árvore na que se pode fazer flamear uma bandeira. Durante a colimba, Araujo havia jurado diante da bandeira argentina não medir esforços, ofertar a vida se preciso fosse, para defender os interesses nacionais, quiçá a soberania de um povo massacrado por uma história de submissão e dependência às potências imperiais, e a esta hora, naquele já distante ano de 1982, quando se estava às portas de que se completasse um século e meio da arbitrária ocupação britânica às terras insulares de seu país, a questão Malvinas lhe convocava a uma entrega sem meias tintas. 

Eduardo Araujo não pensara duas vezes ao receber em sua casa o telegrama de convocatória e de pronto, o seu recrutamento. Teria de tomar o trem de Entre Ríos a La Plata, e se somar aos companheiros que, com certeza, já estariam a sua espera. De nada lhe valera as sugestivas que sua família lhe apontara – quem sabe uma temporada de resguardo em terras uruguaias até que a poeira do fato baixasse e se resolvesse o destino do conflito. Os pais ficaram atônitos, pegos ao contrapé da sorte, em susto e golpe, como num lapso de hora pelo que a vida do filho mais velho parecia lhes escorrer aos cuidados, como se fora tragada em espiral, numa torrente, num fluxo que talvez não estancasse e não coubesse recuo. O pai de Araujo andava em círculos, as mãos enfiadas no bolso da calça, cabisbaixo. A mãe acolhia o destempero que se lhes tocava de forma resiliente. Ao chegar a casa, fora este o cenário que coube a Araujo, o pai e a mãe exaustos de véspera, sucumbidos a estas tormentas. Os pais tomaram a iniciativa no intento de demovê-lo da ideia fixa. Mas Araujo não aceitou o corte de compromisso, Eduardo Araujo não escolheu o atalho, a saída a tangenciar o fato. A guerra, a convocatória, o recrutamento – Araujo honraria o juramento. Ia seguir em frente, fazer cumprir o bronze da palavra que não se quebra, seguir a justa que lhe tocava viver, e executar as tarefas que lhe exigia o tempo histórico.  Eduardo Araujo conheceria as Malvinas que, até então, lhe parecia borrada do mapa da Argentina.

É possível que sua decisão já tivesse tomada desde o dia 2 de abril de 1982, quando da convocatória de Leopoldo Galtieri ao balcão da Casa Rosada diante de uma multidão que lhe fazia coro e ovacionava. Claro está que Elbio Eduardo Araujo já tinha recebido a baixa do serviço militar obrigatório àquela ocasião. Todavia era da classe 62, havia nascido neste ano, e estaria, com toda certeza, dentre aqueles que seriam convocados. Bastava esperar pelo telegrama – que, vimos, não lhe faltou. Mas o que dissera Galtieri diante daquela massa de gente? Atentemos ao seu discurso na íntegra:

Compatriotas, povo da nação argentina, sei que este dia 2 de abril de 1982, marca uma inflexão ascendente para a história argentina do século em que vivemos. Neste momento, milhares de cidadãos, homens e mulheres, em todo o país, em todos os povoados, no pequeno terreno rural, nas cidades e nesta Plaza de Mayo histórica, que já presenciou tanto de nossa história nacional; vocês, argentinos, estão expressando publicamente o sentimento e a emoção represada durante 150 anos por causa de um despojo que estamos varrendo. [palmas, ovação: ‘Argentina! Argentina! Argentina! Argentina!]. O bravo povo argentino estende suas mãos ao adversário, porém não admite discussão sobre seus direitos que, paciente e prudentemente, temos tratado de reivindicar pelas vias diplomáticas. Os três comandantes em chefe, comandante da Força Aérea argentina, comandante da Marinha Nacional e este que vos fala [palmas], não temos feito outra coisa que interpretar o sentimento do povo argentino [palmas], e em toda a República, estou seguro [ovação: Viva a Pátria! Viva!], estou seguro que cada um de vocês, homens, mulheres, a grande juventude argentina e as crianças [palmas] estão sentindo como eu sinto alegria, e uma tremenda emoção por este ato argentino [ovação: Argentina! Argentina! Argentina!]. Hoje, 2 de abril, estamos começando com essa atitude [multidão canta], hoje, 2 de abril, estamos começando com a atitude de recuperar as Malvinas e toda a sua zona de influência, e já flameia a bandeira argentina em nossas Ilhas [aplausos, ovação: Argentina! Argentina! Argentina!]. A comunidade internacional e nossos adversários circunstanciais de hoje compreendam qual é a vontade da Argentina, aceitaremos o diálogo depois desta ação de força, porém com a certeza de que a dignidade e o orgulho nacional há de ser mantidos a todo custo e a qualquer preço [ovação, palmas, cantos]. Eu lhes agradeço em nome dos três comandantes das Forças Armadas que são suas, não são nossas, as Forças Armadas argentinas pertencem ao povo da Nação. Esta manifestação de sentimento e de alegria que hoje todo o povo argentino compartilha depois de 150 anos de lamentável claudicação. Obrigado e adeus [palmas e ovação].6

