Relatos de Juan Nadies (4): Somente de férias volto a Santiago del Estero

Relatos de Juan Nadies (4): Somente de férias volto a Santiago del Estero

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1

El pasado vuelve cuando desaparece. 
Vacíos que lloran en sus países 
y en arrabales interiores gritan.
Qué vale la cerviz golpeada mucho?

Juan Gelman

A lembrança de Ramón Rosa Herrera encharca de lágrimas os olhos verdes de Monica. É que o pai lhe fora tudo – pai/mãe/mestre/condutor de uma família de seis mulheres e somente um filho homem. E no que tange a este menino, Monica conta que Ramón o mandou ao campo para trabalhar desde cedo na lavoura porque tinha medo que o filho varão caísse nas tentações e amarras do vício, que o filho se perdesse nos tempos mortos em ócio e desilusão que a vida na cidade lhe oferecia. É que diversas regiões da província de Santiago del Estero, no norte da Argentina, sofrem do êxodo estrutural e contínuo seja pela falta de oportunidades de emprego, seja porque os baixíssimos salários pagos pelo mercado de trabalho local não garante o sustento das necessidades fundamentais de suas famílias. Ramón Herrera temia que o filho pudesse ser tragado pelo desconsolo dos que permanecem, ou que a família se fizesse fatiada por uma prematura partida rumo ao sul argentino. Melhor seria que o filho Alejandro, aos 12 anos, seguisse para a zona rural, e crescesse no campo, aprendendo a lida com os animais e para com a terra fértil ao plantio de milho, melancia e abóbora, e assim foi. Não eram ainda os tempos de agora em que o agronegócio viria a impor a monocultura da soja para a exportação. Alejandro aprenderia a acordar com os galos e a se deitar quando a noite se fizesse entrada. Monica conta que Alejandro voltou apenas quando somava 30 anos, com companheira e filho, a vida feita, de mãos e braços calejados pelo manejo da terra, uns poucos alqueires no que plantar de tudo, algumas cabeças de gado a lhe render o necessário; e o mais importante, o irmão a salvo das agruras que tocam àqueles que ficam pelas ruas da capital, que não partem, o irmão era agora homem feito, íntegro e seguro de si. Monica nos lança um olhar carregado de orgulho – ela diz que ‘aos que nada tem de seu’ não é dada a possibilidade de testar a sorte num jogo de tentativa e erro; a família grande, os filhos todos em escada, o primogênito varão e as seis meninas, não havia como errar, e seu pai estava sozinho a frente de tudo, e Ramón Rosa Herrera acertara no arranjo das horas – Monica diz que Alejandro sabe fazer de tudo, é pau para toda obra, levantou a casa batendo laje, aprendera com o pai os quefazeres, é homem sério e responsável para com os seus.

Mas não fora apenas a isto que Ramón Herrera se pusera em tratos, o cuidado com a família coube somente a ele desde que a mãe de Monica deixara a casa e recompusera sua vida com outro homem, com quem tivera mais quatro filhos. Pergunto a Monica se estes meio irmãos são seus amigos, ela responde de pronto que lhes bastam os acenos de “bom dia, como estão, e até logo”. É com mágoas que se foi tecendo este elo de contato, é também com os cheiros da ausência, do abandono que se lhe compõe a tessitura desta família de depois. 

A relação que tenho com minha mãe é de respeito, ela me deu ao mundo, mas é só. Não é pouco isso, mas é só. Desde pequena, quando me dei conta, estávamos sozinhas, eu e minhas irmãs. Até então, em partes do ano, meu pai descia ao sul, para San Bernardo de Tuyú. Ele vinha para trabalhar como cozinheiro e nos enviava dinheiro. Vivíamos de esperas. Era o dinheiro que chegava, e noutros momentos, chegava o pai. Quando no sul começava o frio, ele subia de volta para casa, em Santiago del Estero. Era uma festa quando chegava. A gente vivia numa casa com porteira, e ele fazia um sinal e todas nós corríamos para abraça-lo. Certa feita, ele teve que voltar de pressa, de uma hora para outra, é que minha mãe havia nos deixado na casa de uma tia e se fora. Meu pai voltou e nunca mais desceu ao sul, juntou as filhas, e nos levou de volta para casa, arrumou tudo e nos disse: a partir de hoje, me invento outro serviço, outra profissão. Foi um gesto de amor conosco. Deixou de ser cozinheiro, ele que sabia fazer de tudo, que cozinhava nos hotéis dos balneários para onde iam os portenhos em férias.  Tornou-se bombeiro hidráulico, ele aprendeu a fazer todo tipo de instalação. Na casa de minha infância, a cloaca deixou de ser a céu aberto – era um orgulho isso, numa terra em que ter uma casa com os encanamentos feitos, tudo certinho, era raro, Santiago del Estero é uma região de muita pobreza, nós nunca passamos fome, batalhamos muitos, meu pai teve que se desdobrar, e nós  tivemos que trabalhar desde cedo, eu mesma comecei aos nove anos, cuidando de crianças, mas todo dia voltava para casa, porque nós tínhamos uma casa para voltar, e tudo o que tenho, educação, leitura, os ensinamentos todos, fora o pai que nos proporcionara. Sinto uma falta imensa dele, daquele olhar que nos encaminhava, eu daria a vida para que ele estivesse aqui.

