A agitação dos generais de pijama e silêncio de Luiz Inácio

Se Luiz Inácio ouvisse não a interpretação do ministro Flávio Dino, mas os pedidos dos familiares das vítimas dos crimes praticados por aqueles que Paulo Chagas elogia, reabrindo a Comissão dos Mortos e Desaparecidos do regime militar, numa canetada, já teria feito muito mais pelo enfrentamento do golpismo do que em toda sua trajetória recente.

A agitação dos generais de pijama e silêncio de Luiz Inácio

Se Luiz Inácio ouvisse não a interpretação do ministro Flávio Dino, mas os pedidos dos familiares das vítimas dos crimes praticados por aqueles que Paulo Chagas elogia, reabrindo a Comissão dos Mortos e Desaparecidos do regime militar, numa canetada, já teria feito muito mais pelo enfrentamento do golpismo do que em toda sua trajetória recente.
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No dia 31 de março, o ministro Flávio Dino afirmou que o papel das Forças Armadas é “subalterno” em relação aos três poderes constitucionais. Dino escolheu divulgar o seu voto na discussão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre os limites constitucionais da intervenção das Forças Armadas reacionárias nessa data no objetivo de ser uma posição de denúncia aos 60 anos do golpe de 1964. Além disso, a declaração se insere no contexto da disputa entre o STF e as Forças Armadas. Por atitude, Flávio Dino não ganhou sequer um elogio dos integrantes do governo federal, que seguiram à risca a ordem de silêncio dada por Luiz Inácio.

Se no governo, o voto não teve maiores repercussões, entre os generais reservistas a declaração causou um enorme burburinho. Dentre os gorilas de pijama que se indignaram com o voto de Dino, Paulo Chagas se destaca. Chagas é ex-presidente da organização de galinhas-verdes Terrorismo Nunca Mais (Ternuma) e foi o candidato derrotado em 2018 para o cargo de governador do Distrito Federal pelo PRP – justamente o partido de Ademar de Barros, um dos maiores nomes dentre as vivandeiras de quartel!

Em suas redes sociais, Chagas caracterizou a pessoa e as atitudes de Dino como “espírito de porco”. Ele ainda afirma que a proximidade da passagem dos 60 anos do golpe militar de 64 “explica a excitação” do “comunista” e “derrotado” Dino. Sem ser brilhante em sua capacidade de redação, Chagas conseguiu pelo menos demonstrar a sua enorme indignação. Mas não terá sido ela acima do tom, já que o próprio gorila de pijama caracterizou o comportamento de Dino como “inócuo que visa não mais que colher alguma reação de quem não perde tempo com provocações infantis e sem nexo”?

Noves fora a patética caracterização de Flávio Dino como “comunista”, a posição de Paulo Chagas expressa a disposição da extrema-direita de polarizar com o governo de Luiz Inácio. O próprio Ternuma já acusou, em 2008, os comandantes militares de covardes por não defenderem o torturador Brilhante Ustra de denúncias de familiares. Não é, portanto, novidade alguma tal agitação.

O governo federal de Luiz Inácio é que impressiona, já que não deu qualquer guarida para a ação solitária de Dino, ex-ministro da Justiça. A política de Luiz Inácio segue sendo a de apaziguar a relação com os generais. De fato, é um grande erro confiar na interpretação do STF para o enfrentamento das baionetas empunhadas por golpistas. Os comandantes das Forças Armadas reacionárias não pensam duas vezes em romper as regras das boas relações institucionais com o presidente da vez. Sempre que surgiu a avaliação de que o sistema de exploração e opressão está em perigo, os militares lançaram mão da sua intervenção. E já que são tantas as variáveis que concorreram para tal interpretação, é insensato achar que a porta do golpismo está fechada –  sobretudo frente aos abalos que o país e o mundo atravessam, sejam os de ordem políticas, econômicas ou militares. Na verdade, a porta da intervenção militar está encostada justamente para não que não se veja em detalhe o que é que há ali dentro.

No lugar de encostar a porta, é preciso abri-la para que se veja toda a podridão que são as Forças Armadas. É preciso escancarar que os currículos de formação de militares são os mesmos moldados pelo Pentágono. E que a experiência durante os anos de chumbo as refinaram mais e mais na contrarrevolução. Se Luiz Inácio ouvisse não a interpretação do STF, mas os pedidos dos familiares das vítimas dos crimes praticados por aqueles que Paulo Chagas elogia, reabrindo a Comissão dos Mortos e Desaparecidos do regime militar, numa canetada, já teria feito muito mais pelo enfrentamento do golpismo do que em toda sua trajetória recente.

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