E eis que foi a hora da partida. Araujo veste seu uniforme militar. Segue em direção ao Regimento 7 de infantaria na cidade de La Plata, a cerca de uma hora de Buenos Aires. Araujo se despede dos seus à plataforma. O pai em recuo, dobrado sobre si mesmo, tomado de uma culpa que o acompanhará para o resto de sua vida, tornando-o alcóolatra e diabético até que lhe fosse amputado um pé a princípio, e depois a perna na altura do joelho. No bolso do paletó ou na carteira, sempre terá o retrato de Eduardo, o pai a mostra-lo para todos, a brindar com o retrato, a entoar uma conversa infinita que nunca mais se lhe despregará. Mas como aboná-lo do peso que sentia as costas? Não havia ensinado a Eduardo os modos da palavra de um homem? Não lhe tinha entregado aquele mandato ordenatório, a heráldica de que se conduz como escudo e lança para os tempos de tormenta? Não seria a guerra esta experiência limítrofe da que não corre o homem de palavra? Não seria a guerra a superfície atormentada na que se deposita a palavra tornada gesto e atitude? Não lhe dissera o pai que a força do homem se equilibrava na palavra? Àquela hora de partida, o pai de Eduardo talvez tenha pensado escutar, em segredo e em silêncio, ao pé de suas orelhas, a frase sem tempo, sem lugar, e sem rendição: Araujo não volta. Araujo não volta!

Doutro modo, mas também ali, a mãe do soldado Araujo lhe dera um abraço profundo, como se segurasse o filho e lhe trouxesse para dentro, e desde aí, o preenchesse das certezas de que necessitava Eduardo; a mãe que sempre fora a imagem da resiliência, olhando ao mundo desde atrás, assentando com a cabeça e com os olhos o que lhes fosse benfazejo, a mãe de Eduardo o acolhe em um abraço e, discretamente, o empurra para frente – amorosa, afetiva, continente, e o soldado Araujo se pôs a caminhar mais ereto, retomado em forças e vigor. Será também a mãe teria escutado alguma voz de desalento, um sussurro terminal? Talvez que sim, mas qual que ela diria?! Guardaria para si o melhor das estações. Araujo ainda voltaria – mesmo que lhe custasse a vida a ‘cavucar’ arquivos, testemunhos, depoimentos, os mínimos sinais. Um dia, lhe voltaria Araujo.

Da namorada era a promessa de que lhe escrevesse cartas contando dos dias em que as notícias do continente haveria de ser o alento para aqueles que estariam na outra fronteira, a combater na vanguarda dos interesses comuns. 

E então, María Fernanda, a irmã caçula e inseparável, nove anos incompletos, a conduzir em si os saberes herdados ao irmão; ela a correr na direção de Eduardo Araujo antes que ele subisse no comboio, ele a toma-la outra vez, e sempre, nos altos dos seus braços quando María Fernanda não sentia os pés tocando o fofo da terra, e Araujo a recolhendo a si e lhe trocando, cúmplices e irmanados, os cheiros que lhes anunciava a presença de um e de outro como se fosse um único corpo; aroma este que María Fernanda traria consigo ao largo da vida como signo e sintoma de que Araujo nunca se fora de fato, como se ele nunca tivesse partido, como se a partida não fosse a imagem de um trem que começasse a apitar e a correr adiante, mas que a partida fosse uma espécie de retrato estanque, algo de que não se sai ou se escapa pelas brechas e laterais; algo que está aí e sempre se indo, e no entanto, do qual Araujo jamais tivesse regressado.