Ramón Herrera faleceu há dez anos. Dos três filhos de Mônica – Exequiel, Agustina e Febe Goncebat, apenas o mais velho se lembra com nitidez do avô, que o ajudou a criar. As meninas, de 23 e 20 anos, tem dele imagens paradas, sem movimento, estanques. Mas Monica herdou a tarefa de contar as histórias da infância, da terra que ficou para trás, do tempo que se foi convertendo em palavras que ela cose com habilidade ímpar no trato das agulhas como se fora a um manejo de instrumentos de arar o solo para o depósito das sementes crioulas. 

2

Del calor al frío con la velocidad de la miseria 
pasan lenguas con escorpiones
almas secas por la ausencia de alma
en lo más alto de su balbuciar flamea 
la soledad de gris vestida

Juan Gelman

 Monica Herrera vive há quatro anos em Villa Gesell, um balneário com 40 mil habitantes, distante 5 horas de Buenos Aires (375 kms) e a uma hora e meia de Mar del Plata (110 kms). De Termas de Río Hondo, em Santiago del Estero são 1.566 quilômetros, ou dia inteiro de viagem em ônibus interestadual. atravessando as províncias de Entre Ríos, Santa Fé e grande parte do estado de Santiago del Estero. 

Com orgulho matreiro, Monica conta que desceu ao Sul da Argentina sozinha, a uma cidade costeira tal como lá atrás fazia Ramón, só que à diferença do que coubera a seu pai, no caso de Monica, seus filhos já estavam em condições de cuidar de si mesmos, e ela decidiu tentar a sorte fora. Era humanamente impossível continuar trabalhando sem que o dinheiro esticasse até o final do mês, e Monica se lançou à estrada. Ouvira de uma amiga a indicação desta paragem, Villa Gesell, que fica a uma hora da cidade em que trabalhava o pai. Era verão, temporada de férias, os portenhos invadindo a larga extensão de suas praias, e Monica soubera que os hotéis estavam empregando gente que acumulasse saberes e ofícios, que se dispusesse a trabalhar como cozinheira, encarregada geral, ou mesmo nos serviços de limpeza. Que os hotéis estavam com ofertas de emprego àqueles que aceitassem a labuta de até doze horas diárias, sem os privilégios garantidos pelos contratos formais de trabalho, sem a garantia da seguridade social, ou das férias remuneradas. Monica não se perde em reclamos, se diz satisfeita, sabe que somente tem a si mesma e a força de seus braços para avançar, seguir em frente, conseguir o de que necessita. Monica conta que aprendera com o pai as artes da gastronomia, a organizar e a dividir os tempos. No período de verão, na alta temporada, ela se multiplica e trabalha nos três hotéis de propriedade de seu patrão. No primeiro deles, já está a postos para organizar o café da manhã dos hóspedes, e de lá, parte para os outros, variando as suas funções e tarefas. 

Segundo Monica Herrera, não seria difícil encontrar uma paragem que superasse as carestias vividas na distante Santiago del Estero. Claro está que a ela lhe caberia manter o espírito ereto, a vontade de ferro, a força inquebrantável que aprendera desde cedo nos ensinamentos de Ramón Rosa Herrera, o saudoso pai. Tal como fora com Alejandro. Tal como se dera com cada uma de suas seis irmãs: Mercedes, Karina, Mabel, Jessica, Marilyn.  E quando os filhos cresceram, resolveu que era hora de colocar em prática e à prova tudo o que pudera aprender com Ramón, e quem sabe, garantir aos seus uma sorte melhor. Monica conta que o primeiro ano foi difícil, que teve que aprender a lidar com o frio de rachar, com a saudade dos seus filhos e dos netos que foram nascendo neste tempo de sua ausência, e eis que ela, hábil tecelã, foi convencendo, devagar e com cautela, a que seus filhos viessem se juntar a ela nos três ou quatro meses em que dura a temporada de verão, e eles foram vindo, um a um, até que a família estivesse junta outra vez. Mônica afirma que tem sido assim nos últimos três anos. Passada a alta temporada, eles pegam o ônibus da empresa Rutatlantica e voltam para Termas de Río Hondo. Lá, com exceção de uma das filhas, os outros dois estão empregados: Exequiel trabalha num hotel, e Agustina, numa fábrica de Alfajores.