Fiquem todos tranquilos que o Soldado Araujo monta guarda pela Argentina (a de todos) próspera e soberana, e que é fiel ao seu juramento.

Querido papá, torço que seus problemas de trabalho sejam superados logo, e espero todos os dias o instante de te ver e comermos um delicioso churrasco em Pereyra, ou conversamos coisas de homem, ou ir pescar, que tanto gostamos.

Perdoem-me a letra, pois lhes escrevo à luz de fósforos, porque não se pode acender a luz, pois a situação nos impõe…

A María Fernanda que escreva, que estude muito, e que reze por seu irmão para que volte logo, te mando mil beijos.

Saudações a toda os amigos do bairro, do clube, etc.

Um abraço e um milhão de beijos do Eduardo, o soldado da pátria. 

VIVA A PÁTRIA E AOS MEUS.

Nos vemos em breve.

2         

María Fernanda seguiu buscando a seu irmão Eduardo Araujo ao longo de sua vida. De distintos modos e intensidade. A princípio, às barras do vestido da mãe, segurando na bainha da calça do pai, ela ainda menina, dez anos, a guerra terminada no cessar fogo de 14 de junho de 1982, a família carregada de expectativa e ansiedade. Mas não fora de imediato que se iria tecendo este reencontro, não seria de brusco que se iria destecendo a ausência de Araujo; pelo contrário, fora envolto a uma capa de silêncio de que não se atravessava de forma alguma. Não só no caso de Eduardo, claro está, mas na forma com que a questão Malvinas foi sendo obliterada, cindida, fraturada, obscurecida. Tudo cerrado em documentos oficiosos que tiveram que assinar os que voltavam de Malvinas. Logo ao desembarque em Comodoro Rivadavia, os soldados sob custódia, sentados às mesas com o protocolo e os papéis da burocracia preparados e os ex-combatentes, cuidadosamente, dispostos em filas indianas7. Havia que se calar; haveria que guardar segredo; havia que esquecer o que se vivera; havia que deixar para trás àqueles que quedaram sob a terra em fossas coletivas nas Ilhas; havia que virar a página para seguir em frente; havia que evitar os detalhes, os caminhos sinuosos, pôr uma pedra no meio destes caminhos tortuosos, por uma pedra no excesso da palavra tagarela, ramerrona, autoindulgente; havia que por um manto indevassado – espécie de tapume sobre o vivido, o cerrar de dentes, o cerzir dos lábios, o engolir a seco a palavra revertida em fantasma e trauma. E se, por um lado, oficiosamente se ia conformando este modus de conduta, por outro lado, inoficiosamente, se alinhavava a trama do não-dito debruçado sob uma consensualidade que se vai emoldurando até o seu completo naturalizar. É que se vai dizer, é que se vai passar a se perceber que também a chamada sociedade civil não se mostrava disposta ao acolhimento destas experiências-relatos. Forma de descrever a condição perfeita de encaixe entre ‘o que não se pode dizer’ e ‘o não se quer escutar’. Como se fora de um hiato acordado, um fosso que não se atravessa, um pozo de zorro [trincheira] concretado sob medida a este interdito8.

No que se concretiza tal andamento às coisas, no que se lhe configura em atos e procedimentos institucionais, entre outros, está a não comunicação da corporação militar às famílias dos ex-combatentes quando do seu regresso. María Fernanda conta que, apenas em outubro daquele ano de 1982, vai se convocar aos familiares à Campo de Mayo, onde estavam os ex-combatentes. Qual seria o pretexto daquela clausura de comunicação senão a necessidade de se readaptar, aos poucos, os que tiveram expostos ao inferno de Malvinas?! Noutros termos, os que retiveram a informação justificavam o fato em causa própria. 

María Fernanda conta que ela estava no ombro do seu pai naquele amontoado de famílias ao reencontro dos filhos. Fazemos, aqui e agora, um esforço para construirmos, ao imaginário, a disposição de tudo: as gentes atabalhoando-se em espera e desejo; as páginas da lista com os nomes que vão sendo lidas por um sub oficial em um inconfundível e, a um só tempo, inapropriado formato protocolar; a aproximação do ex combatente anunciado e os gritos eufóricos dos familiares a correr ao seu encontro; María Fernanda está no ombro do pai para ver mais de cima o que está acontecendo – também ela nos é, a este momento, personagem desta cena que figuramos (cena que se dera, cena que ocorrera, mas que [nos] falta todo e qualquer registro… porque não se pudera o registro da cena), na sua cabeça de menina, na sua boca em trava língua, ela repetia a si mesma a todo instante e de forma compulsiva, mamãe já vai gritar, mamãe já vai gritar, mamãe já vai gritar, a isto bastaria que se anunciasse a senha ‘Soldado Araujo’, e seria isto, María Fernanda repetia a si o mantra mamãe já vai gritar, mamãe já vai gritar… –  acontece que não houve o grito da mãe de Eduardo, vá se saber se a voz que falara aos ouvidos do pai quando partida de Eduardo teria algo de real, Araujo não volta, Araujo não voltara. Porém, onde estaria Araujo?

3

María Fernanda conta que da ausência do nome de Araujo àquela chamada, sobrevirá uma certeza confortante, Eduardo estará no próximo contingente. E será outro tempo de espera e apreensão, e será outro o diagrama dos rostos que vão se apresentando, e a este dia, aquela ou outra voz indistinta em seu tom retilíneo, metálico, insosso ao anúncio protocolar dos nomes dos ex combatentes às páginas de uma listagem enorme, e Araujo, onde? Araujo estaria na lista? Seria desta vez que a mãe iria gritar? Em meio ao tumulto das gentes alguém apontará um tipo que teria alguma informação sobre o paradeiro de Eduardo Araujo, e eis que pai mãe e María Fernanda correm até este tipo, e o que se ouve dele é tão desconforme quanto desalentador: Araujo no vuelve. Araujo estaria condenado a permanecer em Malvinas.

A partir daí será um amontoado de datas, e de fragmentos de informação, como vestígios que vão sugerindo a que se ingresse todo aquele que busca a verdade dos fatos. Fernanda nos conta que, ainda em Campo de Mayo, e mais especificamente na enfermaria do regimento do exército, um dos companheiros de trincheira de Eduardo, o cabo Martínez dirá que Araujo fora deixado ferido em Malvinas. Este é um primeiro relato. E o tempo irá girando as suas roldanas, será que está vivo Araujo, será que perdera a consciência, que fora recolhido por um dos soldados maqueiros que, de forma heroica, corria em meio ao fogo cruzado e ao pipocar das granadas, recolhendo os feridos e levando-os aos buques hospitais? Estará vivo e perdido Araujo?

Mas o tempo passa, vai se esticando, a ausência irá ganhando tônus, irá se preenchendo de silêncios, resignação, meias pistas, falsos caminhos.

Fernanda conta que, em 2007, outra informação lhes chegará. A de que na trincheira em que estava Eduardo explodira uma granada. Sob o efeito da onda explosiva, serão ejetados o cabo Martínez e o soldado Miguel Angel González. Nos seus corpos, estarão gravadas as esquirlas [os fragmentos] do explosivo. Os outros três soldados: Sandoval, Arrascaeta e Araujo terão sido mortos no ato da explosão. Passados alguns anos, em outro encontro com Martínez, que parecera imenso modificado em seu aspecto fisionômico, María Fernanda conta que, desta vez, ao ser interpelado, ele relatará os horrores da hora. É que no quando da explosão, e da consecutiva onda calórica, seu corpo foi atravessado das lascas do artefato, e com imensa dificuldade de caminhar, ele se arrastava em meio ao escuro da noite quando os ataques britânicos se intensificavam; Martínez se arrasta para voltar à trincheira, e sente de sob os seus pés, pedaços de corpos. Era o dia 11 de junho de 1982, durante a cruenta batalha de Monte Longdon, o confronto definitivo que selou a sorte da guerra. 