Pergunto a Monica, um tanto desconfiado do que escutarei em resposta, sobre o porquê de ela ter se movido, em êxodo, até o sul, de clima e formação social tão distinto do norte argentino:

É que em Termas de Río Hondo, o que se ganha não é suficiente para se viver – os salários não cobrem as despesas do mês, e nos falta trabalho. Trabalhei a vida toda como empregada doméstica e com  gastronomia. Coisa que meu pai nos ensinou o ofício. Mas já não alcança. Lá recebíamos um abono de 20 mil pesos mensais (cerca de 120 reais), não em dinheiro, mas em um cartão de despesa a ser utilizado nos mercados em troca por alimentos. Num certo dia resolvi fazer como o pai, meus filhos já estavam maiores de idade, e desci ao sul, soube que aqui em Villa Gesell se estava empregando gente na rede hoteleira para trabalho temporário e aqui estou há quatro anos. Acho que estou refazendo os caminhos do pai.

Monica Herrera conta que não se importa em trabalhar 12 horas por dia, indo de um estabelecimento a outro, cambiando de funções, entre encarregada da limpeza e no setor de gastronomia, pelo contrário, está satisfeita, e diz que deve muito respeito ao seu patrão. Os três filhos, quando estão em Villa Gesell, trabalham na mesma rede de hotéis. As mulheres no serviço de limpeza como camareiras, e filho mais velho, na recepção, como porteiro. Monica lamenta apenas que os hotéis permaneçam fechados a maior parte do ano por não estarem preparados para o frio intenso que cai sobre Villa Gesell. Durante o largo recesso da rede hoteleira, Monica trabalha como doméstica na casa do patrão, e se torna a responsável pela administração da casa. Ela não se cansa de dizer que o trabalho é mais intenso do que tinha em sua cidade natal, mas não havia como permanecer lá, um dia teve que repetir o roteiro comum aos seus conterrâneos, lançar-se na estrada, seguir em direção ao sul. Ela conta que saiu de uma região em que o calor bate à casa dos 50 graus para as temperaturas negativas, abaixo de zero grau do outono-inverno da costa argentina, mas com o tempo foi se acostumando, e hoje o gelado lhe cabe melhor do que o tórrido.

Não volto mais para lá, somente de férias. Aqui trabalho bem mais, mas o salário é maior. Vivo em uma casa alugada que é do irmão de meu patrão. E consigo juntar algum dinheiro. E a maior parte do dinheiro que junto, mando para lá. Tenho muita gratidão pelo meu patrão, quando cheguei aqui, lhe fiz uma proposta e ele aceitou. Depois, fui trazendo os meus filhos e hoje todos estão empregados nos hotéis do patrão. É ele que garante o sustento de minha família. Ao menos durante a temporada.

Monica se diz preocupada com o avanço do novo governo argentino. É que as coisas que estavam difíceis para todos e, sobretudo para os seus conterrâneos de Santiago del Estero, está piorando em tempo recorde. Ela diz que, em menos de dez dias de governo, foi cortado o cartão de auxílio alimentar que tanto lhe serviu quando vivia no norte argentino. Conta também que o senhor que olhava a sua casa em Termas de Río Hondo, teve que deixar a cidade. Pergunto a Monica o porquê deste serviço – o de olhar as casas vazias da região. Ela conta que como o salário não chega ao final do mês, e como os aluguéis são caros em proporção ao salário, as casas da região que estão vazias costumam ser ocupadas pelos trabalhadores e desempregados da região. É com tristeza nos olhos que ela descreve a tragédia consumada e a que se anuncia. 

Por que você mantém a sua casa lá? Você pretende voltar um dia? 

A casa que tenho é lá. Com papel e tudo. Aqui a casa que moro é alugada. Eu precisava consertar o que estava faltando. Fazer os encanamentos, ajeitar a cloaca

Pisco os olhos em sua direção, e lhe pergunto se ela percebe que está repetindo os passos de seu pai Ramón. Ela me lança um sorriso tímido e me responde que já se perguntou sobre isto, e que na maior parte das vezes, vai fazendo as coisas sem se dar conta, é que nos seus termos, a gente trabalha tanto, tem tanta responsabilidade para resolver que nem se dá conta do que a vida nos vai colocando pelo caminho.