Vejamos como descreve o terror desta batalha Nicolas Kasanzew, correspondente de guerra, em seu livro Malvinas a sangre y fuego:

A noite de sexta feira, 11 ao sábado, 12 [junho] foi um ininterrupto e infernal concerto de tiros e explosões (…), eram inumeráveis as balas traçantes que cortavam o céu. A noite ardia com tanto ruído e tanta chama que parecia estranho que aquilo fosse obra de seres humanos, que fosse uma guerra de fato; parecia uma guerra sacada a um filme, tão espetacular era o que se escutava e se via. A esta altura eu já identificava com precisão alguns dos sons. Às quatro horas da madrugada, depois de uma descomunal explosão, silenciou por completo o cruzeiro Glamorgan atingido por um Exocet instalado em terra (…). Por sua vez, uma das fragatas disparava mísseis contra o radar instalado na entrada do povoado (antes de explodir, os foguetes resvalavam um bom trecho sobre a crosta de gelo que cobria tudo), o inimigo havia lançado um ataque decisivo contra as tropas dos Regimentos 4 e 7 situadas nos montes Harriet, Dos Hermanas e Longdon. Em um dos setores, os ingleses posaram dezenas de helicópteros a frente e atrás das nossas linhas fechando desta forma as tropas numa espécie de anel de fogo. “Foi terrível descobrir que tínhamos o inimigo às nossas costas e que nos haviam cortado o caminho da retaguarda”, relatava um soldado. Em outro setor, os gurkas cumpriram a sua missão de carne de canhão: abriram caminho aos ingleses pisando no campo minado. “Faziam sem qualquer problema – contava um conscrito do Regimento 7 que havia recuado até Puerto Argentino -. Não parecia que lhes importava isto. Corriam rindo, se insultando uns aos outros, vociferando, cantando. Alguns até corriam sem armas, com aparelhos de walk man, escutando música. Tinham os olhos fora das órbitas e uma baba lhes escorria da boca. Vi um deles que se jogou dentro de uma trincheira, arrancou o pino da granada de mão e com uma risada voou em pedaços junto a nossos camaradas9”.

Araujo não volta. Já tem seu lugar, a sua terra, a sua paisagem. Entretanto, Fernanda dirá que é ainda de ausência o de que se trata. Que lhes falta algo material e concreto, que lhes falta reconfigurar o corpo fragmentado aos estilhaços da explosão, que falta reconstruí-lo de entre os vacúolos da memória para que ele se lhes reintegre, a si e a todos. Que sua ‘presença’ incorpórea está carregada de pistas incompletas, e dentre estas, onde o corpo, quede o corpo, os restos mortais? Sabe-se apenas que Eduardo Araujo não está sozinho, que está entre muitos, que está enterrado em uma sepultura não identificada nas Ilhas Malvinas. 

– Corte – 

Pergunto a María Fernanda se Eduardo Araujo é um desaparecido, se Araujo quedou em ser uma vítima de uma guerra que lhe açambarcara? Fernanda rechaça de todo a hipótese que lanço sobre sua memória compartilhada comigo ao longo daquela tarde de Palermo, no elevado da hora de um novembro portenho. Ela me responde: Nem vítima, nem desaparecido. É que tais significantes estão povoados de sentidos que ela não reivindica quando se trata da questão Malvinas. Todavia, lhe devolvo a pergunta – é que não havia durante todo este tempo qualquer identificação inscrita nas cruzes do cemitério de Darwin, onde estavam enterrados os caídos argentinos da guerra de retomada, a gesta de conquista do território usurpado pelos britânicos em sua sanha imperialista. María Fernanda afirma que não se tratavam de sepulturas NN (no nombre), mas de covas SS (sin saber), ou na consigna que encerra em definitivo com a interpelação que eu lhe voltara, ela diz: Soldado argentino solo conocido por dios. Aí estava Eduardo Araujo, porém ainda faltava.