3

Contaba cosas de la lluvia?
A dónde irán palabras que
no pudieron nacer y venían en barco
como demostraciones de un mar corto?
en que vacío entraron puras pegadas a mís muertos?

Juan Gelman

Monica Herrera gosta de contar as lendas de Santiago del Estero. Sabe que nelas está acumulado um bocado do saber que provém do povo, das gentes humildes e oprimidas que carregam em si o ensinamento do que se vai colhendo nas jornadas de trabalho e na vida em comunidade. Um bocado destas lendas é feita do realismo mais seco e árido; a outra metade, de uma espécie de relato mágico e fabular que parece portar a chave oculta do que se vai descrevendo. É que nem tudo é o que pode ser dito de forma nua e crua, e àqueles que têm poucas balas à agulha, sabemos, Monica sabe, não trazem consigo as artimanhas da tentativa e erro. Tantas vezes uma palavra mal colocada vem seguida de tanta dor, miséria e morte. Por seu olhar discreto se percebe os silêncios que Monica acolhe e as palavras cuidadas na hora de transmitir algo, afinal é melhor contar as coisas às entrelinhas porque o bom entendedor saberá tirar lições para si e para todos. Esta é a função da história, das lendas, de sua tradição oral de que Santiago del Estero é imenso rica, lendas que cumprem as tarefas de ir costurando sentidos, atravessando rotas e estradas, enxertando de senhas a fratura do êxodo, chegando em regiões inóspitas, acautelando-se entre as gentes durante as refeições e no descanso das jornadas de trabalho. Perguntei a ela se conhecia a lenda do El Perro Familiar – o cão de olhos de fogo, que era metade cão, outra metade demônio, e que cuidava dos interesses dos patrões que eram os donos das safras, das terras, do maquinário, do comércio local e exterior, das vidas dos seus trabalhadores. El Perro Familiar era o responsável pelo ordenamento dos trabalhadores campesinos no período de safra. Ela me olhou desconfiada, abaixou os olhos, abriu um sorriso de canto de boca, e balançou afirmativamente a cabeça. Monica me contrapôs um sem número de temas que guardo anotados para breve e oportuna investigação: Telesita, Mayu Maman, a Salamanca, Toro Yacu, Crespín e Supay. Muitos destes intimamente associados ao espaço agrário, ao campo, ao trato e os cuidados da riqueza extraída da terra, ou da lida com os animais de corte, a propriedade dos senhores terratenientes. 

Quando me preparava para encerrar a conversa, afinal as tarefas do ofício lhe chamavam ao cargo, Monica me falou da cidade submersa, um vilarejo vizinho a sua cidade natal, Termas de Río Hondo. Ela conta que fora a profecia de um santo que, certa feita, passara por ali, que necessitara de água para alimentar os animais da comitiva e as gentes que seguia com ele, mas como os moradores fizeram pouco caso de sua solicitação, o santo lhes lançara a maldição: Salta saltará, San Miguel florecerá, y Río Hondo se hundirá. Pergunto a ela quando foi que isto se deu. Ela diz para que eu investigue nos livros de história. 

– Você quer que eu procure nos livros de história a praga lançada pelo santo?

Ela ri e me responde:

– Isso do santo as pessoas contam. É melhor para elas dizer que tudo foi por causa do santo que não recebeu água que precisava. Mas não foi bem o santo que tava precisando de água, não é? Fosse o caso, ele que era santo, fazia um milagre.

Monica tinha razão. Esperta como ela só. Numa busca rápida se chega ao ano de 1966, ao histórico êxodo de uma cidade inteira, Villa de Río Hondo, que submergiu pela força das águas represadas quando da construção do dique El Frontal, pelo governo de facto de Juan Carlos Onganía, pouco tempo depois do golpe de Estado que implantou a ditadura empresarial militar entre os anos de 1966-1973. E Monica, sem nada dizer, estava certa, não era o santo o que seria beneficiado pelo pote de água que os habitantes do povoado lhe teriam recusado; eram os latifundiários da região que, precisando de água para as suas terras e investimentos, sequer buscaram saber que havia uma cidade de intermédio, e que na cidade haviam gentes, haviam saberes, costumes, formas distintas de vida, mas o que importa isto afinal àqueles que precisavam da água, e que sem se dar conta no balancete de seus cálculos atuariais, fez valer os instrumentos do Estado e seus lacaios de plantão ao cumprimento de seus intentos.

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