4

Em 2012, começam as consultas às famílias dos combatentes caídos em Malvinas pela equipe de Antropologia Forense. Foram 107 as famílias que prestaram consentimento lhes aportando informações sobre dados físicos e mostras de DNA para a identificação dos corpos. Em 2016, é assinado o projeto entre a Argentina e o Reino Unido, na qual se determinou que a Cruz Vermelha Internacional iria coordenar a equipe de trabalho. Eis o depoimento do coordenador da equipe de Antropologia forense argentina:

Trabalhamos em 121 sepulturas que tinham a placa ‘soldado argentino somente conhecido por Deus’. Os corpos foram analisados de um ponto de vista multidisciplinar – porque aqui intervém a genética, a medicina, a odontologia e a antropologia -, foram tomadas mostras e se lhes voltaram a enterrar em cada sepultura. Ao mesmo tempo, em nosso laboratório de Córdoba, foram comparadas as mostras cedidas pelas 107 famílias junto com as mostras que tomamos dos corpos e pudemos identificar a 90 soldados.10

 María Fernanda conta que, em 2017, certo dia, ela e sua mãe foram convocados a comparecer diante dos cientistas que estavam desenvolvendo o trabalho de identificação dos corpos. Eduardo Araujo havia sido identificado. Seu corpo estava inteiro, e não destroçado, sem qualquer perfuração. Teria morrido do impacto da granada, mas não fora esfacelado. De entre os seus restos mortais, foram encontrados os seus pertences, a identidade, o carnê de pagamento da mensalidade da universidade, objetos religiosos, sua plaqueta de identificação. Estava tudo em perfeito estado, ensacado, envelopado, e lhes foi entregue. Fernanda conta que de sua mãe emergiu um grito gutural, um espasmo intenso integral que estivera represado há décadas. 

Como se fosse uma diástole, uma convulsão explosiva, expansiva, um parto resgatado.

De pronto, lhe pergunto: – e você, como estava a esta hora? Fernanda retoma o tema do tempo suspenso, do tempo que estivera sob a contenção de um dique, do passado que insistia em não passar, do elo que cindira desde aquela metade da viagem na que Eduardo Araujo se fora e não dera sinal de regresso. Era como se os ponteiros se ajustassem no quadro das horas, e se concatenam de tal forma que já se pode seguir adiante.

María Fernanda revela que sua voz lhe foi recuando, modificando, e que foi ressurgindo, uma voz de criança, da menina que fora, voz que lhe ia escapando pela boca, o timbre finíssimo e esparramado como era àquela data da partida de Eduardo, a menina entre nove e dez anos, e ela agora não mais repetia o mantra daquela feita na que Araujo não estava. Sua mãe havia gritado, gritado como nunca o fizera. María Fernanda estava liberada, a partir de agora, para expressar o que vinha de si e se lhe voltava, e ela repetia como se não houvesse hora e modo de parar: 

– Meu irmão me mandou presentes, mi hermano me mandó regalos, meu irmão me mandou presentes!


Esse texto expressa a opinião do autor.

Notas:

  1.  No dia 16 de novembro, María Fernanda Araujo, presidenta da Comisión de Familiares de Caídos en Malvinas e Islas del Atlántico Sur, me concedeu uma larguíssima entrevista, na cafeteria Bakano, no bairro de Palermo Hollywood, em Buenos Aires. Imprescindível destacar aqui a gentileza com que fui recebido e a tranquilidade esclarecedora com que María Fernanda ia respondendo às minhas questões e ponderações. O que era para ser uma entrevista com teto de duas horas, se estendeu até o princípio da noite. Importante também salientar que todas as fotografias que constam neste relato fazem parte do arquivo pessoal da família Araujo. Desde já, reitero o meu agradecimento a María Fernanda e a sua família.
    ↩︎
  2.  Cf. Programa 60 Minutos: entrevista com o General Leopoldo Galtieri durante a sua viagem às Ilhas Malvinas. Produção ATC. 21/04/1982. LINK: https://www.youtube.com/watch?v=vZV0MLQQbrE&ab_channel=ArchivoPrisma
    ↩︎
  3.  IN: KON, D. Los chicos de la guerra – hablan los soldados que estuvieron en Malvinas. Buenos Aires: Editorial Galerna, 1982 (p. 23-24).
    ↩︎
  4.  Em 1960, a ONU aprova a Resolução 1514, com a que proclama a necessidade de por fim ao colonialismo. Em 1965, a ONU aprova a Resolução 2065 que reconhece o litígio pela soberania de Malvinas entre Argentina e Grã Bretanha, instando aos dois países a dialogar e negociar na base do respeito a integridade territorial e dos interesses dos moradores das ilhas, porém não submetidos aos seus desejos. Desde então, a ONU ratificou mais de cinquenta vezes a Resolução 2065 com o rechaço permanente da Grã Bretanha. Em 1973, a Assembleia Geral da ONU aprova a Resolução 3160, pela qual reconhece os esforços da Argentina para conseguir uma solução pacífica em torno da disputa com a Grã Bretanha pela soberania de Malvinas. Insta-se novamente ao comprimento da referida Resolução. Em 1974, a Grã Bretanha oferece, em junho, a devolução das Ilhas Malvinas através de um sistema de administração conjunta ou condomínio. Dois anos depois, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Resolução 31/49: desta forma, se reconheceu os esforços realizados pela Argentina para avançar no processo de descolonização e instou as duas partes da disputa a que se abstenham de adotar decisões que promovam a introdução de modificações unilaterais enquanto as Ilhas estiverem atravessando o processo de descolonização. ↩︎
  5.  Eis um trecho do testemunho de Gustavo Pedemonte, chefe do primeiro grupo da segunda seção do mesmo regimento 7 de infantaria da ciudad de La Plata: “Na noite de 12 a 13 de junho, vi os britânicos executarem em Monte Longdon a um argentino cujas iniciais são A.F. (…) Era uma noite muito clara e muito estrelada, havia lua cheia. Também iluminadas por sinalizadores inimigos, pelos quais pude ver perfeitamente quando vários ingleses mataram a um soldado que caíra ferido. Minha visão era perfeita. Eu estava ferido e me sentia muito mal. Sobretudo depois que caiu um obus dentro de nosso pozo de zorro [trincheira], ferindo ao soldado Petrocelli que estavam conosco”. IN: PACHECO, J. S. Malvinas – y ahora… qué? Buenos Aires: Editorial Plus Ultra, 1996 (p.52). ↩︎
  6.  Cf. PRISMA – Archivo Historico RTA – 2 de abril, Galtieri sale al balcón ante una multitud reunida. LINK: https://www.archivorta.com.ar/asset/galtieri-sale-al-balcon-ante-la-multitud-reunida-02-04-1982/ ↩︎
  7.  Tal ritual nos foi descrito por Silvia Barrera, uma das 5 instrumentadoras cirúrgicas, veterana de Malvinas, em entrevista realizada no dia 29 de novembro, no Hospital Militar Central, no bairro de Palermo. O depoimento de Silvia será objeto de uma próxima matéria a estes Relatos dos Juan Nadies – no que tange ao tema Malvinas. ↩︎
  8.  O noticiário 60 minutos sairá do ar, o sinal de televisão exilará o acontecido, o correspondente oficial de guerra não ocupará mais a bancada da Rede de Televisão Pública (ATC).  É que a presença de sua ausência não lhe chegou de uma só vez, de forma inteiriça e compacta. ↩︎
  9.  KASANZEW, N. Malvinas a sangre y fuego. Buenos Aires: Editorial Abril/Siete Días, agosto de 1982 (p.180-181). ↩︎
  10.  Depoimento de Luís Fondenbrider, diretor da Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF). Link: https://www.cultura.gob.ar/como-trabajo-el-equipo-argentina-de-antropologia-forense-en-la-identificacion-de-soldados-enterrados-en-malvinas_5586/ ↩︎
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